Entrevista aos Dear Telephone, Banda Portuguesa

Existem bandas que nos tocam de uma maneira muito especial com a sua música. Quando descobri Dear Telephone, através do álbum Taxi Ballad, ...

Existem bandas que nos tocam de uma maneira muito especial com a sua música. Quando descobri Dear Telephone, através do álbum Taxi Ballad, confesso que não estava à espera da vaga de emoções e da energia proporcionadas. Os Dear Telephone formaram-se em 2010, reunindo Graciela Coelho, André Simão e Ricardo Cibrão (companheiros nos La La La Ressonance), Pedro Oliveira (baterista de peixe:avião e Old Jerusalem). O resultado é um conjunto de sons únicos, com um par de vozes que fica no ouvido, perfeitamente conjugadas, e cujo talento é impossível de negar. 
A entrevista, infelizmente, teve de ser por mail e por isso o tom algo impessoal, mas que vale a pena ler. 


1. Estão juntos desde 2010, o que é que motivou formarem este projecto?
Essencialmente a vontade de explorarmos um formato e uma linguagem que não era, até aí, preferencial a nenhum de nós: a canção. Muita da nossa identidade passa pelo encaixe possível entre os nossos passados mais ligados à música experimental e o formato tradicional da canção. O resultado é muitas vezes híbrido e por isso, para nós, entusiasmante. Nasceu também fruto de uma amizade com décadas, da vontade de trabalhar juntos e da entrada em cena da Graciela.


2. Porquê o nome Dear Telephone?
O nome inspira-se directamente numa curta-metragem experimental do Peter Greenaway. As afinidades entre o que nos estava a surgir, musical e liricamente, e o universo estético e mensagem – ou ausência dela – do filme eram demasiado evidentes: ideias como pausa, suspensão, quotidiano, comunicação, etc. Torna-se difícil de explicar resumidamente e por escrito. Vendo o filme e conhecendo o nosso   trabalho, torna-se clara a opção.  


3. Contam com dois álbuns lançados, o primeiro Birth of Robot em 2011 e agora o Taxi Ballad em 2013. Que histórias é que pretendem contar em cada um? Quais os conceitos essenciais por trás de cada um destes discos?
“Birth of Robot” foi um registo muito baseado na ideia de síntese, de minimalismo nos recursos. Em oposição a uma lírica complexa e teatral. No fundo, traços que de algum modo se estendem ao “Taxi Ballad”. Cujo conceito fundamental é a ideia de interior.  Tanto no sentido humano como arquitetural ou espacial.   


4. Vocês oscilam bastante entre os registos calmos e os mais agressivos, com uma bateria rebelde em tom de protesto. Não sou de colocar rótulos nas músicas, mas se vos perguntarem qual é o vosso tipo de música, o que é que respondem?
Esse não é nosso papel. Temos influências tão diversas a contribuir para a nossa música que se torna realmente difícil – para além de irrelevante – engavetar o nosso som. Quando muito poderíamos dizer que somos uma banda de rock.


5. Quais é que consideram as vossas principais influências/inspirações na música que produzem?
Antonioni, Peter Greenaway, Mike Leigh, da cinema. Hemingway e David Lodge, da literatura. Arthur Russell, Low e o universo do country, na música.  


6. Como tem sido a receptividade do público português?
Tem sido óptima. Sentimos a nossa base de seguidores a aumentar lenta e sustentadamente.


7. Já actuaram fora de Portugal? Se sim, como foi a experiência?
Ainda não. Acontecerá em breve, no início de maio.


8. Existe algum palco em que actuarem nele seja como voltarem a casa?
Não. Há palcos que nos deixaram marcas mais fortes, outros que nem tanto. Mas esse é o encanto do palco e da própria ideia de tocar ao vivo: deixarmo-nos surpreender pelo sítio, as pessoas, as interacções. 


9. Conseguem fazer música a tempo inteiro, ou seja, são músicos profissionais?
Não. Apesar de abordarmos a música num sentido semi-profissionalizante, nenhum de nós vive ou quer viver dela.


10. Na vossa perspectiva, é fácil ser-se músico em Portugal?
É fácil ser-se músico em qualquer lugar. O difícil é tornar digna e operativa a ação de partilhar a tua música. Em Portugal demos passos de gigante nos últimos anos, nessa perspectiva. Há poucos países que reúnam em tão pouco espaço geográfico, tantas salas, equipamentos, imprensa, estúdios, bandas, etc. Falta-nos, ainda assim, uma industria mais madura e funcional. Um sistema integrado entre todas estas coisas.



11. Enquanto leitora não consigo dissociar a música da literatura. Quase todos os livros têm algum tipo de banda sonora e, inclusive, existem autores que só conseguem escrever a ouvir música. Que tipo de livro é que acham que a vossa música poderia inspirar?
Um romance, sem dúvida. Diria mesmo, uma novela. Ora negra e intrincada, ora lenta e matinal. Com muitos personagens. Muitas referências subliminares. Poucos acontecimentos reais, muitos imaginários. Um final aberto.


12. E vocês, costumam ler ou escrever? Algum livro preferido que queiram mencionar e que até vos possa ter influenciado de alguma maneira?
São muitos. Do Barão Trepador do Calvino à Troca do David Lodge.


13. Que projectos têm em mente para o futuro?
Continuar a apresentar o Taxi Ballad. Compor o próximo álbum. Prometemos novidades antes do fim do ano.


14.  Agora uma pequena pergunta da praxe que faço a todos os entrevistados: já conheciam o blog BranMorrighan? O que acham do espaço? Que mensagem podem deixar aos seus leitores?
Conhecemos o blog há relativamente pouco tempo. Apreciamos, obviamente, mais este contributo à difusão da arte, de forma descomprometida e independente. Parabéns ao blog e a todos os que lhe justificam a vida, lendo-o e interagindo.

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Desde já o meu muito obrigada à banda pela disponibilidade e fica a informação que dia 9 de Maio vão então actuar pela primeira vez fora de Portugal em Londres.
Podem encontrar mais informações sobre a mesma nos seguintes links:

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