Existem três fundamentos da sabedoria: discrição ao aprender, memória ao reter e eloquência ao contar.

Antiga tríade irlandesa

25 maio 2015

[Estreia Exclusiva] A Travessia (c/ Golden Slumbers), de Tio Rex


A agenda do dia está lançada e a mim coube-me a missão de vos fazer chegar uma das músicas mais lindas deste disco (na verdade todas elas são especiais à sua maneira, mas temos sempre de gabar um pouco mais o que é nosso, eheh), depois do pontapé de saída dado pelo Deus Me Livro onde podem encontrar mais informações sobre os restantes locais de divulgação.

A Travessia conta com a especial participação da dupla Golden Slumbers e se a voz ressonante de Miguel Reis já nos toca no âmago nesta canção mais triste, a verdade é que as harmonias geradas pelas vozes da nossa dupla feminina portuguesa adicionam-lhe uma outra beleza melancólica. 

E assim continuamos com a beleza acústica do Tio mais querido de Portugal que cada vez surpreende mais e nos deixa mais fascinados com a sua capacidade criativa. Todo o disco vale a pena ouvir, por isso visitem a sua página de Facebook - https://www.facebook.com/tiorexmachine - e descubram onde podem ouvir em primeira mãos as outras faixas!

24 maio 2015

Entrevista a Afonso Cruz, um passeio pelas obras literárias e muito mais - PARTE III

Depois de uma Primeira Parte e de uma Segunda Parte, eis que avançamos para o fim da entrevista com um dos nossos maiores escritores da actualidade - Afonso Cruz. Nas duas primeiras parte avançámos através das suas obras, o que está por trás de cada uma, o que é que fascina o autor quando conta uma história. Nesta última abordamos outras facetas do autor, as vertentes mais filosóficas e artísticas que acabam por ter sempre influência na sua literatura. Espero que gostem, tem sido uma bela viagem.

Fotografia Vitorino Coragem
Numa outra entrevista que li do Afonso, ele disse, mais coisa menos coisa, que a arte era a expressão do que não existe. Ao ler isto, e olhando para toda a vertente artística do Afonso, o meu pensamento foi mais que a arte era a forma de expressão da nossa percepção do mundo. Ele comentou: «Sim, eu quando falo disto, de que se trabalha o que não existe, é como um ficcionista, ele trabalha nas coisas que não existem. Mas acima de tudo porque a arte é um objecto artístico que não é uma reprodução de uma coisa que já existe, é uma coisa nova e por isso mesmo não existe. Se eu quiser criar um objecto artístico é uma coisa nova e única, ainda não existe, portanto tenho de pensar numa coisa que, na verdade, é uma “mentira” e trabalho com essa matéria. Ou seja, todos os artistas trabalham com… podem partir do real, evidentemente, mas têm de criar uma rotura com a realidade para nos dar uma coisa nova. Na verdade, todas as invenções são isso. Inventas um lápis, não existe um lápis, mas tu inventaste o lápis. Esse lápis não existia, existiu primeiro na tua cabeça e depois é que o criaste, mas ele não existia na realidade. A maior parte das coisas que nós criamos e que inventamos, fazem parte desse lado de ficcionista – trabalham com coisas que ainda não existem e depois a realidade é que se vai adaptar ao que não existe, ainda. Isso tem muito a ver connosco enquanto seres humanos, porque nós não nascemos com as armas dos outros animais. Nós não nascemos com pêlos, temos de fazer roupas, criar roupas, criar uma coisa que não existe - os tais pêlos que não existem. Não nascemos com garras, temos de criar armas. Não nascemos com utensílios, até para comer precisamos de utensílios – não necessariamente, mas fazem alguma falta. (risos) A verdade é que quase tudo o que nós fazemos, não nasceu connosco. É criado por nós. O ser humano depende, acima de tudo, da cultura, não nasce com essas coisas. Durante muitos anos, ao contrário dos animais que são adultos muito cedo ou independentes muito cedo, nós passamos anos e anos a aprender coisas, porque precisamente nós dependemos da cultura e só a cultura é que faz de nós seres humanos, senão seríamos iguaid a um animal - sem desprimor para com nenhum animal -, mas o nosso caminho é um pouco diferente. Não nascemos com as mesmas armas, temos de criar essas armas. Isso faz-se através da aprendizagem, ensinando aos outros, aprendendo dos outros, inventando novas coisas e essa cultura marca muito a nossa maneira de estar. Por isso, quando falo da arte e da ficção da leitura como trabalho de coisas que não existem, tem mais a ver com essa ideia de criação.»


