Entrevista a Rogério Ribeiro, Escritor, Editor, Tradutor e Blogger Português

Não sei se têm noção, mas muitos dos projectos nacionais que vão surgindo, não seriam possíveis sem o trabalho incansável de algumas pessoa...

Não sei se têm noção, mas muitos dos projectos nacionais que vão surgindo, não seriam possíveis sem o trabalho incansável de algumas pessoas, demasiado anónimas a meu ver, como a que vos apresento hoje. Rogério Ribeiro é um homem dotado de uma força de vontade louvável que não baixa os braços perante as dificuldades e que tem lutado, e muito, para que haja alguma qualidade nas publicações nas áreas do fantástico e FC nacionais. Como tal, e finalmente, trago até vós uma entrevista que acho que vale a pena ler e que mesmo assim, na minha humilde opinião, é curta para o que poderia ainda ser explorado. Talvez numa próxima oportunidade. 

Obrigada Rogério, pela disponibilidade e simpatia. Parabéns por todo o trabalho que tens desenvolvido.


Fala-nos um pouco sobre ti:
Desde sempre senti uma paixão igualmente forte pela Ciência e pelo Fantástico. Por isso não será de admirar que tenha feito de um a minha profissão (licenciatura em Biologia, doutoramento em Fisiologia, e actualmente investigador na área da Biomedicina) e do outro algo mais do que um hobbie (editor, tradutor, divulgador, etc). E que enfrente ambos com a mesma exigência.


Das tuas facetas todas, enquanto escritor como é que caracterizas o teu estilo e ritmo de escrita?
De todas as coisas que tenho feito no campo da literatura fantástica, essa faceta de escritor será certamente a mais negligenciada, e por isso mesmo pouco desenvolvida.
Para adquirir uma voz própria, ritmo e estilo próprios, há que praticar bastante, o que realmente não tenho feito. Com um conto fantástico natalício publicado há muitos anos no fanzine brasileiro Scarium, com o “O Primogénito”, que abre a antologia A Sombra sobre Lisboa, e a pequena brincadeira da crónica feminina no recente Almanaque Steampunk, duvido que me possa chamar escritor.
Como muitos aspirantes a “escrevinhador”, tenho um romance que anda em carambola na mente há anos, totalmente esquematizado e com muita pesquisa feita, mas do qual terei completado poucos capítulos. Recentemente decidi-me a tentar começar por retirar algumas histórias paralelas desse universo, sob a forma de contos curtos. Veremos como corre essa aposta… se vinga, ou se morre na praia!


Quais as tuas maiores influências e motivações?
Para a escrita de gaveta? Bom, o género que me espicaça mais os neurónios é certamente a science fantasy. Para quem não conhece, a science fantasy usa a Ciência como mecanismo ficcional, mantendo-lhe o espírito. Como por exemplo Perdido Street Station, de China Mieville, Ash, de Mary Gentle, Newton’s Cannon, de Gregory Keyes, entre muitos outros. Aliás, era nessa veia que andava a escrever uma submissão para a Lisboa Electropunk, do João Barreiros, que no entanto nunca terminei. Mais uma vez, não há escritor sem escrita!


Enquanto editor de revistas/antologias qual o maior desafio que encontras durante o processo de edição?
Os maiores desafios serão encontrar material com qualidade para ser publicado, e depois conseguir conjugar as visões de autor e editor para coalescerem numa versão consensual da história a publicar. A maior dificuldade aqui será atingir um equilíbrio entre a vontade do autor contar a “sua” história, exactamente como a imaginou, e a posição do editor, responsável pelo resultado final perante o leitor.
Depois há o processo de produção, seja em formato papel (que ainda prefiro) ou digital (ao qual reconheço uma crescente importância), quer em termos de custos quer em termos de assegurar a qualidade.
Finalmente, talvez o maior desafio de todos seja assegurar a longevidade, nem entrando na questão espinhosa da periodicidade!
Apenas se pode almejar criar uma base de leitores se todos estes factores se conjugarem. E, infelizmente, raramente isso acontece.



Este ano lançaste a antologia de ficção científica Fantasporto. Tens recebido feedback dos leitores?
A Antologia tratou-se de uma oportunidade com a qual nem me tinha atrevido a sonhar! O Fantasporto faz há muito parte do meu imaginário, e foi com prazer que colaborei na organização desse volume de contos ambientados na ficção científica (FC).
O feedback dos leitores foi também muito interessante, os elogios e as críticas, ainda mais porque me ensinou muito sobre a feitura de uma obra destas características. Surpreendentemente, ou talvez não, creio que o maior equivoco que se criou teve a ver com a própria definição de FC. Isso, e as reacções a outras antologias que entretanto foram saindo, fazem-me chegar à conclusão que entre nós quanto mais apertado for o tema e foco da antologia, maior será o seu sucesso. Ou, em alternativa, que o rótulo seja intencionalmente vago. Usar uma designação para além do mais básico do seu arquétipo parece ser difícil de atingir!
De resto, a Antologia parece ter também gerado uma interessante vaga de interesse na adaptação de alguns dos contos incluídos a outro formato. Tenho seguido de perto esses projectos em desenvolvimento, com surpresa e prazer.


