Entrevista a João Tordo, Escritor Português, sobre o livro "Biografia Involuntária dos Amantes"

João Tordo tem 38 anos, é lisboeta e conta já com sete romances publicados. Estudou Jornalismo e Escrita Criativa em Londres e Nova Iorque ...

João Tordo tem 38 anos, é lisboeta e conta já com sete romances publicados. Estudou Jornalismo e Escrita Criativa em Londres e Nova Iorque e, em 2009, ganhou o prémio José Saramago com a sua obra As Três Vidas, tendo sido também finalista em vários outros prémios. Recentemente lançou Biografia Involuntária dos Amantes pela Alfaguara. Aproveitando a sua estadia pela Feira do Livro de Lisboa, acabámos por conversar um pouco sobre o seu percurso como escritor e um pouco mais detalhadamente sobre este seu último livro.

Fotografia Sofia Teixeira
Além de escritor, João Tordo também toca contrabaixo na banda The Loafing Heroes, mas descarta rapidamente o seu protagonismo nesta área: «Não sou músico, toco um instrumento, são duas coisas diferentes. Toco numa banda, mas é um hobbie, a minha vida é a escrita.»



Curiosa sobre o início da sua carreira e sobre como começou a sua vida de escritor, João Tordo conta-me que não se lembra bem de quando começou a escrever: «Não me recordo exactamente de como é que comecei a escrever, mas quando dei por mim já o estava a fazer, surgia-me naturalmente e era uma forma de me tentar apropriar da realidade e de tentar perceber o que se passava à minha volta. Passado algum tempo, o escritor acabou por passar por um fenómeno de imitação, quando comecei a ler muito na adolescência e comecei a tentar imitar aqueles escritores que lia.»


Já o percurso de leitura começou com livros mais juvenis evoluindo para leituras mais clássicas, convergindo para o momento em que se tornou escritor: «Comecei com Os Cinco, Os Sete, Sherlock Holmes, Banda Desenha, Ficção Científica e Fantástico - coisas que são mais fáceis quando és adolescente. Entretanto, muito por causa da Feira do Livro, lembro-me de vir cá com o meu padrasto e com a minha mãe e de eles me começarem a comparar livros mais "para adultos". Acho que o primeiro romance assim mais sério que li foi o Crime e Castigo e gostei mesmo muito. A partir daí pensei - bem, isto é uma coisa diferente de tudo o que tenho lido - e comecei a escrever e a tentar imitar. Mais tarde, passei por Dostoievski, Kafka, Melville, por outros clássicos russos, por alguma literatura policial americana como a Colecção Vampiro, por Carver, Oster, Don DeLillo, Márquez, entre outros. E comecei a tentar imitar, a ver como é que escreviam. Era um exercício um bocado inglório, eu era um adolescente e não tinha as ferramentas, nem a idade, nem a experiência para escrever como eu gostava de escrever. Então, durante muito tempo não escrevi ficção, mais ou menos entre os 17, 18 anos até aos 23, 24. Dediquei-me a estudar, fui para Inglaterra e depois para os Estados Unidos e fui aprender a fazer outras coisas. No meu segundo ano, em Londres, é que o apelo da escrita voltou sem eu conseguir explicar porquê. De repente, comecei a recordar que aquilo que eu fazia, até ao final dos meus tempos de adolescente, era aquilo que, de facto, me preenchia. A verdade, é que me sentia um bocado perdido. Apesar de ter escolhido o jornalismo, não foi algo a que me tivesse dedicado de alma e coração, portanto, a certa altura, achei que tinha de encontrar aquilo que ,de facto, eu gostava mesmo de fazer e isso era ficção, eram os livros. Então recomecei. Dos 25 aos 27 fiz uma série de tentativas falhadas de escrever um primeiro romance, e aos 27 consegui escrever o primeiro romance com o qual me senti satisfeito. Enviei para as editoras e depois o resto foi acontecendo por si.»