A verdade é que a própria arte tem servido, muitas vezes, para moldar a visão das pessoas sobre o mundo: «É como aquela frase do Oscar Wilde que “a vida imita a arte”. Portanto, tu tens uma visão e essa visão, muito provavelmente, torna-se depois na maneira de toda a gente ver o mundo. Essa visão antes do artista ter colocado cá fora, não existia, é uma nova criação. É tão básico isto, que a nossa própria percepção, por vezes, até tem a ver com a verdade, é só uma descoberta, não é uma invenção. Por exemplo, nós descobrimos que não é o Sol que anda à volta da Terra, é a Terra que anda à volta do Sol e, de repente, toda a gente olha para o mundo desta maneira e não da outra. Assim um dia irá aparecer outra teoria qualquer que nós vamos passar a olhar para o mundo segundo essa teoria que, na verdade, não passam de teorias, são sempre teorias.»


Ilustração Afonso Cruz para o 5º Aniversário
do Blogue BranMorrighan
Para quem não sabe, o Afonso começou por realizar alguns filmes, sendo que hoje em dia acumulou vertentes artísticas como escritor, ilustrador, músico (nos The Soaked Lamb) e não se fica por aqui. Ao ver tantas linhas de acção, em que são raras as pessoas que conseguem ter tanto talento em todas como Afonso tem, perguntei-lhe se estas eram as suas várias formas de expressar a sua visão do mundo através dos vários sentidos: «São, são… São mesmo muito diferentes e complementam-se…Eu tenho a sorte de ter conseguido, pelo menos, aliar algumas delas e conseguir expressar-me em duas ou três diferentes e isso dá-me mais possibilidades. Consigo ser mais eficaz. Pelo menos, na minha cabeça, por vezes tenho uma ideia e ela é mais facilmente comunicável através da imagem, outras vezes através de sons, através de palavras. Portanto, encaminho para aquele que eu acho mais capaz. Mas enfim… outras pessoas terão sempre a mesma, não é um limite. Estas coisas também são más. As pessoas não se especializam tanto em determinada coisa e até se diz que… um provérbio qualquer espanhol que diz “Quem sabe muitas coisas, não é mestre de nada” ou uma coisa assim.» 

É claro que discordei na hora: «Mas há muitos casos assim, há muitos casos de pessoas que eram realmente muito boas em muitas coisas… Muitos artistas integrais, digamos assim, no século XX mais importantes e também um pouco esquecido Almada Negreiros que era um pintor excelente, um grande escritor, geómetra, portanto, era um tipo muito completo e fazia tudo muito bem. Eu acho que não há impedimento nenhum para isso. Até porque muitas vezes no pensamento artístico é igual. A parte criativa é igual. Depois a técnica e a manifestação disso é que é diferente, mas essa técnica qualquer pessoa pode aprender, não é verdade? Porque a técnica… Bem e a criatividade também! A criatividade não é uma coisa que nasça com as pessoas. É uma coisa também que se educa, que se trabalha e que se aprende.»


Esta é outra questão interessante, será que a arte é mesmo algo que se aprende? Não nascerá naturalmente já com certas pessoas? «Eu acho que não. Há pessoas com inclinações, mas também as podem perder ao longo da vida. Eu conheci imensas pessoas que desenhavam muito bem em criança e que nunca mais desenharam na vida e até têm vergonha de na altura as pessoas dizerem “Ah, mas ele era tão bom desenhador”. Também conheço imensos casos opostos, em que desenhavam mal e que depois tornaram-se grandes ilustradores ou grandes pintores ou grandes desenhadores. Eu acho que isto também depende não só da inclinação, mas depois do trabalho que tu colocas nesse gosto ou nessa paixão. Acima de tudo, é muito importante gostar muito daquilo que se faz ou gostar muito de ser determinada coisa e investir nesse caminho. Há muito trabalho a ser feito e a inclinação, só por si, não chega. Acima de tudo é isso. Porque às vezes até é contraproducente sentires que és um talento natural. Às vezes tens determinada facilidade para umas coisas e quando não as trabalhas, porque já tens aquilo e por ser uma coisa garantida acabas por não evoluir. Acontece muito no desporto, nós vemos pessoas muito talentosas até determinada idade e depois com o tempo desaparecem e que nunca mais fazem nada. Por outro lado, há outros atletas e desportistas que estão sempre a evoluir... Acontece o mesmo na arte.»


