Existem três fundamentos da sabedoria: discrição ao aprender, memória ao reter e eloquência ao contar.

Antiga tríade irlandesa

23 Outubro 2014

[DESTAQUE] Valter Hugo Mãe com Novo Livro em Novembro - «O Paraíso São os Outros»


O Paraíso são os outros
Valter Hugo Mãe

Ilustrador: Esgar Acelerado
Págs.: 48
Capa: dura
PVP: 12,20 €

Valter Hugo Mãe para os mais novos 
O Paraíso são os outros inaugura colecção de contos do escritor

A 3 de Novembro a Porto Editora publica um novo livro de um dos principais escritores portugueses contemporâneos. O Paraíso são os outros, que parte da inocência pueril e toca também a sabedoria dos mais crescidos, inaugura uma colecção de contos de Valter Hugo Mãe. Nesta obra, narrada com o estilo singular do autor e ilustrada por Esgar Acelerado (ver página 3 do presente documento), a personagem principal, uma menina fascinada pelo amor, usa a imaginação para antever e descobrir o que é a felicidade. Distinguido com o Prémio José Saramago, o Grande Prémio Portugal Telecom para melhor livro do ano e o Prémio Portugal Telecom para melhor romance, Valter Hugo Mãe tem vindo a ser cada vez mais reconhecido em Portugal e no estrangeiro. Em Setembro de 2013, a Porto Editora publicou o mais recente romance de Valter Hugo Mãe, intitulado A Desumanização, já na 5.ª edição.

LIVRO
O amor constrói. Gostarmos de alguém, mesmo quando estamos parados durante o tempo de dormir, é como fazer prédios ou cozinhar para mesas de mil lugares.
O Paraíso são os outros é a história que nos conta uma menina que observa como são os casais. Casais de pessoas e casais de animais. Uma menina a quem o amor intriga e fascina. Ao imaginar a vida dos outros, sonha com a sua pessoa desconhecida que um dia há de amar. Pode até ser o Miguel ou não – há tanta gente maravilhosa! Ao inventar a felicidade, ela já sabe tudo o que é preciso para se ser casal. Um livro que parte da inocência pueril e toca também a sabedoria dos mais crescidos.

AUTOR
Valter Hugo Mãe nasceu em Saurimo, Angola, no ano de 1971.
Licenciou-se em Direito e é pós-graduado em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea.
Publicou os romances: o nosso reino; o remorso de baltazar serapião, Prémio José Saramago em 2007; o apocalipse dos trabalhadores; a máquina de fazer espanhóis, Grande Prémio Portugal Telecom, categoria melhor livro do ano, e Prémio Portugal Telecom, categoria melhor romance do ano, em 2012; O Filho de Mil Homens e, recentemente, A Desumanização. A sua poesia encontra-se reunida no volume contabilidade.
Escreveu diversos livros ilustrados para os mais novos, entre os quais: Quatro Tesouros; O Rosto e As mais belas coisas do mundo. Valter Hugo Mãe é vocalista do grupo musical Governo
(www.myspace.com/ogoverno), projeto que editou o EP Propaganda Sentimental, com cinco canções, através do selo Optimus Discos. Escreve as crónicas Autobiografia imaginária, no Jornal de Letras, e Casa de papel, na revista de domingo do jornal Público. Outras informações sobre o autor podem ser encontradas no Facebook (Valter Hugo Mãe – Pag. Oficial) ou em: www.valterhugomae.com

Festival Novo Jornalismo começa Amanhã



Esta primeira edição do Festival abre com a conferência de Joaquim Furtado, figura ímpar do jornalismo em Portugal, prossegue com as mesas-redondas, que vão olhar o jornalismo e a escrita de não-ficcção ao microscópio, e encerra com a intervenção do fotojornalista João Francisco Vilhena.


