Entrevista aos Boogarins, Banda Brasileira

No dia 26 de Julho, os Boogarins, apadrinhados pelo grande Paulo Furtado – The Legendary Tigerman – , estiveram em concerto no Musicbox Lis...

No dia 26 de Julho, os Boogarins, apadrinhados pelo grande Paulo Furtado – The Legendary Tigerman – , estiveram em concerto no Musicbox Lisboa. Algumas horas antes do espectáculo, tive a oportunidade de estar um pouco à conversa com eles. São quatro elementos, super jovens, e com uma disposição impecável, sempre de sorriso nos lábio, não obstante o cansaço que se faziam sentir. No dia anterior tinham tocado no Milhões de Festa, em Barcelos, e em concertos anteriores, Paulo Furtado chegou mesmo a tocar com eles. A Reportagem e a FotoReportagem já foram publicadas e, agora, aqui fica a nossa conversa:

Fotografia por Sofia Teixeira
Não querendo massacrá-los muito, já era a última entrevista do dia, comecei pela pergunta da praxe sobre como é que se conheceram todos e formaram os Boogarins: «Eu (Dino) estudava com o Benke, no secundário, e depois começámos a tocar os dois. Um dia, o Benke mostra-me uma música que ele tinha gravado e começámos a gravar juntos. Juntámos Hans na bateria e vimos que as músicas que estávamos a tocar davam como banda. Tentámos tocar três sem baixista, não deu certo, e aí chamámos o Raphael, no começo do ano passado e aí virámos banda. Já os conhecíamos de outras bandas e então formou-se uma banda de bandas (risos).»


Então e porquê Boogarins? Benke explicou-nos: «O nome surgiu depois de já termos tudo gravado. Quando já estávamos ensaiando. Aí surgiram alguns nomes para a banda, e Bogarin é o nome de uma flor que eu achei num livro, que essa flor exalava amor puro. E é essa a vibe das canções – de coisas boas, de te levar para a frente, uma coisa para cima. Não é exactamente música alegre, mas música positiva e eu achei que caía bem. Hans sugeriu que acrescentássemos um “o”, ficando Boogarins e nós gostámos.»

Dino, por Sofia Teixeira
Em termos de influências, Benke e Dino contaram-nos que, pela altura da gravação das músicas, andavam a ouvir muito dos anos 60 eque agora não param de ouvir: «Clube da Esquina, Milton Nascimento e Lô Borges. Também há um cara do Rio de Janeiro, Léo Almeida, que grava tudo em casa, de um jeito muito sujo, mas que soa bem. Foi isso que animou a gente a gravar em casa e tirar o seu próprio som, conseguir fazer o seu com, em sua própria casa com pouca coisa. Acho que estas foram as nossas maiores influências.»


Sendo uma banda tão jovem, furar o mercado brasileiro não é tarefa fácil. «A gente não furou ainda o mercado brasileiro, porque é muito jovem esse espaço de mercado para bandas independentes. O que fazemos aqui pela Europa e Estados Unidos é diferente do que fazemos no Brasil. Enquanto que lá é um pouco como fazíamos antes de Boogarins, quase como laser e trabalho para nos sustentar. Agora desde Março que estamos em tournée tocamos todo o dia – numa Segunda-feira, numa Terça-feira. Mas não existe melhor idade para ter uma banda. Para você poder viajar e tocar em todo o lado.»


Benke, por Sofia Teixeira
Não tão diferente assim de Portugal, no sentido de que nem sempre é fácil as novas bandas entrarem nos circuitos musicais nacionais, o Brasil acaba por ter o lado oposto de Portugal – sendo um país tão grande, com um mercado de bandas independentes ainda pequeno, a tarefa de espalhar a sua música requer mais trabalho. Ainda assim, aquando do final da tournée pela Europa e Estados Unidos, Boogarins já tem datas marcadas para o Brasil: «Quando voltarmos, vamos fazer uma tournée mais abrangente no Brasil. Temos trabalhado bastante e já temos algum tipo de resposta no Brasil. Para furarmos o mercado é não pararmos de fazer. E também esperámos fazer algum nome para podermos mostrar a nossa música a mais gente. Nós gostamos de música de fora do Brasil, então pensámos que poderia haver gente fora do Brasil interessada em ouvir a nossa música, que se poderia interessar. »