Sem me querer meter na vida pessoal do Afonso, mas por saber que ele tem dois filhotes e toda esta apetência para as artes, não pude deixar de perguntar se passar-lhes esse gosto era algo que de que tinha intenções de fazer: «O que eu tento é não ter de impor nada desse tipo, creio que não resultaria. Tento é que eles tenham acessibilidade a maior parte destas coisas, ou seja, que tenham sempre lápis de cor, tenham canetas de filtro, tenham papéis, tenham uma impressora, tenham acesso à informática – hoje em dia, é fundamental – mas também tenham sempre livros à mão e que possam, se quiserem, interessarem-se. Não estou a impingir os livros, mas eles estão à mão e estão acessíveis. Estas coisas todas são-nos acessíveis e, portanto, se mostrarem algum interesse e é normal que o tenham porque se me virem a ler – e eles vêem-me a ler – também é normal que sintam alguma curiosidade pelos livros e que os procurem. Depois logo se verá se gostam ou se não gostam, porque há pessoas que não gostam e não são, por isso, pessoas menores ou piores pessoas por não gostarem de ler. Acho que ler é muito importante, acho que a cultura é muito importante, mas há muitas formas de nós aprendermos, há muitas formas de ganharmos essa massa cultural. Não é só necessariamente através dos livros que nós o fazemos e que conseguimos. As viagens é uma grande maneira de conhecer o mundo, de conhecer as pessoas, de perceber a nossa sociedade, etc.. Há imensas maneiras de o fazer que não é exclusiva desta ou daquela arte. Por isso, a minha maior preocupação é que eles tenham acessibilidade a estas coisas e que estas coisas lhes sejam acessíveis. De resto, será mais a ver o feitio deles do que com o meu desejo ou imposição.»

Agora numa perspectiva mais geral, sendo o Afonso um artista no verdadeiro sentido da palavra, perguntei-lhe se achava que estamos num país que dá realmente oportunidade para os artistas terem espaço de expressão ou se é preciso ter alguma sorte e paciência para se conseguir fazê-lo: «É complicado. Nós somos um país cuja língua não tem a expressão que deveria ter se pensarmos em números. Temos um grande número de falantes, por exemplo, isto pensando na literatura, mas nós e o Brasil não comunicamos assim tanto e não partilhamos tanto as coisas de uns e de outros, ao contrário com o que se passa com Espanha e a América do Sul, ou América Latina. Neste caso, muitas vezes, os livros são logo publicados nos países todos e acabam por ter um mercado enorme e uma visibilidade muito maior. Nós, porque também a cultura tem caminhado nesse sentido, a língua inglesa tem um poder enorme e, portanto, os portugueses terão sempre de trabalhar muito mais para chegar a esse mercado. Podem ser muito bons, mas muito provavelmente não vão ser traduzidos porque eles não investem muito e portanto aí há esse esforço. Por outro lado, a competição lá é muito maior do que num meio pequeno e também se pode singrar mais facilmente, se calhar, nestes meios mais limitados. Tem as suas vantagens e as suas desvantagens – como tudo na vida – agora eu acho é que independentemente de ser fácil ou não ser fácil, conseguirmos ou não conseguirmos viver daquilo que gostamos, acho que devemos de apostar nisso. Se eu gosto de determinada coisa, tenho paixão por determinada coisa, tento fazer com que isso seja o meu caminho. E muito provavelmente porque realmente gostamos, não me torno naquele funcionário cinzento que tem apenas de cumprir o seu horário laboral e mais nada. O que se passa, por exemplo, comigo é que o meu trabalho é igual ao meu ócio. Eu gosto muito de escrever, e estou a escrever no tempo… ou melhor! Eu não tenho tempo de ócio nem tenho trabalho, eles são iguais. Ler também faz parte do meu trabalho, não é verdade? Portanto, é uma coisa que gosto muito e tudo isso… não há uma fronteira definida entre o que é realmente trabalho e o que é lúdico. Eu acho que isso é o ideal. Porque é aí que nós temos aquela sensação do trabalho como não alienado, um trabalho que é vocacional, tu sentes um apelo. A vocação vem da palavra voz, é uma espécie de apelo. Tu segues esse caminho e eu acredito que naturalmente, se realmente gostares, se realmente trabalhares, mais tarde ou mais cedo tudo o resto virá por acréscimo. Isso em Portugal, em Espanha, na China ou Inglaterra acho que funciona. Portanto, acho que essa será a maior preocupação.»