É já a partir de amanhã, 24 de outubro, que Santo Tirso acolhe a 1.ª edição do Festival Novo Jornalismo, um evento que pretende debater e olhar à lupa os temas caros à escrita de não-ficção dos dias de hoje, bem como os recentes desafios do jornalismo.
A abertura estará a cargo de Joaquim Furtado, figura de referência do jornalismo em Portugal. Convidado a dar o mote ao Festival, Joaquim Furtado fará uma panorâmica sobre o seu próprio percurso profissional e daí partirá para uma reflexão sobre o jornalismo que se faz na atualidade.

No sábado, 25, Joaquim Vieira, Miguel Pinheiro e Rui Ramos conversam com Tito Couto acerca da escrita e da publicação de biografias, um género que vai crescendo em Portugal numa altura em que alguns ventos se levantam em torno das biografias não-autorizadas, nomeadamente no Brasil. A moderação está a cargo de Tito Couto.

Logo depois, Carlos Magno, Francisco José Viegas e Paulo Moura discutem a ética e a deontologia da não-ficção, género que ganha cada vez mais músculo no estrangeiro e ao qual o meio editorial português vai estando cada vez mais atento. Que cuidados deve ter um jornalista quando escreve fora da alçada das redações? Um relato em forma de livro obriga a ouvir todas as partes? Eduarda Maio faz a moderação.

A terceira mesa da programação de sábado recebe David Dinis, Gustavo Sampaio e Ricardo J. Rodrigues. À provocação «Scoop, a culpa é da Internet!» os três participantes respondem com formas e engenhos de narrar a realidade, numa época de desmaterialização dos jornais e de dispersão de públicos. Afinal, o que é isso do jornalismo cidadão? E paga-se para isso? A moderação está a cargo de Felisbela Lopes.

«Livro: a casa grande do jornalismo» é o tema lançado aos jornalistas Joana Pereira Bastos, Paulo Pena e Rita Garcia. E a partir dele vamos perceber se, ao encolher de espaço na imprensa tradicional, corresponde um aumento de importância do livro enquanto suporte do jornalismo de investigação.  A reportagem de grande fôlego, o jornalismo de viagem: estaremos a falar de géneros que já não passam sem badanas? Pedro Vieira faz a moderação.

A partir das 21.30, o fotojornalista João Francisco Vilhena protagoniza a conferência de encerramento intitulada Polaroides&Poemas. Será a fotografia um meio de salvação da imprensa? Que papel cabe ao álbum de família e à memória?

A partir destas questões e do seu percurso, João Francisco Vilhena encerra o Festival Novo Jornalismo, um evento que se quer de referência nas áreas em questão. E que promete continuar à procura das melhores manchetes da não-ficção.

22 Outubro 2014

Entrevista a Carla Lima, Escritora Portuguesa

Conheci, virtualmente, a Carla Lima graças às redes sociais. Nisto da descoberta de novos autores e projectos, desta vez funcionou ao contrário e foi a Carla que se apresentou e ao seu Baloiço Vazio. Ainda bem que o fez, pois foi uma leitura bastante diferente e o próprio percurso da Carla, enquanto autora, é uma espécie de exemplo, para quem se quer iniciar no mundo da escrita, no sentido dos cuidados que deve ter antes de assinar um contrato com uma editora. Nem tudo o que parece é, só posso desejar que Carla Lima continue a evoluir na sua escrita e nos seus enredos e que possamos ver mais obras suas cá fora. 


