BRAN MORRIGHAN

Coura 2016, pelo Eugénio Ribeiro

««« O Eugénio foi pela primeira vez ao Paredes de Coura e coube-lhe a tarefa de ir representar o blogue como imprensa. Eu sei, eu já escrevi, de forma pouco inspirada, a minha experiência, mas a intenção era que o Eugénio escrevesse também. Aqui fica o seu texto, o estilo pode ser diferente, mas a honestidade e sinceridade mantêm-se »»» Sofia


Ao longo desta reportagem vão provavelmente reparar que o estilo de escrita é diferente do habitual. Isso é porque a Sofia este ano anda muito ocupada com as tarefas de manager e, por isso, eu ofereci-me para escrever por ela. No entanto, ela é teimosa e não foi capaz de deixar de escrever também. Ainda assim deixo aqui a minha opinião.

Esta foi a minha primeira vez em Paredes de Coura e, como tal, não tenho as recordações que fazem a Sofia dizer que este é o melhor festival do mundo, independentemente do que aconteça. No entanto, posso desde já dizer que me arrependo de não ter vindo antes, especialmente pelo ambiente que envolve o festival, tanto durante o mesmo como nos dias que o antecedem.

Nós chegamos no Domingo e, por isso, os concertos na vila já tinham começado no dia anterior. Ainda assim, fui surpreendido pela quantidade de pessoas que já estavam presentes na zona de campismo. Para mim, isto revela que este festival não vive apenas dos concertos, mas sim de toda a envolvente. Falando do campismo, tenho a dizer que nunca estive num festival que desse tão boas condições como este, com casas de banho em grande número e quase sempre limpas (as senhoras estavam praticamente à espera que as pessoas saíssem para limpar), duches também em grande número e separados por sexo (sobre isto ouvi algumas queixas de pessoas de ambos os sexos Ahah), sítio para carregar o telemóvel, algumas barracas com comida bastante apetecível e uma grande proximidade quer do rio, nas margens do qual as pessoas passam a tarde, quer do recinto do festival. Para finalizar este assunto devo apenas dizer que quem pretende descansar decentemente deve escolher outra opção, porque no acampamento é difícil adormecer antes das 5 ou 6 da manhã devido à animação proporcionada por todos os presentes. Mas é essa a ideia do festival, não?

Relativamente aos concertos na vila só posso falar a partir do segundo dia, que foi quando chegamos. Este dia ainda coincidiu com as festas do município, o que teve duas consequências. Por um lado, quer os festivaleiros quer os habitantes de Paredes de Coura puderam escolher e/ou alternar entre os concertos do festival, da banda filarmónica e das bandas pimba. Por outro lado, isso fez com que os concertos do festival tivessem de ser em sítios que não a praça central da vila. Neste caso foram na Caixa da Música que, sendo um espaço fechado de tamanho bastante reduzido, não foi capaz de conter todos os interessados em assistir aos concertos. Para além disso, apesar de não ser permitido, havia bastantes pessoas a fumar lá dentro, tornando o ar pesado e fazendo com que fosse desconfortável lá estar. Ainda assim, a energia dos músicos conseguiu sobrepor-se a isso, com os Paraguaii a darem um concerto cheio de energia. O baixista parecia querer dar o seu próprio show, incitando os presentes a partir tudo, saltando em cima dos monitores e chegando até a cair em palco. Isto enquanto os restantes membros apelavam a um pouco mais de calma porque os Galgo ainda tinham de tocar ali nesse dia. Quanto a estes últimos, não assisti a  muito do concerto porque já os tinha visto antes e preferi ir apanhar ar mas, pelas opiniões que ouvi, foi também um bom concerto. Já no exterior, foi a vez de Joaquim Quadros tentar pôr os corpos das muitas pessoas ainda presentes a mexer. Lamento, mas no meu caso não foi capaz. É possível que tenha sido porque só tinha dormido uma hora e meia nesse dia, antes de conduzir até Paredes de Coura, e só me apetecia ir para a tenda descansar, mas as músicas que escolheu fizeram-me sentir que estava simplesmente a ouvir a Vodafone FM numa noite qualquer. Isso é bom quando estou no carro a caminho de casa, mas como DJ Set nem por isso e acabei por ir embora ao fim de 3 ou 4 músicas.

Na segunda-feira, depois de várias horas a dormir ao Sol e de mais um rodízio de enlatados para jantar, chegamos à vila mesmo a tempo do início do concerto dos Time for T, a banda encabeçada por Tiago Saga (ou “Baby Jesus”, como o teclista lhe chamou), o único português em palco. Apesar de estarem a tocar com instrumentos emprestados, já que os seus se perderam algures durante as viagens de avião, conseguiram cativar o público com o seu som harmonioso. Não os conhecia e foram uma boa descoberta. Em seguida veio Nuno Rodrigues, a Duquesa, e os seus vassalos. Confesso que seu o estilo pop-rock antiquado não é dos que mais que cativa, mas tenho de admitir que ele sabe interagir com o público e cativá-lo para os seus concertos, nem que seja falando sobre drogas sintéticas. Por fim, os DJs Bitch Boys para animar a madrugada. Ouvi gente a chamar-lhes “DJ Spotify” pela sequência de hits que puseram a tocar, enquanto se abanavam e incitavam o público com o seu estilo alternativo. No entanto, era exactamente isso que o público da vila precisava, indo ao rubro a cada música, quer entoando a letra, quer através de moshes, crowdsurfing e os mais variados passos de dança. Ao contrário do que aconteceu no anterior, neste dia só voltei para o campismo no final da actuação dos DJs.