O Afonso conta-nos como foi com ele: «Eu desde que comecei ir à escola, etc., fui sempre muito incentivado a ser um sonhador, um artista plástico, a arte era… E que também, se nós imaginarmos, a maior parte dos meus amigos, os pais dos meus amigos pensavam “Ah, mas se ele tem jeito para desenhar, é melhor escolher arquitectura porque depois conseguirá um trabalho até mais sério”. Porque há muito esta crença. Na verdade, depois é igualzinho. Há imensos arquitectos desempregados como há imensas pessoas que não conseguem viver da arte somente. De qualquer maneira, sempre fui incentivado nesse sentido e fui seguindo o meu caminho. Até ao ponto, de certa altura, nem gostar nada de desenhar e já ter assim uma espécie de “malapata” com a ilustração e com o desenho, mas isso também faz parte da minha personalidade. Sempre gostei de mudar, sempre gostei de investigar outras coisas, tentar outras coisas, experimentar outras coisas. Tenho alguma curiosidade sobre as coisas que gosto, se gosto de cerveja, tento fazê-la, se gosto disto, tento perceber como é que se faz e se eu seria capaz de o fazer. No fundo, é isso que tenho feito.»


É sabido que o nosso escritor produz a sua própria cerveja, mas recentemente houve outra paixão que se manifestou através da rede social Instagram - a fotografia. O mais curioso é que mesmo não vendo o autor das fotos no Instagram, quando aparece uma foto do Afonso eu já sei que é dele ainda antes de fazer a verificação. Fiquei a saber que isto vem já de duas gerações anteriores, já que o pai e o avô também eram fotógrafos. Inclusive o avô tem ainda uma sala de exposições na Figueira da Foz com o seu nome. Em tom de despedida, ele fala-nos um pouco de como a fotografia tem presença na sua vida: «O meu avô trabalhou em fotografia a vida toda. Começou a trabalhar aos doze anos e morreu fotógrafo. Sempre trabalhou em fotografia, não fez mais nada na vida e era uma pessoa muito interessada. Por exemplo, na altura da 2ª Guerra Mundial não havia reveladores, nem fixadores, as pessoas dificilmente conseguiam adquirir alguns químicos. Ele próprio criou as suas fórmulas e começou a fazer com as coisas que arranjava. Mas eu sempre tive uma relação com a fotografia um pouco distante, apesar de ter estudado na António Arroio e mais tarde nas Belas Artes, e ter tido este convívio muito próximo com a fotografia, nunca liguei muito… E agora o Instagram até começou porque estava com um amigo meu – que é fotógrafo – na feira do livro e eu disse “Epá, já não consigo dar vazão ao Facebook, a todas as mensagens, comentários…” e então ele disse “O Instagram é muito porreiro porque até podes depois partilhar no Facebook. Eu agora raramente vou ao Facebook, vou ao Instagram…” Então fiquei a pensar nisso e pensei “Então vou criar uma conta no Instagram”. Criei a conta e depois, claro, começou-me a dar muito mais trabalho (risos) porque depois gosto de ter umas fotografias com as quais me sinta confortável em expô-las, em mostrá-las às outras pessoas. Portanto, dá-me algum trabalho fazer isso e pensar nisso. Na verdade, o que me aconteceu é que agora tenho o Facebook e tenho o Instagram para trabalhar. (risos) Mas estou a gostar imenso de fotografia. Também porque entretanto o meu avô morreu, recebi algumas máquinas que vieram dele, do meu pai… Fiquei com imenso material fotográfico de qualidade nacional e, aos poucos fui… lá está! Por estar acessível, por estar perto de ti, tu acabas por “Ah, deixa-me cá experimentar isto ou aquilo”. E pronto, comecei a gostar mais do que gostava e cada vez mais.»

Uma foto publicada por @afonso_cruz a


FIM DA TERCEIRA PARTE

E acaba assim, a entrevista com o Afonso Cruz, um dos meus escritores preferidos de todos os tempos e que parece ainda mal ter começado, apesar da extensa marca que já vai deixando em cada vertente artística em que toca.

As outras entrevistas ao autor podem ser encontradas aqui:

OPINIÕES

Em Maio pela Quetzal: Os Deuses e a Origem do Mundo, de António de Freitas


Os Deuses e a Origem do Mundo
António de Freitas

Género: Religião e Mitologia
N.º de páginas: 152
Data de lançamento: 29 de maio
PVP: 14,40€
ISBN: 9789897222276

Uma antologia de textos cosmogónicos fundamentais e de grande beleza poética traduzidos das línguas originais.