Recentemente tiveste mais dois projectos que tomaram formato físico: a Trëma e o Almanaque de Steampunk. Fala-nos um pouco sobre eles e onde é que os leitores os podem encontrar.
O Almanaque Steampunk foi o corolário de outra iniciativa recente, a Euro SteamCon Portugal, que aconteceu em Setembro no Porto. Foi a primeira reunião do género, focando-se na estética Steampunk, e creio que foi um retumbante sucesso. Eu entrei a meio do processo de organização, convidado pela Sofia Romualdo e pela Joana Lima, e, também depois com a entrada do André Nóbrega, formou-se um grupinho divertido e que, despretensiosamente, criou um evento que pareceu encaixar que nem uma luva na própria cidade do Porto!
O Almanaque recria os populares almanaques do início do séc. XX, com um sortido de notícias, crónicas, passatempos, contos, etc., e se tinha sido um sucesso em termos de submissões, foi-o ainda mais em termos de vendas. Neste projecto contámos também com o design da Joana Maltez.
Quanto à Trëma, é uma tentativa de criar um ambiente propício à criação de qualidade na área da literatura fantástica. Desse projecto, que também inclui uma oficina de escrita criativa que arranca agora em Janeiro, organizada em conjunto com o Luís Filipe Silva, surge a publicação que referes, com o mesmo nome, editada por mim. A intenção principal é proporcionar um sítio onde os escritores do género possam publicar, sejam contos ou artigos, e onde ao mesmo tempo sejam desafiados a melhorar a sua escrita. Mesmo para os que não conseguem atingir a publicação, não saem da experiência de mãos vazias, já que recebem críticas e conselhos de pessoas da área editorial, mas que o fazem de forma anónima (assim como avaliam os textos também sem ter acesso à identidade dos autores).
A Trëma foi lançada em Novembro, no Fórum Fantástico, e pode ser pedida pelo email disponível no blog trema-mag.blogspot.com, estando disponível também em Lisboa na loja Kingpin Books. Quanto ao Almanaque Steampunk podem encontrar mais informações em www.clockworkportugal.com. Ambas foram impressas através da gráfica EuEdito, que tem prestado particular atenção a muitos dos projectos desta índole que têm surgido.

Dos vários eventos que organizas, qual o que te tem dado mais gozo ou que tem sido mais gratificante?
Cada um à sua maneira, pois, apesar de quase todos terem em comum o género fantástico, têm características e equipas diferentes. Acho que a ser obrigado a escolher um, diria… o próximo!


Este ano o Fórum Fantástico, do qual és organizador juntamente com a Safaa Dib e o João Campos, esteve muito bem composto. Ao que é que achas que se deve este aumento de adesão?
Essa será certamente uma resposta com muitos factores: a longevidade do evento, a consistência do programa que temos apresentado todos os anos, as relações de amizade que se têm desenvolvido no próprio evento ao longo deste tempo, a colaboração entusiasta da Biblioteca Orlando Ribeiro, entre outros…
Durante muitos anos a equipa esteve limitada a mim e à Safaa Dib, apoiados em várias outras pessoas é certo, mas creio que este ano, com a entrada formal do João Campos, a organização ganhou um novo alento. Sim, porque realizar um evento com a dimensão do FF (são dezenas de convidados, de temas, de iniciativas diferentes: dos debates à exibição de curtas-metragens,…), cansa bastante.


Qual a tua visão do mundo editorial português neste momento e a sua relação com os novos jovens autores?
O mundo editorial tem as suas falhas e pecadilhos, mas o maior entrave à publicação é cada vez mais a falta de qualidade e/ou empenho dos autores. Há um certo deslumbramento com as facilidades tecnológicas e ao mesmo tempo muita falta de sentido crítico.
Esta pergunta tem pano para mangas, e por isso, intencionalmente, vou manter a minha resposta curtinha [risos].


Como a tua versatilidade não acaba, tu ainda és blogger (fora tantas outras coisas que desta vez não cobrimos aqui)! Qual tem sido a tua experiência nesse ramo?
Mais uma faceta em stand-by! O meu blog pessoal, I Dream in Infrared, tem estado parado, por falta de tempo (a minha actividade profissional é cada vez mais exigente) e também porque senti que necessitava de repensar a sua filosofia. Mas irá ressuscitar brevemente.


Pergunta da praxe: O que achas do blog Morrighan?
Assisti aos primeiros passos desse teu bebé, e desde essa altura nota-se uma franca evolução positiva. É um blog que transparece sinceridade e paixão, e só isso serviria para minimizar falhas e projectar qualidades. Tornou-se, e mantém-se, um espaço necessário, e a maior prova disso é a adesão e popularidade que tem junto dos leitores. Faço votos para que continue assim por muitos anos.

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