[Cinema] Opinião: The Zero Theorem (O Teorema Zero), de Terry Gilliam

Em The Zero Theorem o futuro é paranóico e caótico, construído em cima dos edifícios e das cidades antigas, em vez de os substituir. A...



Em The Zero Theorem o futuro é paranóico e caótico, construído em cima dos edifícios e das cidades antigas, em vez de os substituir. As roupas são espalhafatosas e a cor abunda por todo o lado - a luz não. A publicidade, omnipresente, fala de coisas como a igreja de Batman, o Redentor, e campanhas de saldos com o slogan “occupy mall street now” (o que é um bom exemplo do humor duvidoso do filme). Por todo o lado abunda o ruído visual e sonoro. Todas as pessoas estão nas festas com os seus smartphones ou tablets na mão. Ah, esperem…

Quer seja o futuro ou uma realidade alternativa, o que aqui interessa é a sátira – à sociedade de consumo, à tecnologia, mas principalmente ao desnorte com o que realmente interessa (seja lá o que isso for). Qohen Leth (Christopher Waltz como peixe na água) contrasta com tudo isto: veste-se quase exclusivamente de preto, tem um discurso erudito, refere-se sempre a si próprio na primeira pessoa do plural, e acredita que, mais cedo ou mais tarde, irá receber uma chamada telefónica em que um desconhecido lhe qual é o sentido da sua vida. Uma chamada do destino, dir-se-ia. Para isso, Leth precisa de estar em casa (uma igreja decrépita), preparado para atender o telefone, e por isso o filme começa com os seus esforços para conseguir autorização para trabalhar a partir de casa.


Quando consegue a autorização, começa a trabalhar num projecto diferente – o Teorema Zero, uma equação monumental e traiçoeira que provaria que o universo não tem qualquer sentido. Entretanto, além da “gerência” (Matt Damon insidioso e a camuflar-se, literalmente, com o ambiente) e do supervisor Joby (David Thewlis pythonesco), aparece Bainsley (Mélanie Thierry impetuosa e segura), uma “cyberacompanhante” bem real que talvez seja uma pista para a busca de Leth. Vão entrando na vida (e na casa) de Leth outras personagens secundárias, como o geek adolescente Bob (Lucas Hedges) ou a “psicóloga digital” interpretada por Tilda Swinton, que tem alguns dos momentos mais engraçados do filme (e também os mais bizarros - quando começa um rap despropositado, por exemplo).

O pior são as ideias inconsequentes que o filme vai tendo e que acabam por torná-lo, no geral, inconsequente, e digo isto com as características do estilo de Gilliam em mente, que não funciona tão bem como se estaria à espera. O caos frequente dos seus filmes é, neste, mal doseado – não existe nem deixa de existir – provocando um efeito contrário ao habitual: desinteresse e, por vezes, mesmo tédio.


A marca do autor nunca deixa de estar presente no filme, quer a nível dos temas quer, principalmente, na estética bizarra, com os ângulos obsessivos e o ritmo particular, mas, no fim de contas, essa presença é positiva e essencial, porque mesmo um mau filme de Terry Gilliam é, no mínimo, interessante. Num extremo temos o magnífico Brazil, no outro o péssimo Tideland, e no meio este The Zero Theorem, que, apesar de tudo, não é mau – é um Gilliam melhor do que as suas últimas tentativas e, a espaços, chega a lembrar o fulgor visionário dos seus primeiros filmes.


No fim, há uma moral algures entre a procura fútil pelo sentido da vida e a necessidade de se aproveitar o seu tempo precioso. Algumas personagens e linhas narrativas são abandonadas, mas o que mais interessa é o arco de Leth, cristalizado na versão de Karen Souza de Creep, que nos acompanha em direcção ao pôr-do-sol (quase). Talvez se encontre alguma redenção para Leth e para o filme, um objecto estranho de que não se sabe ao certo onde pertence – e, pelo menos por isso, interessante.

Emanuel Madalena

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