LIVRO
Cosmogonias são textos antigos presentes em todas as civilizações. Pretendem explicar a origem do mundo, com ou sem a intervenção de deuses, em escritos de natureza mitológica ou filosófica que descrevem tempos históricos incertos das civilizações a que pertencem.
O presente livro é uma pequena coleção desses textos cosmogónicos que compreendem um período de quatro mil anos, desde a Suméria até aos Evangelhos, passando pelas cosmogonias gregas e pelo canto da criação védico. O objetivo é oferecer ao leitor português um conjunto suficientemente abrangente de textos – todos eles traduzidos das línguas originais pelo autor.

AUTOR
António José Gonçalves de Freitas nasceu na Venezuela, no seio de uma família madeirense. Atualmente vive no concelho de Cascais. É licenciado em Matemática e fez uma pós-graduação na Universidade de Londres, na área da Lógica Medieval. Escreveu uma tese de doutoramento sobre a origem do pensamento filosófico grego e a sua relação com o Próximo Oriente, especialmente com os hititas. Fez estudos avançados de línguas e culturas do Próximo Oriente na SOAS (The School of Oriental and African Studies, Universidade de Londres), e de língua grega, na Universidade de Cambridge. É especialista em escrita cuneiforme, em sumério, em acádico, e conhecedor de outras línguas semitas. Desenvolve investigação na área das línguas indo-europeias sobretudo o hitita, o sânscrito e o grego. Tem sido professor em diversas universidades portuguesas e estrangeiras, como a Universidade de Lisboa, a Universidade de Londres, a Ohio State University e a UMCE de Santiago do Chile. É especialista convidado na escavação arqueológica de Tel Burna (Israel), consultor científico do Museu Gulbenkian e investigador do CEHUM da Universidade do Minho.

APRESENTAÇÃO

23 maio 2015

Entrevista a Afonso Cruz, um passeio pelas obras literárias e muito mais - PARTE II

Ontem foi publicada a PARTE I desta grande entrevista ao Afonso Cruz. Depois de uma primeira entrevista ao escritor em Janeiro de 2013, que pode ser lida aqui, houve a necessidade de aprofundar mais algumas obras, centrarmo-nos nos seus mais recentes trabalhos e ir para além das histórias - saber motivações, o que move o autor para escrever determinadas coisas. E é por aí que começamos esta PARTE II. 

Fotografia Vitorino Coragem
Para Onde Vão os Guarda-Chuvas, como foi dito anteriormente, foi um livro que emocionou muitos leitores, que levou a diversas interpretações e sentimentos, principalmente na temática de como é perder um filho. Claro que cada leitor sente sempre o livro à sua maneira, mas do lado do escritor, o que é que estava em causa quando escreveu aquela narrativa? «Acima de tudo, esta relação com o outro e com a diferença. Porque é também um tema transversal nas coisas que escrevo. A Boneca de Kokoschka também retrata muito disso…Tal como o Pintor. A verdade é que as relações sociais, a sociedade e… não gosto nada de me alhear desses assuntos e acho que são muito importantes. Essa era uma das preocupações principais. Claro que tem a ver com a perda de um filho e tem também a ver com a nossa capacidade de lidar com a dor, com a vida,  de quando olhamos para o mundo e sentimos que há imensas injustiças… Foi tentar criar alguma luz no meio desta coisa toda e tentar perceber que sentido faz um mundo criado assim em que tudo come tudo, que nós já sabemos à partida que vivemos num jogo já viciado - que nascemos e vamos morrer. Na realidade somos realmente optimistas, porque se tu fosses jogar um jogo em que diziam “ olha vais perder”, tu não querias jogar, mas todos queremos jogar. Não só queremos jogar como tentamos fazer o melhor possível e às vezes até tentamos enganar aquele final destinado. Fazemos isso através da religião, da filosofia, da arte, através de imensas coisas que podem enganar esse final – e isso claro é uma preocupação. Acima de tudo, a perda de um filho acaba, se calhar, por ser aquela que é mais difícil de suportar porque é a nossa descendência. Os nossos ascendentes nós achamos mais ou menos natural vê-los morrer, mas os nossos filhos nós não esperamos vê-los morrer. Se calhar, é a perda mais difícil suportar. Mas precisamente por isso, por ser uma coisa tão complicada e tão difícil o facto de sermos capazes, depois de perdermos um filho, perdoar quem o fez e, mais do que isso, caminhar em direcção a ele. Eu acho que é quase épico, verdadeiramente a grande coragem do ser humano que é fazer isso.»


