Entrevista a Nuno Nepomuceno, Escritor Português

Boa tarde! Após um tempinho sem entrevistas, voltamos agora na esperança de que muitas mais estejam para breve. Desta vez trago-vos o autor...

Boa tarde! Após um tempinho sem entrevistas, voltamos agora na esperança de que muitas mais estejam para breve. Desta vez trago-vos o autor Nuno Nepomuceno cuja obra 'O Espião Português' ganhou o prémio book.it. Graças a um contacto por parte do autor, temos neste momento um passatempo online para o seu livro e tem sido um grande prazer conhecê-lo. Brevemente também me irei estrear no seu mundo e espero vir a gostar. Entretanto fiquemos com a sua entrevista.


Fala-nos sobre ti:
Chamo-me Nuno Nepomuceno, tenho 35 anos, e sou licenciado em Matemática pela Universidade do Algarve. Apesar da minha formação não estou ligado ao ensino. Trabalho para a NAV E.P.E., a empresa responsável pela prestação de serviços de tráfego aéreo em Portugal, mais precisamente na Torre de Controlo do Aeroporto de Lisboa, onde desempenho funções operacionais e de supervisão.
Tenho a escrita como actividade paralela. O meu primeiro livro chama-se O Espião Português, encontra-se publicado pela ASA desde Novembro de 2012, e venceu a 1ª edição do concurso literário organizado pela rede de livrarias Book.it, razão pela qual ainda se encontra a ser comercializado em exclusivo pela mesma. É o primeiro de três volumes.


Como caracterizas o teu ritmo e estilo de escrita?
Procuro apresentar uma escrita fluida, sem frases muito longas e complexas, de modo a facilitar a leitura, e proporcionar um ritmo mais rápido à acção. Tratando-se de policiais, tenho ainda um grande cuidado com a entrada e saída dos capítulos. Recorro por vezes a planos bastante abrangentes e ricos de informação sobre o local onde decorre a narrativa, e termino depois com uma revelação, ou surpresa, de forma a motivar o leitor a virar para a próxima página.
É um estilo que quero que seja de leitura compulsiva, embora com uma conotação intimista. Procuro dar significado ao que escrevo, ou seja, transmitir uma mensagem universal, que apele a todos nós e seja capaz de contornar o género do livro, e assim chegar ao leitor, emocioná-lo.


Quais as tuas maiores influências?
Em termos literários, citaria o Daniel Silva. Dos autores que conheço e costumo ler, é o que mais admiro. Invejo a profundidade das suas personagens, além da actualidade que tem conseguido manter na série do Gabriel Allon. É também um exemplo, dada a longevidade da sua carreira, que continua em crescendo, e sem se afastar do seu próprio estilo. Outro caso é o Ken Follett. Acho os seus livros tecnicamente muito bem estruturados, para além de apresentar um trabalho algo variado, e com o qual é possível aprender imenso.
Tenho ainda de salientar o cinema e televisão de acção. Têm-me dito que O Espião Português tem tanto de sensível, como gráfico. Antes de escrever, imagino frequentemente os capítulos como se de cenas de um filme se tratassem, por vezes inclusivamente com banda sonora. Acho que essa linguagem visualmente poderosa vem daí.