Quanto ao seu estilo de escrita, João Tordo diz-nos que é muito difícil de caracterizar e que é a pior pessoa para o fazer: «Ainda  tendo a imitar e a ser influenciado por aquilo que vou lendo. Apesar de ter uma voz própria - estava lixado se ao fim de sete romances ainda não tivesse (risos) - acabo por ter um estilo muito híbrido. Tanto pode resvalar para uma prosa mais narrativa, de fazer a história prosseguir ao virar de página, como para algo mais introspectivo. Não sei como é o meu estilo, ainda não o tenho muito definido. Sou bastante maleável, é consoante o dia! (risos).» Já quanto ao ritmo e rituais de escrita, condena-se por não conseguir escrever todos os dias como devia: «Como a um corredor de fundo faz bem correr todos os dias, também um escritor deve escrever todos os dias. Eu tenho muita coisa ao mesmo tempo durante o ano todo e acabo por guardar uma certa parte do ano para escrever, normalmente, o Verão. Mas quando escrevo, sou muito metódico e organizado. Normalmente, acordo muito cedo, escrevo sempre à mesma hora, deito-me cedo e sou muito obsessivo com o meu trabalho.»



Após a leitura de Biografia Involuntária dos Amantes, ficou claro que esta é uma leitura muito íntima, que toca o leitor e levanta uma série de questões em relação às obsessões retratadas. Questionado sobre a intenção por trás da obra, João Tordo explicou: «Não sei definir muito bem o livro. Eu acho que há ali uma série de obsessões que estão relacionadas com o facto de nenhuma personagem saber o que quer, de não saber do que é que gosta. Há uma dissociação enorme entre a emoção e a razão. Racionalmente, tentam justificar as suas próprias vidas. O professor e o Saldaña Paris, durante a primeira parte do livro, nunca se calam, estão sempre nisto e naquilo, nisto e naquilo, em diálogos, hipóteses e conjecturas, mas nenhum deles consegue associar isso a emoções. São pessoas que perderam a capacidade de sentir e de perceber que os sentimentos não são para tu agires, são para tu sentires, e eles correm atrás dos sentimentos. O Saldaña Paris anda atrás daquela mulher, mesmo depois de morta, ele continua a correr atrás dela, mas não é atrás dela, é atrás de um sentimento que ele não poderá recuperar, e que quando o teve não soube aproveitar. São personagens que como não sabem aquilo que querem, nem daquilo que gostam, que não sabem reconhecer os sentimentos, resta-lhes o drama de qualquer ser humano - a dúvida. Quando não sabes o que queres, hesitas constantemente e isso é um drama que conduz à obsessão e é esta obsessão que é retratada no livro. Todo o romance é uma quimera, é uma procura por uma coisa que já não existe. O que interessa saber o que é que aconteceu à Teresa? Não interessa, não é? Não acontece nada! No entanto, é uma obsessão que existe e está lá,  e essa quimera que o protagonista assume como sua é o que é assustador no livro, porque ele não consegue parar. Isso, é assustador.»



Esta é a primeira obra em que João Tordo assume parte da escrita no feminino através da personagem Teresa, com todos os seus enigmas e mistérios. Quem é afinal Teresa? Em que é que é inspirada? «Teresa é inspirada numa série de pessoas, mas é mais a ideia de uma mulher do que alguém real. Ela tem aquela existência muito fragmentária, nunca sabemos exactamente o o que é que ela pensa, ou como foi a sua vida, só conhecemos aquele período inicial em que decorre aquela adolescência estranha e, ainda assim, é ela o centro das atenções, daquela obsessão que acaba por provocar toda uma série de equívocos e mal entendidos. Acho que Teresa acaba por ter coisas de várias mulheres que fui conhecendo e acaba por ser mais uma mistura de coisas do que uma mulher propriamente dita.»


Um facto curioso, que descobri antes da entrevista, é que existe realmente um poeta chamado Saldaña Paris com quem João Tordo se cruzou a certa altura da sua vida: «Conheci-o no Canadá, em 2012. Fui para lá fazer uma residência, em Montreal, e ele também lá estava a fazer essa mesma residência. Não morávamos juntos, mas assim que nos conhecemos, ficámos logo amigos. Não posso dizer que seja uma amizade muito sólida, porque não nos vemos há muito tempo, mas trocamos mails e correspondência. Ele é muito parecido comigo e achei piada a isso.» Uma característica da personagem Saldaña Paris é que todos os poemas que escreve acaba por largá-los e abandoná-los pelos mais variados sítios. Como é o verdadeiro Saldaña Paris? «Não é tão grave como o do livro (risos). O do livro está sempre a perder coisas. Acaba por ser uma rejeição. É daquelas personagens com baixíssima auto-estima e que rejeitam tudo o que fazem. Ele rejeita tudo o que faz. Ou então não tem importância nenhuma para ele. Afinal, o que tem importância para ele é algo que já não está cá, enfim, ele é um romântico.»