Terça-feira foi o último dia do Festival Sobe à Vila, com Imploding Stars e Quelle Dead Gazelle. Tenho de vos confessar que tenho um problema com post-rock. Eu gosto, mas como é tudo instrumental e dentro do mesmo género, não consigo ouvir mais de duas músicas sem me fartar. Assim sendo, apesar de ser capaz de reconhecer qualidade em ambas as bandas, acabei por desligar um bocado dos concertos. Já o DJ A Boy Named Sue conseguiu cativar-me a mim e ao resto do público com o seu estilo disco dos anos 80, terminando em altas os concertos na vila.

Passando ao festival propriamente dito, o primeiro dia foi uma espécie de introdução, com concertos apenas no palco principal. A abrir, We Trust e Coura All Stars mostrando que é possível chegar longe desde que haja pessoas interessadas em criar novos projectos e lutar por eles. Pela negativa, pudemos ver o André Tentugal bastante emocionado a revelar que aquele seria o último concerto dos We Trust. Esperemos que seja apenas um até já. Seguiram-se os Best Youth que, apesar de na minha opinião não estarem no palco mais indicado para o tipo de som que tocam, conseguiram transmitir ao público toda a emoção presente nas suas canções. Já sobre o concerto dos Minor Victories, a super banda que junta elementos de várias grandes bandas, não tenho grande coisa a dizer. Ouviu-se. Ponto. Sobre o cabeça de cartaz, Unknown Mortal Orchestra, já tenho alguma coisa a dizer. Infelizmente é pela negativa. Apesar de até terem começado bem, o som parece que se foi degradando ao longo do concerto, especialmente pelos efeitos de distorção introduzidos. Não me parece a melhor opção. Não me conseguiram aquecer na noite gelada de Paredes de Coura e acabei por ver grande parte do concerto a partir da zona de imprensa. A fechar, os Orelha Negra, com um estilo totalmente diferente das restantes bandas do dia, o que fez com que muita gente nem sequer tentasse assistir ao concerto, deram, na minha opinião um grande concerto. Só me parece que teria sido muito melhor se fosse no palco secundário, mais abrigado e com piso plano, para as pessoas ficarem mais quentes e poderem dançar à vontade.

O segundo dia começou ainda junto ao rio, no palco Jazz, com Gisela João e Samuel Úria a declamar e cantar poesia com um à vontade e uma sinceridade que cativaram todo o público. Já no recinto, o primeiro concerto que vi foi o da Joana Serrat. Nota-se que é claramente uma grande interprete, mas fiquei a sentir que não trazia nada de novo. Já os Whitney trouxeram um estilo bastante diferente e que me deu prazer estar a assistir. Ainda assim, não me parece algo que vá ouvir no dia a dia. Passando a algo realmente bom, o concerto dos Beg Legs foi um terramoto que atingiu o festival (provavelmente a antecipar o que seria o concerto dos Thee Oh Sees). Com uma energia interminável, música após música, levaram o público ao rubro, acabando o vocalista por se juntar ao crowdsurfing já perto do final. Sleaford Mods. Não sei bem o que dizer. Olhar para um palco enorme e ver duas pessoas, uma de microfone na mão em fúria contra tudo e todos e outra a abanar-se de mãos nos bolsos enquanto o seu MacBook reproduz a batida, é estranho. Ainda assim, a qualidade da música é bastante boa e as letras estão cheias de críticas que deixam toda a gente a pensar. Além disso, só o humor do Jason Williamson vale a pena. Algiers foram uma agradável surpresa, com a voz forte e profunda a encaixar perfeitamente na melodia e com o teclista/baixista a presentear o público com todo um conjunto de passos de dança aleatórios e a sua tendência masoquista. Se os Bed Legs foram um terramoto, os Thee Oh Sees foram um vulcão que entrou em erupção em Paredes de Coura, com as duas baterias a partirem tudo no concerto mais intenso e agressivo do festival. A fechar o palco principal, LCD Soundsystem, o grande nome do festival. Com a máquina totalmente afinada, foi um concerto tecnicamente irrepreensível. Para os fãs da banda penso que foi um óptimo concerto, passando por todos os grandes clássicos. No entanto, acho que houve momentos durante o concerto que acabaram por perder um pouco o público em geral, devido às escolhas de alinhamento. Ainda assim, é impossível dizer mal. Já no palco After Hours, a noite terminou com Branko e Rastronaut a colocarem uma zona totalmente cheia a mexer.

