Entrevista a Carla M. Soares, Escritora Portuguesa

O dia 12 de abril marca a entrada de uma nova autora portuguesa no catálogo da Porto Editora. Carla M. Soares é professora, doutoranda em H...

O dia 12 de abril marca a entrada de uma nova autora portuguesa no catálogo da Porto Editora. Carla M. Soares é professora, doutoranda em História da Arte, e estreia-se com Alma Rebelde, uma narrativa de amor passada no séc. XIX.
Conciliando a escrita suave e fluida com uma intensa troca epistolar, este romance reflete o papel da mulher e do casamento neste período histórico.
O livro vai ser apresentado no espaço do Grupo Porto Editora na Feira do Livro de Lisboa, no dia 25 de abril, às 18:00. Conheçamos um pouco mais a autora Carla Soares :)

Fala-nos um pouco sobre ti:
Ah, uma perguntinha difícil, a abrir... não há nada mais complicado do que falarmos sobre nós próprios.
Vejamos: tenho 40 anos, que é uma idade excelente para olhar para trás e pensar no que tenho: uma família sólida, dois filhos óptimos, uma profissão que aprendi a apreciar e me ajuda a manter-me jovem e, muitas vezes, bem disposta, um mestrado que me deu muito prazer, um doutoramento em curso numa área que não é a minha, que é fascinante e que...bom, vai dar-me dores de cabeça! Ah, mas também grande satisfação!
Que mais? Gosto tanto da companhia como da solidão. Gosto de cinema (muitas vezes com pipocas, sim, sou ‘dessas’) e de pintura. Gosto mais de exercício mental do que físico, o que me promete um futuro arredondado. Gosto de rir e raramente estou mal disposta muito tempo. A leitura uma necessidade desde sempre e a escrita tornou-se, desde que a descobri, outra necessidade. Leio e escrevo todos os dias, é quase uma terapia.


Estilo e Ritmo de Escrita:
Acho que é o sonho de quem escreve e trabalha ter tempo para encontrar um ritmo! Só que, com uma vida tão preenchida que, por vezes, nem dias de 48 horas me chegavam, como é que posso? Tenho sempre o netbook comigo e vou trabalhando quando me dá a vontade... se puder. Tenho preferências, claro. Produzo mais e melhor de manhã, sozinha...e no café. Tanto faz o barulho que esteja. Vou escrevendo, relendo, reescrevendo, corrigindo muito, até encontrar uma forma e um estilo que sirvam o que quero dizer. Procuro o equilíbrio e a fluidez, acho que a escrita pode ser simples, as ideias claras, e mesmo assim ter consistência e alguma poesia, quando se justifica. Gosto de personagens e, portanto, aprecio particularmente escrever diálogos. Como não faço planos detalhados da história, por vezes, até são elas que me ditam o caminho a seguir!


Quais as tuas maiores influências?
Para mim, tudo o que lemos e vemos nos influencia. Não obrigatoriamente um autor ou um estilo – não sou capaz de apontar nenhum – mas a generalidade das nossas experiências reais , intelectuais, da imaginação. Pode aprender-se vivendo, ou observando e interiorizando o que foi vivido por outros e que, muitas vezes, nos é transmitido com muita vivacidade e autenticidade. Lendo, tenho aprendido, por exemplo, aquilo de que gosto e o que de forma nenhuma quero ou serei capaz de fazer. Apuro o meu próprio estilo, a técnica, descubro o que funciona e o que não funciona para mim e para o que quero fazer nesse momento.


Para quem escreves?
Muitos escritores dizem que fazem para si próprios... não acredito nada nisso! Bom, eu escrevo para mim, claro, porque a escrita é terapêutica, uma necessidade, mas também escrevo para dar prazer a quem lê. Quase tudo o que já escrevi foi lido por alguém, família, amigos... valorizo as opiniões, boas ou más, e não há nada que me deixe mais satisfeita do que saber que alguém passou bons momentos a ler o que escrevi. Uma das primeiras ‘leitoras’ do Alma Rebelde, que na altura tinha outro nome, devolveu-me o exemplar A4, de argolas, dizendo-me que o tinha lido todo no mesmo dia, e a tinha consolado e feito sorrir e esquecer temporariamente a (possível) perda de anos e anos de fotografias de família... há melhor?


Conta-nos um pouco da tua primeira obra, prestes a ser lançada 'Alma Rebelde':
É um livro romântico... Deste género, foi o primeiro que escrevi. Não é curioso que, assim sendo, seja o meu primeiro a ser publicado? É também um livro sobre a angústia de uma forma dourada de prisão, sobre o desejo de liberdade, de autonomia. Hoje já não a reconhecemos, mas há muitos locais onde ainda acontece, não é verdade? O amor é um acaso inesperado e... bom, se é feliz ou não, está no livro!
Inclui várias cartas que, espero eu, relembrem a época em que a ação ocorre. Nasceu, aliás, da ideia de que, embora hoje já ninguém escreva cartas, um dia elas foram essenciais na comunicação. Posso dizer que nasceu de uma carta e cresceu por si próprio.


Como foi o processo de edição? Tiveste dificuldades em encontrar uma editora?
Nunca é fácil. Antes de mais, dar o passo, decidir que o ‘não’ é garantido e tudo o mais é proveito... estar disposta a receber uma série de emails formais a recusar, ter a certeza de que mais de metade das editoras nem sequer pegou no original antes de recusar... enfim, é preciso persistência. Em época de crise mais ainda, não é? Na verdade, não enviei este original para muitas editoras, mas enviei outros, de fantasia, que, sendo portuguesa, ainda me parecem mais difícies de publicar. Tive alguma sorte, de certeza, em ter encontrado uma editora que 1) lê realmente o que lhe chega, 2) gostando do texto, está disposta a apostar num desconhecido.
O processo em si foi demorado, mas não posso dizer que tenha sido complicado. Houve uma primeira fase, em que quiseram conhecer-me antes da decisão, a assinatura de um contrato, e depois disso várias revisões de texto, para tentar ‘apanhar’ todas as gralhas, a composição gráfica, a capa e título, a decisão da data de lançamento... uma infinidade de coisas e, pelo meio, muita impaciência.


Projectos Futuros:
Estou sempre a escrever. Neste momento, tenho um projecto em avaliação na editora que, sendo um pouco diferente deste, poderá ter resposta diferente. Veremos. Também estou mais ou menos a um terço de uma outra história de época, com personagens que estou a adorar conhecer. E tenho pelo menos duas obras de fantasia que gostaria de ver publicadas um dia, de uma ou de outra forma. Estão completas, têm nome e já foram lidas e ‘aprovadas’ por amigos e conhecidos... precisam de revisão, quando tiver tempo para ela, e de muita sorte! Só não sei se estas coisas são projectos ou ideias.


Pergunta da praxe: O que achas do blog Morrighan?
Gosto bastante e visito-o com frequência. Está de parabéns, tanto na organização, como na divulgação e emissão de opiniões. Acho curiosa a associação com as antigas crenças celtas, sobretudo sendo a deusa que é... mostra combatividade!


Sobre a sua obra: http://branmorrighan.blogspot.pt/2012/04/porto-editora-ficcao-portuguesa-carla-m.html
 
Muito obrigada Carla, pela tua simpatia :) 

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