O Espião Português é o teu primeiro livro publicado. O que é que te inspirou ou motivou a escrevê-lo? O que é que nos podes dizer sobre ele?
Tenho consciência de que pode parecer estranho, mas não sei explicar muito bem o que me levou a escrever O Espião Português. Desde criança que criei hábitos de leitura, e talvez por isso sempre tenha tido o desejo secreto de escrever um livro. Foi algo que não alimentei muito, nem sequer revelei a ninguém, tendo mesmo feito várias tentativas que acabaram por se revelar infrutíferas, e que acabaram por ser destruídas.
Recordo-me de quando era adolescente, a RTP1 ter apresentado um remake da Missão Impossível. Se não estou enganado, passava às sextas-feiras à noite, e não durou muito tempo. Mas eu delirava cada vez que via um episódio. Por vezes, chegava a fantasiar com as missões. É um universo que exerce um grande fascínio sobre mim, e sobre o qual tenho aprendido bastante com tudo o que tenho lido e visto. Quando decidi que iria fazer uma tentativa séria de escrever um livro, foi a opção mais natural. É o género onde me sinto mais à vontade. Embora tenha decidido logo no início que queria fazer algo pessoal, com a minha marca.
O Espião Português é assim um romance de espionagem com todos os elementos clássicos do género, como as missões, vidas duplas, traições, e perseguições, mas com uma componente muito portuguesa ao nível dos valores. Aliás, é este o tema do livro. Quando se chega ao fim, é uma reflexão sobre família, amizade e amor que fica no leitor, ao invés de tiros e lutas.
Trata-se também de um livro onde tentei fazer uma mistura entre clássico e contemporâneo. Para tal, situei a acção em cidades com grande valor histórico, como é exemplo Viena, ou Roma, contrapondo com um ritmo mais rápido, e uma estrutura narrativa mais actual, recorrendo a várias analepses e prolepses para o efeito.
Venceu o Prémio Book.it 2012, o que não é muito comum para um policial, e o que me parece uma garantia a sua qualidade. É ainda o primeiro de três livros, apesar de ter um final fechado, podendo, por isso, ser lido de modo independente.


Qual a sensação de ganhares o prémio book.it e teres a possibilidade de editá-lo através uma das grandes editoras em Portugal?
É uma satisfação imensa, um sonho tornado realidade. Concorri ao prémio um ano depois de ter terminado O Espião Português, e estava a ter dificuldade em encontrar uma editora para o mesmo, como todos os jovens autores. Recordo-me de ter visto a notícia sobre o concurso e ter pensado: “isto é perfeito para mim”. Pareceu-me uma oportunidade extraordinária, e resolvi investir nela. Escrevi a sinopse, fiz uma última revisão ao texto, e enviei-o. Os meses que se seguiram foram algo penosos, já que tinha esperanças de ganhar, mas tive de esperar bastante tempo até receber a notícia. Quando fui informado que estava nos três finalistas fiquei muito contente. E depois, acabei por ganhar.
Quanto ao trabalho com a ASA, tratou-se de uma oportunidade única, mais uma entre as várias que o prémio me tem proporcionado. Reuni directamente com a Carmen Serrano, o que se revelou precioso, já que aprendi imenso não só sobre o processo de escrita em si, como também acerca de tudo o que compreende a edição de um livro. O sucesso comercial do Espião Português também se deve um pouco a isto. É prestigiante ter um livro publicado numa editora como a ASA.


Tens recebido feedback dos teus leitores?
Sim. A minha página no Facebook, tal como o meu site oficial têm sido ferramentas preciosas. Estabeleci contacto com pessoas que conheci nas sessões de autógrafos, e outras que posteriormente têm adquirido o livro e dado a sua opinião. Isto, sem esquecer os bloggers com quem tenho formado parcerias. É muito gratificante ver como os leitores se relacionam com o André, o protagonista do livro. Já aconteceu até dizerem-me que se tinham apaixonado por ele, dada a grande empatia que transmite, levando o leitor a sofrer por e com as suas vitórias e desilusões.
De uma forma geral, as criticas estão a ser muito positivas, ainda mais do que alguma vez esperei. Aliás, a minha família já brinca comigo e diz que eu estou a ficar mal habituado. As pessoas têm salientado a emoção e sensibilidade da história, além das constantes reviravoltas e surpresas na mesma, revelando-se muito curiosas acerca do que estou a planear para a continuação.


Enquanto escritor português como vês o mundo editorial em Portugal e a sua posição em relação a autores portugueses?
Com alguma preocupação. Há muitas pessoas com talento que acabam por desistir face à relutância revelada pelas editoras em investir em novos autores. Por um lado, é compreensível, já que o esforço de divulgação de um desconhecido é significativo, e uma editora é uma empresa, logo tem de se preocupar com a sua viabilidade financeira. Por outro, lidam directamente com a cultura nacional, e devem ter uma atitude responsável perante a mesma. Estarem demasiado fechadas, acaba por ser redutor, embora Portugal não seja ainda dos piores casos, já que esta é uma situação que se repete um pouco por todo o mundo. Daí o aumento da auto publicação. Por exemplo, no Brasil, as melhores editoras estão a recusar submissões espontâneas, ou pelo menos a fazê-lo apenas por um breve período de tempo. Cá, ainda vai sendo um pouco diferente. Se abordarmos uma editora com a proposta de um manuscrito, desde que este não se enquadre numa linha completamente oposta à sua orientação, ela irá apreciá-lo. Pode é não aceitar publicá-lo.


