Opinião: O Livro do Ano de Afonso Cruz

O Livro do Ano Afonso Cruz Editora : Objectiva Sinopse : Estas são páginas do diário de uma menina que carrega um jardim na cabeça, at...

O Livro do Ano
Afonso Cruz

Editora: Objectiva

Sinopse: Estas são páginas do diário de uma menina que carrega um jardim na cabeça, atira palavras aos pombos e sabe quanto tempo demora uma sombra a ficar madura.
Páginas feitas de memórias, para leitores de todas as idades.

Opinião: Considero-me uma leitora sortuda. Sortuda e orgulhosa. E o que é que isso tem a ver com o livro, perguntam vocês. Bem, tem tudo. Quando temos a oportunidade de ler obras como as do Afonso Cruz e ainda de conhecer o autor pessoalmente, é esta a sensação que fica. Comprei O Livro do Ano durante a iniciativa Não há feira, mas há escritores e tive ainda o privilégio de o autografar e trocar duas palavras com o autor. Mal tive oportunidade peguei nele e li-o, reli-o e confesso que antes de vir escrever esta opinião voltei a relê-lo. Completamente delicioso.

O livro está dividido em quatro segmentos principais que representam as quatro estações do ano. Tal como a sinopse diz, a cada dia registado assistimos à visão do mundo que uma menina muito especial tem.

21 de Março
Fiquei à janela a ver a noite deitar os pássaros nos ninhos.

É assim que começa a obra, acompanhada de uma ilustração da menina que nos fica gravada na memória. À medida que o tempo vai passando, assistimos aos seus registos que, embora possam parecer ingénuos, dizem mais do que aquilo que está escrito.

3 de Abril
Ando pela rua e ninguém repara no jardim enorme que levo na minha cabeça.
Quando entrei no meu quarto, ainda trazia o jardim.
Pousei-o no meu diário, precisamente na frase anterior.

O irmão acha-a maluca, mas ainda assim ela não reprime o que sente. Com a ajuda das ilustrações, o leitor é transportado para a mente da menina e toda esta obra de arte acaba por se transformar num filme dentro da nossa cabeça.

1 de Maio
Todos os dias faço coisas estranhas, pois tenho medo do Instituto das Pessoas Normais. (...)

Acho incrível a capacidade que Afonso Cruz tem de nos falar para a alma. Numa entrevista que ouvi do autor, ele dizia que imaginava as imagens ao mesmo tempo que escrevia, que só assim poderia conjugar as duas coisas. Pois eu acho que ele o faz de maneira a roçar a perfeição. O Livro do Ano é um livro singular, único, que mesmo com pequenas sentenças, por vezes em tom poético, nos deixam sem palavras, mas sentidos e pensativos.

14 de Julho
Às vezes trago um deserto para casa.
É quando me sinto sozinha.

Como já devem ter lido na entrevista que fiz ao autor em Janeiro (http://branmorrighan.blogspot.pt/2013/01/entrevista-afonso-cruz-escritor.html), Afonso Cruz é também músico e realizador. No seu todo, consegue ser uma pessoa versátil nas mais variadas artes e um dos primeiros pensamentos que me assaltou a mente quando acabei este livro foi que todas elas estavam aqui reflectidas. De uma maneira ou de outra, sentimos cada contributo das suas restantes capacidades enquanto o lemos.

1 de Agosto
Quanto mais facilidade uma música tem em entrar na cabeça, mais dificuldade tem em sair.

Eu gostei tanto deste livro que acho um crime não correrem já para a livraria mais próxima a comprá-lo. Ainda há tanto por ser dito, tanto por expressar! Um misto de sentimentos que nos assaltam a cada página, a cada imagem, a cada som que nos surge na cabeça. As exclamações, os gritos contidos, os sentimentos reprimidos. Um livro aparentemente para crianças, mas não só para as crianças de idade, como também para aquelas que todos temos dentro de nós e que teimamos constantemente em esquecer.

1 de Dezembro
O meu pai ata palavras umas às outras, numa corda muito comprida.
É capaz de atravessar o espaço entre prédio muito altos, equilibrado em cordas de palavras.
E pode saltar.
E evadir-se da prisão.
Ele chama livros às suas cordas.

Cordas como é este O Livro do Ano, fazem bem à alma e aquecem-nos o coração. Derretem o gelo que muitas vezes deixamos que se forme no nosso peito e ressuscita a criança e o espírito leve que já tivemos em tempos. Mesmo na sua ingenuidade, esta menina tão especial, que inventa dias que não existem no ano para registar as memórias desses mesmo dias, é capaz de constatar aspectos complexos de forma simples e eficaz.

27 de Janeiro
Tentei atirar a neve pela janela fora, mas continua a cair dentro do quarto.
É como quando nos arrependemos do que dizemos: atiramos as palavras fora e elas caem dentro de nós.

Estas serão certamente palavras que não me arrependerei de dizer: amei o livro; livro este que acaba com um registo a 30 de Fevereiro com memórias que ninguém duvidará que aconteceram!
Os meus parabéns ao autor e o meu muito obrigada por nos dar o prazer e a honra de termos livros como este à nossa disposição.

Afonso Cruz - www.wook.pt

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