Carla, fala-nos um pouco sobre ti e como se iniciou esta aventura na escrita.
Nasci em S. Miguel, Açores. Com 18 anos fui para Lisboa estudar Psicologia mas passados três anos mudei para Cinema e posteriormente para Argumento na Restart. Este curso proporcionou-me um estágio nas Produções Fictícias que foi muito valioso em termos de aprendizagem de vários estilos de escrita: humor, rádio, televisão, guiões de entrevistas, etc. Depois fiz um Curso de Introdução à Criação Literária com a escritora Rita Ferro de onde saiu o livro “O baloiço vazio”.
Mas a escrita sempre esteve muito presente na minha vida devido à minha imaginação fértil e a ter começado a ler muito cedo. Na primária escrevia composições sobre reinos fantásticos com príncipes e princesas. E em casa inventava histórias para contar à minha irmã mais nova. 
Com dez anos comecei a escrever um diário. Nesse diário tudo é ficcionado mas baseado em casos reais. (risos) Imagina. Um simples jantar com a minha família é transformado numa “Festa de Babette”.  Actualmente quando o releio “choro a rir”. Aliás nem sei se hei-de chorar ou rir…
Na adolescência, influenciada pela Florbela Espanca, iniciei-me na escrita de poesia. Como sofria muito por amor fechava-me no quarto e desfiava palavras, que para mim eram poemas de amor, ao som da música da Tracy Chapman.
Quando fui para a Universidade deixei de escrever. Nem poemas, nem no diário, nem pequenas histórias. Mas sempre tive pequenos blocos na mala onde escrevia frases, pensamentos, ideias, que depois usei no livro “O baloiço vazio”.


Que outras actividades, para além da escrita, é que tens?
Neste momento estou desempregada. Só escrevo. Mas adoro ver filmes e ler. São os meus três vícios. Costumo fazer alguns trabalhos como freelancer. Pedem-me ajuda na escrita de guiões para curtas-metragens. Mas neste momento aproveito o tempo livre para escrever o segundo livro.


Como caracterizarias o teu estilo e ritmo de escrita?
É uma pergunta difícil. Como só tenho um livro publicado acho que ainda não tenho um estilo bem definido. Estou a apurá-lo à medida que vou escrevendo mais. Mas acho que posso defini-lo como simples, depurado. Digo isto no sentido de que não uso palavras que ninguém percebe ou têm de usar um dicionário. É uma linguagem acessível e abrangente. Também gosto de usar frases curtas. E o melhor para mim é “brincar” com as palavras. Há palavras que são tão bonitas pela sua simplicidade e que não precisam de grandes parágrafos ou floreados para terem força.


Consegues definir as tuas influências?
Ui! Tantas. Como comecei a ler muito cedo há vários autores que marcaram diferentes alturas da minha vida e isso reflecte-se na minha escrita. Quando era mais nova adorava Florbela Espanca, Shakeaspeare, Fernando Pessoa, Milan Kundera e Edgar Allan Poe. Sou fã de toda a saga do Adrian Mole da Sue Townsend. Depois comecei a interessar-me por Miguel Esteves Cardoso e Pedro Paixão, que julgo ser a minha maior influência. Tenho todos os seus livros e adoro a sua escrita. Actualmente gosto de Raymand Carver, Julian Barnes e Haruki Murakami. E tenho estado a descobrir a poesia de Leonora Rosado, a poesia e prosa de Licínia Quitério e o espantoso universo de Valério Romão. Gosto de autores que me surpreendam sem “rodriguinhos” e que abordem temas que me cativam como o amor, a morte, a loucura.