Vai fazer 10 anos que o autor teve o seu primeiro romance publicado e explica que este último é o princípio de uma mudança, na qual o autor espera conseguir despegar-se mais de si mesmo e das suas emoções para fazer coisas diferentes: «Este livro é o princípio de alguma coisa que ainda não sei bem o que é. Talvez nos próximos livros seja mais evidente do quê. Depois logo se verá. Este romance foi bom para mim, porque me permitiu fazer coisas que nunca tinha feito antes, pensar de maneiras que nunca tinha pensado antes. Permitiu-me perceber que posso não ser só um, que posso ser vários e isso foi bom. No entanto, ainda estou muito apegado à minha maneira de ser. Talvez nos próximos romances, me consiga despegar mais e fazer coisas ainda mais complicadas, coisas nas quais eu consiga identificar as emoções, mas em que elas não tenham nadaque ver comigo. Acho que, sobretudo neste romance, passo por muitas das inquietações que se vêem retratadas neste livro.» Será a sua escrita uma forma de exorcizar as suas emoções? João Tordo responde-nos: «Acho que exorcizar é muito difícil, não consegues exorcizar nada só com um livro, precisas de tempo, de anos e de experiência. Mas ajuda muito a identificar essas inquietações e,em última análise, serve para estarmos fora de nós próprios, enquanto lemos o livro. No bom sentido, claro."


Fotografia Sofia Teixeira

Uma das maiores dificuldades dos escritores, em Portugal, é conseguirem fazer da escrita uma ocupação a tempo inteiro. João Tordo não é excepção: «Tenho muitas dificuldades. Tenho de fazer muito trabalho à parte para conseguir poder sobreviver como escritor. Vou dando aulas, vou fazendo traduções, escrevendo crónicas e guiões, o que for aparecendo. A vida de escritor não é como as pessoas pensam, é complicada. Daí, por vezes, não conseguir escrever sempre que quero. Acabo por ter muitas coisas na cabeça.» Perguntei-lhe o que é que ele acha que se poderia alterar no nosso país para isso mudar: «Não acho que haja muito para alterar. Se eu não vendo livros suficientes para poder subsistir, o problema é um bocado meu. Não posso obrigar as pessoas a comprarem os meus livros e acho que já tenho um número de leitores bastante vasto. Se ao fim de 10 anos gostava de ter mais, claro que sim, mas já tenho um número considerável. Não nos podemos esquecer de que estamos num país pequeno e que ,ainda assim, se vendem e se compram livros em Portugal. Agora, se formos comparar com a Islândia ou a Noruega, onde se lê imenso, se calhar lemos ou vendemos pouco. Estamos num país pequeno e acaba por ser mais difícil. Talvez haja meia dúzia de escritores que conseguem viver só daquilo que escrevem, eu não consigo.» No que toca à importância dos autores portugueses no nosso mercado literário a visão é optimista: «Acima de tudo, acho que os autores portugueses estão a ter cada vez mais reconhecimento. Nos últimos anos, demos um salto enorme, não só em relação à qualidade dos autores portugueses, comotambém na forma como o público recebe esses autores. A nova geração está a ser muito bem recebida.»


Em relação a projectos futuros, o mistério fica no ar: «Tenho um projecto para o futuro próximo, mas não posso nem quero falar sobre isso, porque não sei exactamente o que é. Estou aqui a matutar, há já várias semanas, para perceber o que vem a seguir, mas ainda não posso dizer nada (risos).» 


E uma mensagem para os leitores? «Que continuem a ler, que leiam bons livros e que sejam escrupulosos nas suas escolhas.»


Da minha parte, um muito obrigada ao João Tordo pela disponibilidade e pelos minutos naquela tarde ventosa da Feira do Livro de Lisboa (sim, tivemos sorte, fizemos a entrevista antes da semana do calor!). 

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