No terceiro dia, depois de uma manhã e um início de tarde com chuva, o tempo acabou por ficar ensolarado para aquele que foi para mim o melhor dia do festival. Os First Breath After Coma tocaram às 18 e tenho a dizer que acho que nunca vi tanto público num festival para um concerto a essa hora. E digo já que fizeram muito bem em lá estar. Se eu dissesse mal a Sofia batia-me, mas também não tenho razões para isso. Lembram-se do meu problema com o post-rock? Pois, os First Breath After Coma resolveram isso introduzindo letras nas suas músicas, num entrosamento perfeito com a parte instrumental. Durante o concerto não notei qualquer falha e deu até para perceber a emoção que os músicos sentiam por estarem a ser reconhecidos e a tocar perante tanta gente. Já Sean Riley e os seus Slowriders pareceram-me algo confusos. Apesar de ter gostado, já vi melhores concertos deles. Depois de comer qualquer coisa fui para o palco principal para uma sequência de três concertos memoráveis. Primeiro, King Gizzard & The Lizzard Wizard, sete músicos imparáveis em cima do palco, a dar tudo pelo seu rock e pelo seu público. A seguir, The Vaccines, a banda que já tocou tantas vezes em Portugal e que eu nunca tinha visto ao vivo apesar de o querer desde a primeira vez. Sei que provavelmente não foi o melhor concerto deles, mas para mim foi óptimo, com todos os grandes sucessos. Só pecaram talvez um pouco na ordem das músicas, tornando-se o alinhamento um pouco monótono em algumas partes. Por fim, com aquele que foi para mim o melhor concerto do festival, Cage The Elephant. Irrepreensíveis ao longo de todo o concerto, não falharam mesmo quando o vocalista dava piruetas de um lado para o outro do palco e o guitarrista estava a tocar enquanto era engolido pelo público. Uma energia interminável da primeira à última música que se transmitiu ao público, que nunca os deixou de acompanhar. Para terminar a noite, no palco After Hours, Moullinex deu um concerto curto mas com a qualidade do costume e os The Vaccines, em formato DJ Set, rodando todos os membros, passaram música para todos os gostos, desde rock dos anos 80 a Justin Bieber.

E chegamos ao último dia do festival, que infelizmente ficou um pouco áquem dos outros. Não que os concertos tenham sido maus, mas acho que o festival merecia um final mais explosivo. Só cheguei a tempo das últimas músicas dos Grandfather’s House, mas tenho a dizer que fiquei encantado pela intensidade da voz da vocalista. Tenho de ir ouvir mais. Entretanto, The Last Internationale gritavam músicas de revolução para o pouco público que havia no palco principal. Talvez se fosse mais tarde e no outro palco tivesse corrido melhor. Filho da Mãe e Ricardo Martins são dois músicos dotados de uma técnica a um nível altíssimo, mas tornaram-se aborrecidos após duas músicas. Sim, eu sei, tenho problemas com instrumentais. Dizer que o concerto dos Capitão Fausto foi provavelmente o mais intenso deste dia é dizer muito sobre o dia. O novo álbum é muito mais melódico e harmonioso que o anterior, e mesmo as músicas mais antigas foram arranjadas para se enquadrarem no novo estilo. Ainda assim o público foi ao rubro, com as letras na ponta da língua e com mosh e crowdsurfing constante. É sempre bom ver bandas portuguesas a receber este carinho do público. The Tallest Man On Earth, que na verdade deve ser ainda mais baixo que eu, conseguiu, com a ajuda do público, que o seu concerto fosse um daqueles momentos extremamente familiares, em que conseguimos sentir toda a emoção transmitida pela calma da sua guitarra e voz. Só achei um pouco estranho ter gostado mais das músicas em que tocou sozinho do que daquelas em que foi acompanhado pela banda. De Cigarettes After Sex esperava mais. Foi aborrecido e apenas isso. Tanto que fiquei cheio de frio e acabei por ir à tenda buscar um casaco. Depois acabei por encontrar lá pessoas e perder aquele que foi provavelmente o melhor concerto do dia por causa disso, mas pronto. Sempre deu para ouvir a versão de “Don’t Look Back in Anger” desde o acampamento. Voltei para o concerto do cabeça de cartaz, Chvrches, com quem tenho uma espécie de relação de amor/ódio. Dependendo do dia tanto posso passar horas a ouvir, como achar o ruído estridente insuportável. Desta vez só tenho a dizer que o festival e principalmente o público precisavam de uma banda com mais força para terminar, tanto que a própria vocalista pediu às pessoas que faziam mosh e crowdsurfing para terem mais calma. No palco After Hours, Matias Aguayo foi bom durante 15 minutos, mas depois aquela batida repetitiva tornou-se insuportável.

No geral, adorei esta primeira experiência em Paredes de Coura e espero repeti-la. Vou sentir saudades das noites na vila, de fazer amigos novos, das tardes passadas na margem do rio, da poesia javarda, do mosh e do crowdsurfing mesmo nas músicas mais calmas, etc.. Enfim, agora preciso é de tirar férias para descansar das férias. Foi tão bom chegar a Lisboa e tomar um banho quente e deitar-me na minha cama Ahah. Bem, até para o ano e lembrem-se de uma coisa: se vos disserem que o bagaço é caseiro, tenham cuidado. É veneno!

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