Baloiço Vazio é o teu primeiro livro. Um livro diferente, fora do formato do romance tradicional. De onde surgiu a ideia de construíres esta obra?
Andava a tentar escrever um livro desde os dezasseis anos. Mas sempre tentativas frustradas. Porque ao contrário do que muitas pessoas pensam escrever um livro é muito difícil. O livro surgiu no “Curso de Introdução à Criação Literária” da escritora Rita Ferro. Eu não me inscrevi no curso com esse objectivo. Naquela altura estava a morar em Lisboa e tinha um trabalho das 9h às 18h que nada tinha de criativo. O meu dia-a-dia era trabalho, casa, casa, trabalho. E quando tinha folga estava tão cansada que passava o dia a dormir.
No primeiro dia do curso a Rita disse que o objectivo era tentar escrever um livro nos três meses de duração do curso. Eu pensei que ela estava louca. O curso era uma vez por semana e que tínhamos de levar cinco páginas por aula no mínimo. Na aula seguinte não levei nada. Todos os meus colegas levaram. A Rita zangou-se comigo e disse que se não estava ali para escrever mais valia desistir do curso. Eu disse-lhe que não tinha nada para contar e que pensava que ela ia ensinar como se escrevia um livro. Ela respondeu que não se ensina a escrever um livro e que toda a gente tem algo para contar. E que como castigo na aula seguinte eu teria de levar dez páginas ou desistia do curso. Fui para casa. Não conseguia dormir. Levantei-me da cama, abri o portátil, meti o cd da banda sonora do filme “O fabuloso destino de Amélie Poulain” em loop, a minha gatinha persa branca Nelly aninhou-se no meu colo e comecei a chorar. Escrevi a primeira frase. E nunca mais consegui parar. Todos os dias quando chegava do trabalho abria o portátil, a Nelly aninhava-se no meu colo, metia o cd em loop e começava a chorar e a escrever. O livro foi todo escrito assim. Semanalmente levava as páginas escritas para a aula que eram lidas em voz alta e comentadas pela Rita Ferro e pelos colegas.
O facto de ter ficado fora do formato tradicional não foi intencional. Saiu assim. O livro não foi pensado. Os capítulos e as personagens foram nascendo à medida que fui escrevendo. Disse uma vez à Rita que levantava-me a meio da noite porque as personagens precisavam de falar e eu tinha de escrever. Foi um processo muito doloroso. Mas no fim compensou. Nunca na vida pensei em conseguir escrever um livro e ter agora pessoas a falar sobre ele e a darem um feedback tão bom. Aquece-me o coração.


Consideras que é importante deixar as perguntas no ar? Qual foi o objectivo ao misturares tanto espaços temporais como percursos alternativos das personagens?
Como disse anteriormente o livro não foi pensado. Quando revi o livro pensei em várias hipóteses. Uma era aumentá-lo. Escrever mais páginas para tentar explicar algumas situações e dar mais detalhes sobre algumas personagens. Quando tentei fazer isso e revi-o novamente, não gostei nada. Perdia a mística inicial. O mistério. Algumas pessoas ficam indignadas quando acabam de ler o livro e perguntam-me sobre o futuro de algumas personagens mas eu não respondo porque acho que a magia está em cada pessoa tirar as suas próprias conclusões. E tem sido engraçado ver as interpretações de cada pessoa. Porque o livro ganha imensas dimensões. Daí também ter optado por uma estrutura não linear relativamente aos espaços temporais. Assim o livro obriga o leitor a estar mais atento aos pormenores. Em cima perguntavas pelas minhas influências. Agora lembrei-me de uma óbvia. O David Lynch. Todos os seus filmes deixam em aberto diversas interpretações consoante o espectador. E ao deixar as perguntas quem sabe se não virá um “O baloiço vazio 2”? ;) 


E o processo de edição, como foi? O que é que te fez editá-lo pela Pastelaria Studios? 
Bem, esta pergunta eu gostava de evitar mas posso dizer algumas coisas. Depois de ter o livro escrito enviei-o para diversas editoras. Algumas deram respostas afirmativas mas eram todas de Portugal Continental e nessa altura eu estava a morar nos Açores e queria ter um contacto directo com a editora. Entretanto apareceu aqui uma possibilidade de editar com a Pastelaria Studios que fica em Lisboa mas tinha um contacto em S. Miguel que tratava de tudo. Assinei pela Pastelaria e enfim. Tem sido uma caminhada difícil mas eu gosto sempre de ver o lado positivo das coisas. Uma é que conheci a Carolina Cordeiro que reviu o meu livro e fez o excelente prefácio e ajudou-me e fez a apresentação do livro. E a outra é que aprendi a não confiar em editoras e fazer as coisas por mim. Acho que as editoras não fazem ideia do trabalho que dá escrever um livro e do amor que nós temos por ele e que custa muito sermos “explorados” quando nós é que somos os autores. Sem autores não haveriam livros para as editoras venderem. E custa mais ainda sermos ignorados…