A tournée começou nos Estados Unidos e vai acabar por lá. Perguntei-lhes se o facto de terem então feito esta tour nos dois continentes, tornará mais fácil o destaque pelo Brasil: «Quando você lança só um disco, o que vai ter seu de trabalho sendo falado, é só isso, aquele disco. Quando você faz um show, vai ter gente falando daquele show. E nós estamos há cinco meses fazendo um show, todo o dia, acabámos a tocar em festivais que nunca pensámos, a tocar com bandas que só víamos pelo Youtube. Nós não vamos voltar ao Brasil e começar a viver vida de músico rico, nem nada disso (risos). Não mudou nada, mas fica mais fácil você fazer coisas que já fazia antes e em mais quantidade.»


Também na sequência destes concertos todos, perguntei-lhes que o facto de cantar em português tem sido uma surpresa positiva ou se sentiam algum tipo de resistência à língua: «É bom cantarmos em português, é o que faz mais sentido, cantarmos na língua que falamos. A pessoa que vai atrás de um show de uma banda brasileira, vê aquilo na mesma. A pessoa vai lá, te conhece e fica a saber que é uma banda de rock psicadélico brasileira. Não estava à espera de ouvir rock americano. Faz parte da nossa identidade.»

Hans, por Sofia Teixeira
Pela primeira vez em Portugal, questionei-os sobre a sua experiência no Milhões de Festa: «Fora do Brasil foi o primeiro show que fizemos em que sabíamos que estávamos a ser entendidos, podendo conversar de um jeito mais confortável. Você chega sem barreira para fazer o que vai fazer. Já se reflecte de outro jeito, já não estávamos tão à vontade  no palco há muito tempo.»


A presença no Musicbox, deveu-me às Tiger Sessions do Paulo Furtado, que conheceu Boogarins numa ida sua ao Brasil. Eles contaram-nos como tudo aconteceu: «Ele foi tocar num festival, no nosso estado, eu (Dino) estava trabalhando como roadie, acabei conhecendo ele e mostrei-lhe a nossa música e ele gostou. Ele foi lá uma segunda vez, em Maio, e a gente tocou junto, foi muito bom. Aliás, ele é engraçado (risos)!» Benke completa: «Ele conheceu o Dino e a nossa música, falou de nós na internet, e quando fizemos a nossa pausa na tournée em Maio, ele voltou para o Brasil, fui buscá-lo ao hotel e ele a perguntar por nós e pelo Dino. Eu ainda não o conhecia, só o Dino conhecia, mas foi maravilhoso com ele tocando com a gente. E aí ele garantiu que tinha de fazer a gente tocar em Lisboa. O Paulo é um cara que já está há bastante tempo trabalhando em Portugal e a gente vê o respeito que as pessoas têm por ele. Ficámos muito satisfeitos com essa proposta de tocar cá.»

Raphael, por Sofia Teixeira
O regresso ao Brasil só se dá em Setembro, e por lá já os esperam dois meses de tournée. Também o próximo álbum já começou a ser trabalhado e o balanço feito não podia ser mais positivo: «Para mim (Benke), foi o ano da minha vida, 2014. Ainda vamos a meio, mas posso afirmar com toda a certeza. A gente nunca tinha ido para fora do Brasil e este ano foi uma loucura.»


Para terminarmos, pedi-lhes uma perspectiva do futuro, após um ano tão bom: «Vocês estão ambicionando alguma coisa neste momento? (risos)» Pergunta o Raphael! Realmente o cansaço deles era visível nas suas caras, mas o Benke acaba por dar a resposta final: «Para mim, o importante é continuarmos a tocar, a divertir, mas ainda mais é saber que os meninos estão gostando de continuar a fazer música do jeito que fazemos. De criar, principalmente.» 



Obrigada, malta, e até à próxima! Tudo de bom! 

0 comentários