Entrevista a Pedro Garcia Rosado, Escritor Português

Para os amantes de policiais/thrillers em Portugal, Pedro Garcia Rosado é um nome que certamente não lhes ficará indiferente. Já com uma de...

Para os amantes de policiais/thrillers em Portugal, Pedro Garcia Rosado é um nome que certamente não lhes ficará indiferente. Já com uma dezena de livros publicados ao longo dos últimos dez anos, tem sido, principalmente, desde que começou a publicar pela TOPSELLER a série de Gabriel Ponte, que muitas das atenções do público não centrado nos policiais se começaram a virar para ele. Eu própria desconhecia o seu trabalho até este me ter surpreendido em Morte com Vista para o Mar, a sua primeira obra publicada então pela sua nova editora. Recentemente saiu mais um livro de Gabriel Ponte - Morte nas Trevas - e nada melhor que uma entrevista para conhecermos melhor o autor e saber que balanço faz da sua vida como escritor. 
De uma simpatia e disponibilidade invejáveis, só posso agradecer a Pedro Garcia Rosado por ter aceite responder a umas perguntas para o Morrighan. O meu muito obrigada e votos de muito sucesso.



1. Fala-nos um pouco sobre ti:
Fui jornalista, crítico de cinema, trabalhei em várias áreas da comunicação institucional no sector público e privado e, desde 2007 até ao presente sou também tradutor profissional. Em 2008 mudei-me da Grande Lisboa para uma região interior do concelho de Caldas da Rainha, onde já tinha casa, a cerca de doze quilómetros da cidade e a cinco quilómetros da costa. É onde agora trabalho, no meio do campo. Com bom tempo, o ruído mais comum é o dos passarinhos.


2. Enquanto escritor, como caracterizas o teu estilo e ritmo de escrita?
O meu estilo, ou pelo menos como o penso, assenta na tentativa de descrever aquilo que o leitor poderia estar a ver se a história que está a ler decorresse em tempo real à sua frente ou se a visse projectada num ecrã e apenas como espectador distanciado. O ritmo decorre desta opção de estilo, procurando evitar tempos mortos que possam desinteressar o leitor.
Penso que o “thriller” tem, como outros géneros literários, características específicas que são quase regras e que o leitor quer vê-las respeitadas para que a história perturbe apenas o tecido ficcional (o “conteúdo”) e não o modo como ele é apresentado (a “forma”). Nesta perspectiva, há que criar momentos mais movimentados, emocional e/ou fisicamente, e outros mais suaves, conduzindo a uma conclusão que sustenha e compense o aumento da tensão na narrativa. É o que procuro fazer em matéria de ritmo: altos e baixos, mas que sejam sempre coerentes, interessantes e nunca introduzidos apenas “porque tem de ser”.


3. Que influências é que a tua escrita vai buscar?
Em termos literários, a literatura anglo-americana, com mais movimento e menos contemplação. 
Em termos visuais, no quadro dessa minha tentativa de transpor para a página escrita aquilo que o autor “vê” e quer partilhar com o leitor, o cinema e as melhores, e mais inovadoras, séries de televisão. Vi muito cinema desde muito novo, escrevi sobre cinema enquanto jornalista e critico de cinema e a inexistência de salas de cinema adequadas no concelho de Caldas da Rainha (onde vivo) e a proliferação de séries de grande qualidade têm feito com que eu me volte mais, actualmente, para a televisão.


4. O que é que te levou a enveredar pela escrita de thrillers?
Simplesmente o facto de gostar do género e depois o incentivo de editores e leitores, que têm gostado do que escrevo.
Na literatura e no cinema interessaram-me sempre mais as histórias mais movimentadas e isso, desde muito novo, levou-me da grande literatura de aventuras para o fantástico e para a ficção científica e, a seguir, um certo esvaziamento destes géneros empurrou-me para a literatura policial, quando vi o seu desenvolvimento na literatura, no cinema depois na televisão.


5. Qual é a sensação ao seres considerado um mestre do thriller em Portugal?
É agradável e corresponde a uma apreciação valorativa e muito estimulante feita pela editora que me acolheu em 2013, a 20|20/Topseller. A ausência de críticas negativas aos meus livros, para o que também contribuiu o facto de ter podido trabalhar com pessoas excepcionais nas editoras que me acolheram, ajuda a encarar essa apreciação como um estímulo e como um desafio.
Além disso, infelizmente, não há mais quem se dedique regularmente a escrever apenas “thrillers”. Estando sozinho neste género literário, acredito que a existência de uma literatura policial portuguesa de qualidade, com muitos outros autores, seria vantajoso para todos nós e, naturalmente, para os leitores.