Numa pequena pesquisa, não encontrei o teu livro disponível em nenhum site online. Como é que tem sido a distribuição e como é que os leitores podem encontrar o teu livro e comprá-lo?
O livro esteve à venda nos sites da Bertand e da Wook mas neste momento diz que está esgotado ou indisponível. Gostaria de saber explicar o motivo mas não sei. Está à venda no site da editora mas não recomendo comprarem por lá. Está à venda na livraria Ler Devagar em Lisboa. E podem comprá-lo a mim. Tenho um facebook do livro: www.facebook.com/baloicovazio. Quem estiver interessado em adquirir o livro entre em contacto comigo por mensagem privada neste facebook. O preço é 10 euros com portes de envio incluídos, autografado e com dedicatória. O pagamento é feito por transferência bancária e é enviado por correio.


Sei que estás a escrever algo novo. Queres-nos falar um pouco sobre isso?
Posso abrir um bocadinho a “porta” do próximo livro. O estilo é parecido com “O baloiço vazio”. Continuo a brincar com o espaço temporal e com as personagens. Neste estou a tentar ser mais complexa no enredo. Mais personagens, mais mistérios. Gostava que fosse quase como um policial mas a vertente do romance é mais forte e volto aos mesmos temas. Paixão, morte, loucura. Neste estou a tentar explorar um novo tema que é a velhice. Acho que já falei demais… ;)


Que objectivos é que tens para a tua carreira como escritora?
Ainda não me considero uma escritora. Acho que ainda tenho de “comer muita sopinha” para chegar aos calcanhares de alguns escritores. Considero-me uma pessoa que gosta de escrever e tem de escrever. Tenho histórias e personagens dentro de mim. O meu maior objectivo neste momento é continuar a escrever e lançar um segundo livro. Mudar de editora é outro objectivo. Aliás era um sonho ter a minha própria editora e descobrir novos talentos e tratá-los com o devido respeito e dignidade que os autores merecem.


Se te tirassem a possibilidade de escrever, o que é que achas que acontecia à Carla Lima pessoa? 
Se me tirassem a possibilidade de escrever a Carla Lima enquanto pessoa ficaria incompleta. E teria de fazer outra coisa que seja criativa. Seria bailarina ou realizadora de cinema. Mas enquanto tiver forças para lutar espero continuar a escrever. E mais importante, a ser lida. Porque um livro sem leitores é como um jardim sem flores.


[Opinião Blog Morrighan] «5 Monstros», de Tio Rex


Por vezes chegam até mim projectos únicos. Alguns deles com pouco tempo de existência, mas outros já com algum tempo de vida e que me provocam um sentimento de incredulidade - como é que não descobri isto antes? Ao chegar até mim, ainda em áudio, o «5 Montros» pela Biruta Records, do Tio Rex, para além de ter ficado fascinada com a sonoridade, obriguei-me a procurar mais sobre este músico. Para meu espanto, já tinha dois EPs e um LP lançados. Os primeiros trabalhos completamente gravados em casa, tendo apenas este último ido para o estúdio. O fascínio aumentou ainda mais quando peguei pela primeira vez na edição física deste disco - ao contrário do que é "tradicional", como a caixa de plástico, um folheto impresso e o cd, Miguel Reis (Tio Rex), oferece-nos um autêntico livrinho. Tem capa, contracapa, fotografias, ilustrações, letras das canções e ainda os devidos créditos. Com a colaboração da Marta Banza na fotografia e da Ana Polido no artwork, o resultado final é uma delícia de se ver, folhear e explorar. É bom sentir que há quem não fique apenas pelo som, que faça com que a música ganhe vida e forma através de outras expressões artísticas e que assim o universo imagético do disco fique complementado, sublime na simplicidade e intensidade que transmite. 