Aproveitando esta questão de caminhar em relação ao outro, de perdoar e aceitar, peguei no tópico do título Jesus Cristo Bebia Cerveja. Quem vê o título pode pensar várias coisas e até mesmo condenar o autor por ter escolhido um título, como já ouvi dizer, provocatório. Perguntei ao Afonso se ele já tinha sentido algum tipo de recriminação por causa deste título: «Imagino que sim. Algumas pessoas já contaram-me algumas histórias. Há uma senhora sentada ao lado no metro de alguém que está a ler o Jesus Cristo Bebia Cerveja e faz um comentário sobre isso. Por exemplo, nas edições espanhola e italiana, não aparece Jesus Cristo na capa por terem algum receio que fira susceptibilidades. Agora quanto ao título, normalmente uso os títulos um pouco como metáfora da história. Como A Boneca de Kokoschka ela aparece muito pouco também, no caso de Jesus Cristo Bebia Cerveja também, mas é um exemplo de transformação. Tanto a cerveja quanto Jesus Cristo, esse é um livro em que Jesus Cristo é Deus e é homem ao mesmo tempo. Há ali uma sobreposição de planos – há um plano mítico e histórico – e a própria cerveja tem isso também. Há essa transformação numa coisa duradoura que não morre. Quando nós “matámos” o cereal, fazemos apodrecer o cereal para o podermos transformar nesta bebida. Ela mais do que o pão, por exemplo, apesar de ser feito pela levedura do pão, dura muito mais do que o pão. Tu consegues guardar cerveja e portanto tem uma longevidade muito maior e tu consegues transformar o grão numa outra coisa, adicionar-lhe um patamar.»


Para ficar então esclarecido, o Afonso explica-nos sobre o que realmente trata Jesus Cristo Bebia Cerveja: «O livro é basicamente sobre isso, sobre estas coisas que tu és capaz de sacrificar, ou seja, de perder o grão e transformares-te numa outra coisa qualquer. Nós todos temos isso na vida e, se calhar, é assim que nos dá sentido à vida. É saber sacrificar essas coisas por algo que nós achamos mais valioso do que nós próprios como os bens ideais, por vezes outra pessoa – o amor é o exemplo disso. Uma pessoa é capaz de morrer porque ama outra pessoa ou é capaz de fazer um sacrifício enorme por amor ou por dedicação, por filosofia, por ideais, por tudo, do bom até ao mau – muitas vezes é horrível, como se passa com o radicalismo religioso – mas é uma maneira de nos trocarmos, de nos relacionarmos, de nos transformarmos e também é uma maneira de enganar a morte. Porque torno-me naquilo que gosto.»


Um exemplo desta interacção é dado pelo nosso escritor: «Eu gosto muito do Saint-Exupéry, gosto especialmente do livro Cidadela. Nesse livro, julgo que ele diz que quando se mata um jardineiro, ele morre uma vez, mas se matarmos o jardim desse jardineiro, ele morre duas vezes. Porque, na verdade, este está sempre ligado, o seu trabalho diário é de criar aquele jardim. Quando lhe tiras aquilo, não só o mataste a ele como destruíste o jardim. E isto acontece muito na vida das pessoas. Nós entregamo-nos a uma coisa e se nós morrermos não há problema, porque essa coisa permanece. Temos essa sensação que conseguimos enganar a morte e, se calhar, até o fazemos na verdade. Porque continuamos a viver de outra maneira – colocamo-nos nessa coisa. O Camões dizia “o amador, torna-se na coisa amada.” Nós acabamos por nos tornar nas coisas que amamos e se isso que amamos continuar a persistir ou continuar viva, em especial se for um ideal ou uma ideia de sociedade, uma ideia de evolução, etc., nós na verdade continuamos vivos ali. Não com as nossas características, não com os nossos acidentes, eu não continuo com o nariz que tenho, nem com… mas também não é uma coisa que queira preservar pela eternidade. Acho muito mais importante preservar as nossas ideias, os nossos pensamentos, a nossa maneira de estar. E se existisse o rio da morte, como os gregos tinham, e que eu tivesse de passar aquele rio e tivesse que deixar alguma coisa para trás, o que eu não me importaria de deixar efectivamente era o meu corpo, algumas coisas da minha individualidade, algumas características específicas, mas gostaria muito que nesse barco fossem algumas coisas que considero muito mais importantes do que isso e que são muito mais abstractas – que não têm nada a ver comigo propriamente, tem mais a ver com o pensamento, com uma ideia.»