6. Como é a tua relação com os teus leitores? 
Gosto de falar com os meus leitores e tento responder a todos e ponho-me sempre à disposição de quem queira falar comigo. Penso que é o que devem fazer todos os autores e é por isso que o meu contacto de e-mail está disponível no meu blogue e eu também tenho presença no Facebook onde, aliás, tem sido possível manter algum diálogo com quem me lê. 
A opinião dos leitores, independentemente do seu sentido, é imprescindível para mim e agradeço-a sempre. 


7. Tens vários livros editados em várias editoras. Estão todos disponíveis para venda?
Por questões contratuais, “Crimes Solitários”, “Ulianov e o Diabo”, “O Clube de Macau” e “A Guerra de Gil” (o que publiquei entre 2004 e 2008) já não estão. Aparecem, por vezes, em alfarrabistas ou em colecções particulares. “A Cidade do Medo”, “Vermelho da Cor do Sangue” e “Triângulo” (2010-2012, série “Não Matarás”) ainda estão, tal como “Morte com Vista para o Mar” e “Morte na Arena” (ambos de 2013, série “As investigações de Gabriel Ponte).


8. Recentemente veio para o mercado mais uma obra tua: Morte nas Trevas. Sentes que existe algum tipo de evolução em ti e nas tuas histórias à medida que o tempo passa?
Sim, o que também tem a ver com a criação de séries e com a necessidade de ir definindo as personagens principais de livro para livro, como é o caso de Gabriel Ponte nesta série mais recente, e a conjugação de dois quadros diferentes: o da história que começa e acaba no próprio livro e uma narrativa em arco, que se desenrola ao longo dos vários livros.
Podendo ser relativamente fácil (a personagem principal nunca pode morrer, em princípio), a criação de uma série tornar-se-á um trabalho mais complexo quando é necessário conceber novos elementos capazes de prenderem a atenção do leitor.


9. Na tua opinião, como é que vês a receptividade do público português a autores portugueses?
É contraditória. Um livro da autoria, genuína ou aparente, de alguém que aparece regularmente na televisão tenderá a ser um êxito. Se o autor não aparece na televisão, o livro (por maravilhoso que seja) pode ser um fracasso. 
Por outro lado, a imprensa dá mais preferência aos estrangeiros do que aos nacionais e, em certos casos, não consegue vencer preconceitos, invejas ou modas, o que também tem a ver com a formação de muitos dos seus profissionais e com a perda de relevância económica e social dos próprios jornais e de certos projectos televisivos.
Felizmente que os blogues literários não fazem discriminações. É por isso que penso que são extraordinariamente importantes para despertar e consolidar o interesse pela leitura, tanto dos autores portugueses como dos estrangeiros.
Aliás, não defendo um tratamento preferencial dos autores portugueses mas, apenas, uma objectividade que privilegie o que é realmente melhor.


10. Tens outra profissão para além de escritor ou consegues viver da escrita? 
Trabalho como tradutor. E é como ganho a vida. Não há vendas que permitam viver só da escrita, embora já tenha ganho alguma coisa. Suponho que são raríssimos os casos em Portugal e em situações que têm mais a ver com a presença televisiva do que com a qualidade do que escrevem.


11. Existe alguma banda sonora para cada livro ou a música não é algo que interfira no processo criativo?
Habituei-me a trabalhar em ambiente de silêncio, até porque o meio onde me encontro favorece esta minha opção.
No que se refere às traduções não consigo trabalhar de outro modo. Quanto à escrita, há sequências que, para a sua primeira versão, podem ser escritas com música e, nessa perspectiva, a escolha terá mais a ver, na minha perspectiva, com a matéria de que me ocupo. No caso de “Morte nas Trevas”, por exemplo, houve sequências mais movimentadas que foram acompanhadas por canções do período revolucionário soviético (o que tem a ver com a intervenção da minha personagem Ulianov...). Em “Morte na Arena” tive em algumas sequências uma banda sonora de músicas de uma novíssima banda portuguesa de “metal”, os Primal Attack. Num caso como no outro, a música foi inspiradora.


12. Que projectos tens para um futuro próximo? 
Continuar a história das investigações de Gabriel Ponte e retomar a personagem de Ulianov (para conhecer talvez as suas origens, na ex-União Soviética) e escrever um romance sobre jornalistas e jornalismo em Portugal. Mas este projecto ainda é capaz de ter de esperar.


13. Pergunta da praxe: O que achas do blog Morrighan?
Acho um projecto extraordinário e um modelo para o que podem ser os blogues de âmbito cultural, cobrindo vários domínios temáticos e sempre com grande dinamismo. É uma proeza, sobretudo quando, como acontece neste meio, a autora mantém o blogue e consegue afirmar-se também noutras actividades.
Acredito que os blogues estarão, de uma forma ou de outra, mais tarde ou mais cedo, na génese de projectos informativos on line mais sólidos e mesmo profissionais e o blogue Morrighan é um dos que está na linha da frente.


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