«5 Monstros», 5 canções, 5 fotografias e 5 ilustrações. Uma viagem ao universo do músico Miguel Reis que conta com a participação vocal de Marta Banza e com a colaboração de Fast Eddie Nelson na última música - Judas. 

É impossível começar o disco, com a faixa JOE, sem associar imediatamente o som inicial à fotografia. O compasso marcado pelos espaços e pelo assobio leva-nos pela mão, quase temerários, ao universo destes monstros por explorar. A própria letra em si (já publicada aqui), leva-nos por um imaginário sombrio, satírico, até mesmo folclórico. Também o vídeo, editado por Hugo Martins a partir de clips de The Lodger: A Story of the London Fog (1927) por Alfred Hitchcock complementa essa experiência sensitiva - "E agora que está tudo feito, / Onde é que vou enaltecer a minha pequenez?


Segue-se Autofla-Gela-Ção, com uma guitarra intimista, um lirismo puro, num ritmo mais calmo, e onde a voz de Marta traz um embalo suave, uma sensibilidade que nos invade e que quando conjugada com a voz de Miguel, nos invade e nos fragiliza um pouco. É uma música muito bela, mas triste ao mesmo tempo. Evoca o abandono por si mesmo, porém também parece chamar a si mesma alguma da esperança perdida. É, sem dúvida, uma das minhas músicas preferidas. "Ao menos que um dia alguém siga as pegadas... / Eu destranco a porta trancada."


Em contraste, vem o Gigante, a terceira música deste EP. Este novo monstro, em tom saltitante, realça a marca que se deixa no tempo depois de se lutar, quer o resultado seja a vitória ou a derrota. "Por isso baixem as cabeças em respeito, / Este herói combateu o tempo... / Não se foi sem deixar marca na memória de um momento." A nível sonoro, voltamos a entrar mais dentro do folk, numa melodia animada e dançável. 


Continuamos com D. Eu I, novamente num ritmo mais calmo, num confronto com o seu eu, com as consequências dos seus medos e o seu julgamento. "Mais um dia e não fui eu quem levantou o estore, / Só encontro o meu conforto debaixo do lençol." É, para mim, a música que mais solidão transmite, que pelas várias texturas sonoras nos invade mais intensamente e nos transporta para todo um mundo de divagações sobre os nossos próprios monstros. A letra, uma chapada de luva branca ao passado - "O fantasma que vi, e me mandou embora, / Viveu dentro de ti e agora atormenta-me a mim."



Judas, nome que é associado à traição, começa com a declamação de Miguel Reis e é seguida pela sonoridade única de Fast Eddie Nelson, conjugada com a guitarra de Tio Rex. Este jogo de guitarras que vamos acompanhando ao longo de toda a canção chega a ser arrepiante, tal o poder que tem em provocar as mais diversas emoções. "Cobarde, deixo o vento fumar este cigarro por mim." Uma colaboração que, na minha opinião, funcionou lindamente. 

E assim termina este EP que, pela sua qualidade, soube a pouco. Queria mais. Confesso que gostei muito deste registo em português. Se os trabalho anteriores estavam maioritariamente em inglês, toda a conjugação das músicas, letras, edição física e vídeos, trazem toda uma essência Portuguesa ao trabalho de Tio Rex, mesmo que este seja inspirado pela música folk americana, não tão explorada no nosso país. É com orgulho que falo sobre este trabalho, sempre numa perspectiva pessoal e segundo a minha interpretação do mesmo, e só posso desejar que o futuro sorria a Miguel Reis. Para alguém que caiu na música sem querer, enquanto passava uns tempos na Madeira (todas estas informações brevemente em entrevista), penso que foi Portugal que, quase sem merecer, ganhou um músico cheio de talento. 

ShareThis

Seguidores

FACEBOOK

Goodreads

2013 Reading Challenge

2013 Reading Challenge
Sofia has read 1 book toward her goal of 100 books.
hide

parceiros

Nº de Visitas