Entrevista Bella Máfia, Banda Portuguesa

Os inícios de carreira nem sempre são fáceis, mas costuma-se dizer que tudo acontece no momento certo. Já com x anos de existência, os Bell...

Os inícios de carreira nem sempre são fáceis, mas costuma-se dizer que tudo acontece no momento certo. Já com x anos de existência, os Bella Máfia lançaram o seu primeiro disco apenas em 2013 e é em 2014 que o seu nome começa a ser cada vez mais reconhecido. Num género rockeiro interventivo, que não fica a dever nada a outros grandes nomes da nossa música portuguesa, os Bella Máfia dão-se agora a conhecer, já tendo actuado em várias FNACs e outros Locaia no norte do país. Com um álbum que é muito mais do que uma capa e um disco, admirei tanto a sua concepção e a sua completude com o artwork que não descansei enquanto não consegui entrevistá-los. Foi numa esplanada no parque expo que me sentei com o Tiago à conversa sobre esta banda rockeira, a lembrar Ornatos num tom muito próprio, e ainda recordei o belo sotaque nortenho! 

Regressemos à origem do projecto, em 2007: «Nós começámos depois de um outro projecto que eu, o Bruno e o João tínhamos, ter acabado. Até correu bem, o Bruno era o vocalista, era uma cena mais pesada e até abrimos a queima do Porto, tocámos com Blasted Mechanism, mas passado um tempo, em 2006, o baixista teve um problema e quando demos conta, já tínhamos acabado. Foi assim que surgiu Bella Mafia. Experimentámos fazer duas músicas em português, uma delas está no álbum – Palavras Perdidas. Arranjámos mais dois companheiros, o Valter e o Frederico e em Dezembro de 2006 começámos a ensaiar. Tocámos juntos pela primeira vez em Março de 2007, no Plano B.»

Como foi essa primeira experiência? «Foi muito bom. Estávamos muito mais despreocupados, começámos de forma muito descontraída. Na altura, o Bruno, que escreve muito bem, escreveu o Monstro, depois das Palavras Perdidas e achámos que o caminho era por aí. Em 2007 tocámos algumas vezes e no ano seguinte começámos a pensar em lançar o álbum que só começou a ser gravado em 2009.»

De 2009 a 2013 ainda vão três anos. Que se terá passado para o disco demorar tanto a sair? «Estes quatro anos foram uma montanha russa. Nós fomos iludidos por uma suposta companhia discográfica aqui de Lisboa. Assinámos contrato com eles e prometeram-nos muita coisa – a gravação do álbum, site, etc. No entanto, começámos a ver que não ia funcionar, nós tínhamos umas vinte faixas em que as escolhas que fizeram e as justificações que deram não nos agradou, entre outras coisas. Não ficámos contente com a equipa que nos apresentaram e como, ainda por cima, ficava mais caro vir gravar para Lisboa, mudámos de rumo. Foi nessa altura que o Rui Vilhena nos falou do Vitor Silva e que este poderia ter  algum interesse em gravar o nosso álbum. Ele naquela altura estava a gravar os doismileoito. As músicas levaram uma roupagem completamente diferente e aos pouquinhos fomos gravando o álbum. Ficou pronto um ano e meio depois, mas quando ouvimos aquilo, achámos que devíamos fazer uma coisa diferente. Entrámos numa onda Beatle, com dois vocalistas, e achámos que funcionaria melhor assim tanto em disco como ao vivo. Entretanto, surgiram algumas propostas, a música Retrato, por exemplo, não fazia parte do disco, acabou por integrá-lo porque era para fazer parte de uma telenovela, mas depois ficou, como se costuma dizer, em águas de bacalhau. (risos)»

Também a ida do Frederico para Angola e o facto de todos eles terem profissões muito diferentes e deslocados um dos outros, não ajudou a que o álbum estivesse pronto mais cedo. Foi importante esperar pelo artwork, arranjar os meios financeiros, mas finalmente já temos acesso ao disco: «Existe muito querer, mas sem dinheiro e sem padrinhos, é complicado. A única coisa que não fizemos neste projecto foi produzir e masterizar. Toda a imagem, site, contactos, etc., é tudo feito por nós. E apesar de conhecermos muita gente, não somos pessoas de pedir favores e grão a grão vamos conseguindo.»

Quanto ao nome, Bella Máfia, surgiu apenas quando se viram prontos a tocarem as suas músicas e não tinham nome para apresentar: «Foi o João que se lembrou dele e é um nome que dá para brincar e fazermos algumas analogias com ele. Para além de haver o filme, mesmo a duas vozes, Bella Máfia é como se estivesse uma de um lado e outra do outro. Acaba por ser também a dualidade entre algo que é belo, mas que pode fazer parte de algo mais obscuro. O Bruno costuma dizer, em vários concertos, que a música cá em Portugal é uma máfia. E nós que estivemos muitos anos a tocar em festivais e em concursos, vimos muita coisa a acontecer. Tanto fomos mal tratados como bem tratados demais. Essas coisas, reflectem essa tal máfia que também faz parte do mundo da música.»