As Enciclopédias são um exemplo de obra onde o autor expressa vários desses pensamentos e ideias, sendo que o formato reúne tanto aforismos, citações, como pequenos textos. Sendo que a primeira Enciclopédia foi também a primeira obra que o Afonso escreveu questionei-o sobre o que o motivou a construir este formato. Que liberdade é que ele sentia para fazer disto algo contínuo: «Quando comecei a escrever a enciclopédia nem sequer estava a pensar escrever, nem em ser escritor. Comecei a escrever, pensei num conceito, fiz um blogue privado e só chateava os amigos - e não chateava muito porque não sou muito de chatear. E aquilo inseria-se nesse contexto, podia todos os dias escrever uma ou duas histórias, às vezes só um aforismo, um poema… Conseguia incluir tudo naquela enciclopédia. Só quando já tinha uma dose grande de verbetes é que me apercebi “se calhar, isto dava um livro”. Só nessa altura é que decidi enviar para uma editora, pois até lá ainda não tinha pensado nisso. Aquilo era simplesmente um blogue para mim, como hobby e não mais do que isso. Depois acabou por ser o projecto em que eu me envolvo… não diria mais, mas como tenho esta continuidade, estou sempre a pensar na enciclopédia. Há histórias que me pedem, há textos que me pedem, que quando os escrevo para publicações efémeras teoricamente iriam para o lixo, mas eu penso de modo a que eles não vão parar ao lixo mas à enciclopédia. Escrevo-os a pensar na enciclopédia.»


Uma característica das Enciclopédias é o facto de Afonso Cruz misturar tanto realidade como ficção, sendo que o leitor poderá nem sempre conseguir discernir que parte pertence a cada uma destas duas facções. Este é um jogo que o nosso escritor gosta de fazer nas suas obras em geral: «Gosto, neste caso gosto especificamente porque esse é também outro assunto que falo muito nos livros que é a realidade, a ficção, a verdade… Eu gosto muito de um filósofo que é o Berkeley. As pessoas dizem que ele era solipsista, portanto ele acredita que o mundo é percepção. Se não houver alguém a percepcionar alguma coisa, essa coisa não existe. Ela só existe se alguém testemunhar essa coisa, se houver alguma consciência a olhar para essa coisa. É aquela história zen do “se um pinheiro cair numa floresta faz barulho ou não faz barulho, se ninguém estiver a ouvir?” Para o Berkeley não fazia barulho - o pinheiro a cair não faz barulho se ninguém estiver a ouvir. O que de certa maneira também é consentâneo com muitas coisas que nós experimentamos. Por exemplo, ainda no outro dia o meu filho perguntou se aquilo era vermelho e eu disse “Não, isso não é vermelho. Tu é que vês vermelho. Os objectos não têm cores. Nós é que vemos as cores dos objectos porque é a reflexão da luz. A cor não é uma propriedade intrínseca de um objecto. Outras pessoas com olhos diferentes veriam com cores diferentes. Isso tem a ver a maneira como vemos o mundo.” Os ouvidos é a mesma coisa, nós temos aqui uma coisa que vai interpretar ondas sonoras que passam pelo ar e nós interpretamos como palavras, como uma orquestra a tocar, como coisas incríveis! Ainda no outro dia estava a falar nisso em relação aos vinis. Até já escrevi um texto em que falei disso. Os vinis, para mim, são um mistério enorme. Aquilo são sulcos criados naquele vinil e naquele sulco tu passas uma agulha e essa agulha, mesmo que não seja amplificada, permite-te ouvir. Estão a tocar orquestras inteiras. Tu consegues ouvir oboés, trompetes, saxofones e uma série de coisas e aquilo parece realmente magia - e é também extremamente mecânico. Não são zeros e uns que depois são interpretados… Não, aquilo é uma coisa perfeitamente mecânica. Isto para dizer que, se calhar, o universo é percepção. Portanto, tem a ver com a consciência, com haver alguém a percepcionar esse universo e, se calhar, não existe nada se não existir consciência. E a consciência, se calhar, é a base disso tudo. Porque me preocupo com essa questão da realidade e da ficção, na enciclopédia já a lês precisamente com isso, ou seja, desvaloriza de certa medida aquilo que nós temos por realidade, e que sentimos que existe uma coisa que é a verdade, que é real, que é palpável e etc., e existe depois um mundo ficcionado. Eu acho que eles os dois são exactamente a mesma coisa e a enciclopédia é um exemplo disso porque mistura essas coisas.»


