Opinião: Para onde vão os guarda-chuvas de Afonso Cruz

Para onde vão os guarda-chuvas Afonso Cruz Editora : Alfaguara Sinopse : O pano de fundo deste romance é um Oriente efabulado, ...

Para onde vão os guarda-chuvas
Afonso Cruz

Editora: Alfaguara

Sinopse: O pano de fundo deste romance é um Oriente efabulado, baseado no que pensamos que foi o seu passado e acreditamos ser o seu presente, com tudo o que esse Oriente tem de mágico, de diferente e de perverso. Conta a história de um homem que ambiciona ser invisível, de uma criança que gostaria de voar como um avião, de uma mulher que quer casar com um homem de olhos azuis, de um poeta profundamente mudo, de um general russo que é uma espécie de galo de luta, de uma mulher cujos cabelos fogem de uma gaiola, de um indiano apaixonado e de um rapaz que tem o universo inteiro dentro da boca.
Um magnífico romance que abre com uma história ilustrada para crianças que já não acreditam no Pai Natal e se desdobra numa sublime tapeçaria de vidas, tecida com os fios e as cores das coisas que encontramos, perdemos e esperamos reencontrar.


Opinião: Tenho para mim, e com cada vez mais determinação, que ler Afonso Cruz é uma experiência, mais do que única, genuinamente pessoal. O que eu sinto não há-de ser bem o que os outros sentem. A narrativa, por vezes, consegue ser tão transcendente, que apesar das palavras serem as mesmas para todos, são sentidas e interpretadas, visualizadas, de formas diferentes. Principalmente no que toca a emoções fortes, como a perda, o amor, os corações partidos, os corações que se querem curar. Em comum, existe uma espécie de consciência colectiva, completamente deslumbrada, em que um facto se eleva indiscutível e inegável - Afonso Cruz tem a capacidade, independentemente do enredo, do local, das personagens, de deixar o leitor com uma sensação de vazio enorme quando a leitura termina. Lê-lo é um vício, um vício que depois de adquirido é impossível perder; não há tempo que passe ou desintoxicação possível que o atenue. E depois há a surpresa, o redescobrir, em cada história, de sensações esquecidas ou adormecidas; o provocar uma nova ânsia de intervir, de fazer diferente, de reescrever a história da vida.

Para onde vão os guarda-chuvas é capaz de ser uma das leituras mais completas, mais humanas e assombrosas que alguma vez li. Começa com um miniconto ilustrado, com afirmações curtas e pertinentes, como um teaser a avisar o leitor que se prepare, uma longa viagem está por começar. E começa, num tom diferente, num registo sem antecedentes, mas com o carimbo da personalidade do autor. Eu poderia começar a falar da história, mas dificilmente conseguiria abreviar fosse o que fosse e como tal poupo-vos a uma versão simplória e insignificante quando a versão original é tão merecedora e digna de ser descoberta, sentida, sofrida, amada e reflectida. 

Admiro a forma como Afonso Cruz abordou toda a cultura oriental, a forma como transmitiu toda a trama, passo-a-passo, oscilando entre a esperança e o desespero, a procura infinita e o achar desencontrado. Um consciencializar por vezes tardio, uma necessidade de se ser amado nem que para isso se tenha de morrer, mesmo que no sentido figurado. Estamos perante um escritor que tece tapetes com pedaços de personagens e que, de forma enigmática, parece conter pedaços de quem lê. Porque é rara a pessoa que nunca amou sem ser correspondido, que nunca perdeu alguém que amava, que nunca quis ser aceite e amado por aquilo que é e não como uma sombra de outro alguém. Leiam, chorem, sorriam, mas acima de tudo, aproveitem o que a viagem vos dá. Para onde vão os guarda-chuvas é todo ele uma obra de arte, sem igual, que nos enche e nos drena, que nos enternece e nos faz questionar de forma quase sofrida, "Para quando a próxima dose de Afonso Cruz?".

3 comentários