O mercado português, na opinião do Tiago, não é um mercado fácil: «Está sobrelotado. Perdi a conta à quantidade de mails e telefonemas que tentámos estabelecer com sites, revistas, rádios, e as respostas contam-se pelos dedos de uma mão. É impressionante. As salas em que tocamos são de 50 a 60 pessoas, a nossa música só passa nas rádios universitárias ou mais pequenas, e se não tens a sorte de a tua música fazer parte de um anúncio de televisão ou até mesmo das telenovelas, por vezes torna-se complicado. Mas também temos um compromisso muito próprio que se virmos que não temos hipóteses nenhuma, deixamos aqui neste disco uma mensagem que é útil e actual. Ficamos bem com isso.»


Heróis, Vilões e outras Conspirações, é este o nome do álbum de estreia dos Bella Máfia, que fala muito por si só. A edição é lindíssima, o artwork está muito bem desenvolvido, mas é a mensagem que passa que é a cereja no topo do bolo: «Nós tivemos tempo mais do que suficiente para ouvir, ler e reler, sob todas as perspectivas. Quando escrevemos as letras, damos-lhes sempre um sentido que nem sempre é o primeiro que se absorve. Essencialmente, é um disco que sugere que cada um olhe para dentro de si. Em alguma situação já todos nós fomos heróis, de certeza absoluta que já fomos vilões (por muito que não queiramos admitir), e as conspirações que nos rodeiam podem ser as mais variadas, desde o amor às coisas mais simples, falamos de tudo. Podem haver letras que sejam conotadas como intervenção, que o são, mas até mesmo essa intervenção, essa acção/reacção, tem que vir de dentro. E uma pessoa só é capaz disso se se conhecer bem. O que queremos que as pessoas façam ao ouvirem este disco é que olhem primeiro para si mesmas, que se conheçam e que só depois olhem para os outros.»

A apresentação do disco era para ter sido n’A Casa Velha, uma casa já com 200 anos do Frederico que foi transformada num espaço de concertos, para mais tarde se tornar num restaurante e a apresentação ter sido adiada. «Fizemos a inauguração do espaço, com os Sensible Soccers e outros, mas depois o Fred recebeu uma proposta irrecusável e acabámos por mudar a apresentação do disco, em Maio de 2013, para o auditório da Quinta da Caverneira, na Maia.» Mais tarde tocaram em bares do Porto e agora em 2014 têm feito o roteiro das FNACs do norte.  «Nós sabemos que é ao vivo que nos conseguimos mostrar, mas a verdade é que estamos muito limitados em termos de disponibilidade. Eu estou em Lisboa a trabalhar, e isso dificulta tudo, mas em Setembro, quando voltar, espero poder dar outro ritmo ao processo.»

O álbum encontra-se à venda no site dos Bella Mafia e nas FNACs em que já actuaram. A recepção, para quem já os viu, tem sido muito boa e até versões em acústico de certas músicas já são pedidas, como me contou o Tiago. «Quando nós pensamos se valerá a pena ou não, lembramo-nos deste carinho que temos recebido e é claro que vale a pena. Também o Tradiio tem sido uma óptima forma de as pessoas nos ouvirem. Houve uma semana, em Junho, em que tivemos três músicas no top e só na página do facebook houve mais uns 300 likes. A verdade é que também escolhemos bem as músicas que lá pusemos e iremos colocar lá mais músicas até o álbum ficar completo por lá, achamos que vale a pena.»

Sair da zona de conforto do Porto é o próximo passo dos Bella Mafia, assim consigam conciliar as agendas pessoais de cada um. «No Porto já nos conhecem, mas nós queremos abrir portas no resto do país. De Lisboa, por exemplo, se calhar só quem nos ouve no Tradiio é que nos conhece. Não é que não queiramos tocar pelo país inteiro, mas tem sido realmente complicado conciliar as profissões todas que cada um tem. Quando estamos juntos conseguimos trabalhar de forma excelente, por isso quando conseguirmos voltar a ter esse tempo, de certeza que vamos conseguir.»

Quanto à abertura das rádios nacionais, esta não tem acontecido e perguntei ao Tiago a sua opinião sobre isto: «Acho que a percentagem das músicas portuguesas na rádio devia ser aproveitada de outra forma. Não vale de muito ter 20% 30% ou 50% se essa percentagem for ocupada pelos mesmo 3 ou 4 de forma repetitiva.» Também a relação entre os músicos se tem mostrado efémera e pouco solidária: «Quando estamos todos juntos é tudo muito fixe e são só elogios, mas depois passa e é como se não tivesse passado nada. Penso que falta essa solidariedade entre os músicos. Principalmente da parte dos músicos mais velhos.»

A nível de inspirações, «a maior é sem dúvida Clã!». As comparações com os  Ornatos Violeta são frequentes, mas tal é justificado como sendo «a única banda que é comum ao imaginário dos cinco». Ainda assim, cada um tem referências muito diferentes e isso acaba por trazer os complementos necessários para a identidade de Bella Máfia. 

Resumindo e concluindo, sobre o Heróis, Vilões e outras Conspirações, o que o Tiago tem a dizer é simples, despretensioso e sincero: «O que está nesse álbum somos nós. Sem artifícios nem batotas.»

Comprem o disco dos Bella Máfia, ouçam-no, leiam as letras, apreciem o artwork – tudo em conjunto. Vale a pena. Pelo menos aqui a Morrighan recomenda 

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