Opinião: A Mulher Silenciosa de A. S. A. Harrison

A Mulher Silenciosa A. S. A. Harrison Editora : Editorial Presença Sinopse : Jodi Brett e Todd Gilbert vivem juntos há vinte e ...

A Mulher Silenciosa
A. S. A. Harrison

Editora: Editorial Presença

Sinopse: Jodi Brett e Todd Gilbert vivem juntos há vinte e dois anos, num confortável apartamento em Chicago com vista para o lago. Os dias decorrem numa tranquilidade aparente, à medida que a sua relação se vai lentamente consumindo. Até ao dia em que Jodi fica a saber que Todd tem um relacionamento sério com a filha de um dos seus melhores amigos, Natasha Kovacs. Em estado de negação, Jodi não reage quando Todd lhe diz que vai casar com Natasha ou quando a avisa de que ela terá de abandonar o apartamento onde vivem. Mas este será, para Jodi, um ponto de viragem sem regresso possível. Um romance avassalador, misto de comédia de costumes e thriller psicológico, que nos revela o lado negro do casamento e até onde uma mulher é capaz de ir quando já nada mais tem a perder.


Opinião: A Mulher Silenciosa é o primeiro e único romance da escritora A.S.A. Harrison que viu a sua morte chegar, consumida pelo cancro de que sofria, pouco antes da publicação do seu livro. Foi com grande respeito que peguei no mesmo, não tivesse sido este fortemente aclamado pelos leitores nos Estados Unidos e porque a temática também é, por si só, delicada. Quantas pessoas não se viram já no lugar de Jodi e Todd? A mulher abandonada e o homem que se apaixona por alguém mais novo?

Harrison construiu uma narrativa sólida, que vai crescendo aos olhos do leitor de forma algo misteriosa, mantendo a dúvida e a expectativa em níveis que nos levam a virar ansiosamente cada página. A premissa é simples, Jodi Brett é a mulher perfeita. Mantém tudo impecavelmente arrumado, não faz perguntas às quais não quer saber as respostas e não discute. Todd Gilbert começou por ser um Zé Ninguém, mas ao lado de Jodi encontrou as forças e a ousadia para vingar na vida. Prestes a entrar em pico de carreira, já cansado da rotina com Jodi, apesar da segurança que esta lhe dá, ele encontra toda uma outra adrenalina em Natasha, uma jovem estudante filha do seu melhor amigo.

Existem muitos aspectos neste livro, muitos pormenores, que dão que pensar. Não só a situação não é nova, como também a compreensão pode demorar a chegar. Sou uma pessoa que gosta de mergulhar na mentalidade humana, de tentar perceber as motivações, a forma como certas ilusões ganham mote real e levam as pessoas a cometerem determinados actos que só no derradeiro momento da desgraça, seja em que contexto for, é que se dão conta  das encruzilhadas com que se foram deparando e dos caminhos errantes que as levaram até àquele momento e este livro é rico nisso. 

Tanto Todd como Jodi são duas pessoas, à sua maneira, disfuncionais, mas quem não o é, nem que seja um bocadinho, nos dias de hoje? A escrita de Harrison leva-nos pela mão aos meandros do que uma calma aparente pode esconder por trás, aos vários passos da não aceitação e da loucura a que isso pode levar. Explora também que não há pessoas, relações ou interacções perfeitas. A adrenalina de uns meses, numa situação extra-conjugal, pode-se tornar em algo aborrecido e ainda mais monótono do que a relação conjugal. Porém, por vezes as consequências surgem em forma de gravidezes inesperadas e tudo tem de tomar outro rumo.

É um livro relativamente pequeno, mas de muito conteúdo psicológico. Os momentos finais, onde a tragédia é inevitável, são o apogeu do lado obscuro e transformador da mente humana. Não sendo um thriller violento a nível físico, nem sequer tanto a nível psicológico, este consegue ser daqueles livros que despertam triggers e nos desassossegam. 

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