O que aconselhas a quem quer publicar o seu primeiro livro?
É um lugar-comum, mas essencialmente a não desistir. A perseverança e crença em nós próprios é muito importante. Temos de ser nós a valorizar-nos e ao nosso trabalho, e não esperar que os outros o façam por nós.
Em termos mais técnicos, aconselho a levarem o seu próprio tempo, e apenas apresentar o trabalho quando efectivamente terminado. Devemos ler e reler o que escrevemos várias vezes, e eliminar ao máximo gralhas e “pontas soltas” na história. E preocuparmo-nos com as personagens. Para mim, elas são o mais importante e devemos respeitar as características que definimos para as mesmas, evitando descaracterizá-las.
Por fim, aconselho ainda a aproveitarem as oportunidades que vão aparecendo, não se deixando ficar reféns dos ideais criados. Só porque gostamos de uma editora em concreto, não quer dizer que ela seja o melhor para nós. Por vezes, é mesmo melhor começar por baixo. Além de não ter medo da opinião dos outros. Se queremos publicar um livro e tê-lo à venda, isso vai ser a primeira coisa a acontecer.


Projectos Futuros
Para já, acabar os dois volumes da trilogia. Estou actualmente a trabalhar no segundo, que espero terminar até ao final de 2013. Aliás, a minha intenção é publicar cada um com ano e meio de intervalo, dando as aventuras do André como terminadas em meados de 2015.
Encontro-me já numa fase algo adiantada da segunda parte da trilogia, e tenho um sentimento muito positivo em relação ao que já escrevi. De um modo simples, assenta no trinómio dúvida-confiança-traição, e vai apresentar alguns elementos semelhantes ao Espião Português e que são transversais a toda a série, mas com uma abordagem bastante diferente. É também um livro muito mais romântico que o primeiro, mais tenso, coeso, e que espero que seja capaz de traduzir o meu próprio amadurecimento. Acho que deixei alguma margem de progressão no primeiro livro. E quero mostrar agora essa mesma evolução.
Uma vez terminada a trilogia, o caminho a seguir ainda se encontra algo indefinido. Tenho uma ideia nova e que está lentamente a germinar. Não estou fora de fazer uma mudança de género, mas é algo a reflectir com atenção. Gosto tanto do universo da espionagem, que sei que terei grandes dificuldades em manter-me afastado.


Pergunta da Praxe: Alguma vez tinhas visitado do Blog Morrighan? O que achas do espaço?
Fui apanhado! Já conhecia o Morrighan, mas não o visito tão frequentemente quanto deveria. Aliás, não o faço em relação a qualquer blogue em especial. Não por falta de interesse, mas porque vou assiduamente às livrarias, estando a par das novidades. Gosto de mexer nos livros e ler as contracapas em busca da minha próxima companhia.
Apesar disto, vou passando por ele. Aliás, já há algum tempo que o andava a “namorar”, sentindo-me tentado a propor uma parceria. Considero-o um dos mais importantes dentro da blogosfera nacional. Apresenta uma dinâmica e variedade de conteúdos notáveis. Está constantemente a divulgar as melhores novidades. E consegue percorrer vários géneros literários, sempre com extrema qualidade. Não foi por acaso que venceu o prémio de melhor blogue de 2012 na categoria de cultura, e é tudo devido à entrega e empenho da sua autora. Gosto ainda do grafismo (adoro as luas quando carregamos nas várias páginas), para além de estar a fazer um excelente trabalho na defesa dos autores portugueses, o que é de louvar.

Mais sobre O Espião Português: http://branmorrighan.blogspot.pt/2013/05/divulgacao-o-espiao-portugues-de-nuno.html

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