[Crónica João Cruz] Carta de um actor ao público

Somos actores.  Um estudo aponta que a única coisa que as pessoas temem mais que a morte é a exposição pública. Nós enfrentamos esse me...

Somos actores. 

Um estudo aponta que a única coisa que as pessoas temem mais que a morte é a exposição pública. Nós enfrentamos esse medo… também o temos, mas enfrentamo-lo o melhor que podemos. Partimos para o palco com a insegurança de quem sabe que vai ser julgado por dezenas ou centenas de pessoas, mas mesmo assim vamos.  

Somos actores. 

Ao contrário do que muitos pensam, não somos preguiçosos que não querem ter um trabalho honesto ou vagabundos que apenas querem fumar ganzas e beber copos. Somos profissionais, fizemos formação e dedicamos mais do que oito horas diárias à nossa arte, por nós, pelo prazer que nos dá e por vocês. 

Somos actores.

Estamos lá nos bons e nos maus dias, porque amamos aquilo que fazemos. Porque para nós estar em palco é o que dá sentido à nossa vida. Porque o sentimento de plenitude que temos em palco é superior a tudo. Porque ali é onde podemos fazer coisas boas… onde podemos dar coisas boas. Porque sem o palco, sem o teatro, não dormimos, não comemos e não somos nós.

Somos actores. 
E precisamos de vocês. 

Precisamos que vão ao teatro, que vão ver o que fizemos a pensar em vocês, para vocês. Que venham dar uma razão de ser aos meses que passámos a ensaiar. 

Precisamos dos vossos aplausos, das vossas gargalhadas, do vosso apoio. 

Magoa-nos quando vocês não se riem das nossas piadas, quando não aplaudem os nossos bons momentos, quando estão distraídos a mexer no telemóvel ou a conversar com o espectador do lado. Podemos fingir que não, porque somos profissionais e conseguimos ultrapassar… afinal o que nos move é algo maior do que nós.

O nosso trabalho é oferecer ilusões, mas se vocês não tiverem os braços estendidos para as agarrar, elas desvanecem-se, perdem-se… 
Vão ao teatro, dêem-nos uma oportunidade e nós prometemos dar tudo para não vos desiludir.

Somos actores.
Mas isso só faz sentido se vocês forem público. 


João Cruz

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