[Crónica João Cruz] A cigarra, essa vadia.

Algumas das maiores lições de vida que aprendemos em crianças não foram através dos conselhos chatos dos adultos ou dos ralhetes dos no...



Algumas das maiores lições de vida que aprendemos em crianças não foram através dos conselhos chatos dos adultos ou dos ralhetes dos nossos pais, mas sim através dos contos infantis e das suas suaves e subliminares metáforas. 

Por mais que a minha mãe me dissesse que os seus conselhos eram para o meu próprio bem, quem me ensinou isso melhor que a Capuchinho Vermelho, que ao desobedecer à mãe ia entregando a sua vida e a da avó ao lobo mau? Quem nos ensinou que é perigoso aceitar coisas de estranhos se não a Branca de Neve? A Cinderela e o Patinho Feio ensinam-nos que de onde vens não interessa, mas sim quem somos... e apesar de em alguns casos a mensagem hoje nos poder parecer algo retorcida, na infância conseguíamos reter o que realmente importa... 

Posto isto... qual é a m**da da mensagem da Cigarra e a Formiga?! 
A fútil cigarra só pensa em cantar e é isso que faz o tempo todo, enquanto a laboriosa formiguinha, trabalha incessantemente durante o calor, armazenando comida para o Inverno. Quando finalmente chega o impiedoso frio, a cigarra sem nada que comer vê-se obrigada a pedir ajuda à formiga, que é tão esforçada, que tinha comida de sobra para dois. Por outras palavras: o artista é vagabundo!

Basicamente: enquanto a formiguinha, que era o modelo do que uma pessoa deve ser, honesta e trabalhadora, fazia o que lhe cabia e ainda mais, a vadia da cigarra perdia o seu tempo e o tempo dos outros em cantorias, em vez de arranjar um emprego a sério. Acabou os seus dias a pedir esmola e a viver à custa de quem tanto fez, como a pobre formiguinha, que agora tinha de sustentar artistas. 

Quando é que pareceu razoável a alguém ensinar a uma criança que a arte é uma perda de tempo? Que quando muito deve ser um hobby! Quem foi o génio que achou por bem afirmar que trabalhar para sobreviver é a maior das virtudes da vida? Não há nenhuma outra mensagem neste conto que não esta! 
Porque é que desde cedo somos habituados a condenar e a ver como libertinagem a expressão artística em prol de uma vida de trabalho dito "honesto", "sério", "seguro", etc? Porque é que a arte há de ser sempre marginal e marginalizada? E porque é que os artistas não têm os mesmos direitos que outros profissionais? 

É por isto que nós artistas temos de receber ares de condescendência sempre que dizemos a nossa profissão. É por isto que tantos pais desencorajam os filhos a entrar para escolas e conservatórios de arte, mesmo sendo claramente essa a sua vocação, preferindo que vivam frustrados num trabalho seguro e aborrecido como eles próprios tiveram. É por isto que não oferecemos qualquer tipo de segurança aos artistas.

Em nenhum ponto do conto se falam em virtudes da cigarra! Cantava bem? Entretinha a formiga? Sobretudo: cantar não podia ser o trabalho dela? Não ganhava nada por issso? Parece-me justo que se a esteve a entreter a formiga durante todo o Verão, deva ter alguns dividendos disso. 
Talvez a mensagem correcta deste conto deva ser: sigam o exemplo da formiga que paga aos artistas e lhes reconhece o valor.

João Cruz

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