Entrevista com E.S. Tagino, Autor Português

Bom dia! Hoje apresento-vos E.S. Tagino, autor que tem sido publicado pela Saída de Emergência. E. S. Tagino é o pseudónimo literário de Ant...

Bom dia! Hoje apresento-vos E.S. Tagino, autor que tem sido publicado pela Saída de Emergência. E. S. Tagino é o pseudónimo literário de António José da Costa Neves, nascido em Grândola, em 18-04-45.
Este senhor muito simpático, mostrou-se disponível para dispender um pouco do seu tempo a responder a pequenas perguntas e assim ficarmos a conhecê-lo melhor.
Aqui vamos nós entrar no mundo de E.S. Tangino.

Quem sou?
Tenho sessenta e cinco anos e não sendo, por isso, um jovem escritor, sou, no entanto, um escritor jovem. Na verdade, o meu primeiro romance viu a luz da edição há apenas três anos. Assim, logo em 2007 publiquei "Mataram o Chefe de Posto", Prémio Literário Cidade de Almada 2006, e "Nem por Sonhos", Prémio Revelação Manuel Teixeira Gomes 2006/2007. Seguiram-se depois, "Arquivo Morto", Prémio Paul Harris 2007, reeditado o ano passado (2009) com o título "Mea Culpa", por sugestão do meu editor. Em 2008 publiquei ainda "Adamastor" e "O Amor nos Anos de Chumbo", Prémio Ficção e Poesia de Almada 2008.
Posteriormente, o meu livro "Abaixo de Cão" obteve uma Menção Honrosa no Prémio Manuel Teixeira Gomes 2009, tendo tido, então, uma edição restrita patrocinada pela Câmara Municipal de Portimão. O meu próximo livro, a ser editado pela Saída de Emergência, será, precisamente, este "Abaixo de Cão", uma metáfora sórdida sobre um mundo em decomposição em que a desagragação do corpo individual e do corpo social correm paralelos.
O que posso dizer mais? Sou licenciado em História o que, de algum modo pode ser patente em dois ou três dos meus livros, nomeadamente "Adamastor", sobre a passagem de Camões pela Ilha de Moçambique, e "O Amor nos Anos de Chumbo", um épico que tem por pano de fundo a guerrilha do Remexido e o Setembrismo decadente de que emergirá Costa Cabral.

Estilo e ritmo de escrita?
Penso que próprio, mas não o sei definir. Gostaria de poder dizer que sou objectivo e directo. Como sou também poeta e grande admirador de Miguel Torga, gostava que a cadência da minha prosa não fosse muito difrente da minha poesia. Um dia escrevi um poema onde penso ter dito tudo:

Ambição

Um poema,
Apenas um poema:
Denso, rigoroso, essencial;
Tão conciso
Que diga tudo o que for preciso
Num único verso, e ponto final.

Quanto ao meu ritmo de escrita, tem sido infernal. Talvez por ter esperado 60 anos para começar a escrever, tenha escrito uma média de dois livros por ano. A verdade é que, tendo embora escrito e publicado poesia quase toda a vida em jornais e revistas, só com a reforma, e completado os 60 anos, é que escrevi o meu primeiro romance. Como nunca nenhum livro esteve na minha cabeça antes de o começar a
escrever, o ritmo acaba por me ser imposto pelo próprio desenvolvimento da narrativa que vai ganhando asas ao sabor das tropelias dos personagens.
Curiosamente, o meu último romance, acabado de escrever e ainda muito fresco, de que não digo o nome por estar a concurso sob a capa do anonimato, leva ao limite essa característica, a tal ponto que o narrador conta toda a história no presente do indicativo. Isto é, as personagens e os leitores são actores e testemunhas de uma acção que se desenrola no tempo do próprio romance. Esta particularidade narrativa faz dos leitores testemunhas presenciais de uma história que decorre, sem sofismas, à frente dos seus próprios olhos.

Influências?
Milhares. Antes de ser escritor, sou essencialmente leitor. Comecei a ler aos 4 anos e nunca mais parei. Desde "A Cartilha Maternal", de João de Deus, que soube de cor, até ao "Físico", de Noah Gordon, que acabei de ler, essa foi a minha melhor escola. Mas gosto principalmente dos autores portugueses clássicos: Fernão Lopes, Vieira, Eça, Camilo, Oliveira Martins e Torga. E na poesia, Camões, Nobre, Verde, Pessoa e, de novo e sempre, Torga. Dos contemporâneos, bem procuro, mas não me dizem nada. Não gosto de Rodrigues dos Santos, nem do Sousa Tavares, para falar dos fazedores
de best-sellers. Talvez algum Saramago e muito pouco Lobo Antunes.

Pseudónimo?
Tem uma história. Quando concorri com o "Mataram o Chefe de Posto" ao Premio Literário Cidade de Almada necessitei de um pseudónimo. Lembrei-me então dos Rios Tejo e Sado que sempre tinhma balizado a minha vida. Liguei Tagus a sadino e deu Tagino, mas não bastava. Então, E. S. Tagino: Eu Sou de entre o Tejo e o Sado - Tagino. O meu editor gostou do nome e da sua ressonância latina, um pouco indecifrável. E eu resolvi apropriar-me do pseudónimo. Tem um inconveniente, às vezes dou com os meus livros nas livrarias arrumados nas prateleiras dos autores estrangeiros.

Conselhos para os jovens escritores que querem publicar pela primeira vez?
Leiam muito, muito, muito. Boa literatura portuguesa. Cuidados com os autores estrangeiros e com as traduções. Não tenham pressa. Se têm talento, submetam os vosso livros a concursos. Foi assim que eu comecei e tenho-me saído bem. Aos 60 anos, se não fosse através dos prémios, nunca tinha publicado um livro. De qualquer modo, o vosso mundo interior pode ser muito interessante, mas falem essencialmente
do mundo que vos rodeia. As histórias estão à mão de semear, é só preciso estarem atentos.

Projectos futuros?
Publicar este ano o "Abaixo de Cão", este é o mais imediato. Entretanto, tenho mais dois livros concluídos, ambos submetidos a concursos. Aquele de que já falei e um outro sobre a desconstrução da memória. Ou de como, no limite, nós somos apenas o que recordamos. E tanto assim é que, construtores do nosso próprio tempo, quando
morremos, resta apenas o tempo dos outros.
Como acabei um livro há pouco - incluindo a fase de revisão onde gasto sempre mais tempo do que na escrita - há um intervalo sabático em que me sabe bem escrever poesia.
Um dia hei-de publicar um livro com todos os meus poemas ("Sementeira de Esperança", "Amor, Infinito Amor!" e "Trinta Sonetos Triviais e Dez Canções Desesperadas"). Esse é o meu projecto mais ambicioso, sabendocomo sei (mesmo com prémios, e já tive dois) como é difícil, em Portugal, publicar poesia.



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