Focando-nos um pouco sobre esta última - Mar - o autor conta-nos que este volume acabou por surgir não da sua proximidade com o mar, do tempo que viveu na Figueira da Foz, mas antes de uma série de textos que tinha escrito para outra revista: «Na verdade, não tenho muita relação com o mar, ou melhor, não tenho uma relação especial – obviamente que gosto muito de o contemplar, está fora de questão –, mas isso não quer dizer, por exemplo, que não adore viver no campo, também gosto muito do campo. Ambos têm a sua beleza e o seu fascínio. No caso da enciclopédia, desta do mar e do tema, a determinada altura saiu uma revista em que me pediram textos sobre o mar e a minha coluna chamava-se “Enciclopédia da Estória Universal”, mas só sobre o mar. Então escrevi quatro ou cinco textos e a revista entretanto acabou, ou foi descontinuada como se diz hoje em dia. (risos) Eu não só tinha aqueles textos, como também a determinada altura fui visitar o museu marítimo e fiquei muito impressionado com as histórias dos pescadores de bacalhau. (risos) Naquela altura, quis escrever um romance sobre um pescador de bacalhau. Acabei por escrever uma novela que incluí aí no Mar. Portanto já tinha uma série de coisas que poderia incluir numa enciclopédia temática e então juntei para fazer este volume.»


Três das estórias deste volume acabam por estar ligadas e entrelaçam em si mesmas questões como destino, encontros, desencontros, livre arbítrio, inevitabilidade e aceitação. «Essa coisa do destino, das coincidências que todos passamos e vivemos, os desencontros e os encontros agradam-me muito. Porque criam uma trama, uma tapeçaria. Nós olhamos para a vida e percebemos que realmente há imensos laços, imensas coisas que por vezes nem nós conseguimos unir, mas eles, de alguma maneira, estão mais ou menos entretecidos e agrada-me muito isso nas histórias - mostrar que o mundo é esta tapeçaria estranha com encontros e desencontros. Por vezes os fios não vão parar onde nós imaginamos e vão parar a outro lado. Claro que me agrada muito também a ideia de destino, de liberdade, qual é a liberdade que nós temos para escolher ou não escolher, também do tempo e de todas estas coisas que fazem parte da nossa vida e que na realidade são os grandes mistérios da nossa vida – a morte, o tempo, etc. Aliás, filosoficamente, o tempo... Santo Agostinho disse “se nós percebemos o tempo, percebemos Deus.” Há mistérios que são muito difíceis de compreender, o tempo agrada-me imenso e há alguns livros que colocam algumas questões sobre isso foram sempre muito importantes para mim. Falo sempre muitas vezes sobre o Flatland, ele dá-nos umas perspectivas e coloca-nos algumas questões muito curiosas sobre o tempo. Isso foi também uma espécie de moda no final do século XIX e que depois, se calhar, culminou na física do século XX, com novas teorias sobre o tempo, em que o tempo não era aquilo que nós imaginávamos que era - uma setazinha que vai do passado para o futuro. Tudo isso é importante para mim e é uma coisa que tenho muito prazer de passar nas histórias. Essas três, em especial, funcionam num conjunto porque são as mesmas personagens. Em todas elas, pelo menos, nós percebemos uma faceta diferente de cada personagem e, portanto, de certa maneira, aquelas três histórias reunidas em conjunto, seria uma espécie de romance.»


Outro facto curioso é que há personagens dos romances que aparecem nas diferentes enciclopédias. Perguntei ao Afonso em tom de brincadeira se isso era para "obrigar" os leitores a lerem todos os seus livros: «Não, obrigar não. (risos) Até porque tu não precisas de conhecer aquela personagem para compreender aquele livro, mas quando tenho uma personagem que, a determinada altura, tem determinadas características e que vai aparecer naquele livro e se eu já tenho essa personagem criada, se ela já existe com essas características, porque não usar exactamente a mesma? Dou-lhe mais um bocadinho de vida, mais um novo ângulo sobre essa personalidade e essa personagem.»


FIM DA SEGUNDA PARTE


Relembro que em Janeiro de 2013 uma primeira entrevista foi feita e podem lê-la aqui: http://www.branmorrighan.com/2013/01/entrevista-afonso-cruz-escritor.html

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