Entrevista a Carina Portugal, Escritora Portuguesa

Conheço a Carina há já uns anos e ela é das leitoras, que me lembre, mais antigas do blogue. Ao longo do tempo fui lendo pequenas coisas su...

Conheço a Carina há já uns anos e ela é das leitoras, que me lembre, mais antigas do blogue. Ao longo do tempo fui lendo pequenas coisas suas e, como gostei, fui dando por mim à espera que ela publicasse algo "maior" para entrevistá-la. O que é certo, e com esta entrevista vocês perceberão também isso, é que a Carina nunca deixou de publicar e, para mim, não fazia mais sentido esperar. Bem consciente do que a rodeia e do nosso panorama literário, podemos encontrar várias auto-publicações, participações em antologias e fanzines/webzines. Eu própria já a li e gostei. Uma pessoa humilde, de postura discreta, mas com um potencial enorme. Elogios à parte, ora vejam lá o que é que ela nos contou! (Já estive com a Carina mais que uma vez pessoalmente, e ela é mesmo tímida. Nem sequer quis falar para o gravador, então "obriguei-a" a escrever!)

Olá Carina! Como não gostas de falar para um gravador, escreve-nos lá um bocadinho sobre ti e de onde vem esta tua paixão pela literatura e pela escrita!
Desde pequenina que adoro fantasia, talvez por culpa de todos os desenhos animados que devorava. Se existir algum gene para isso, a culpa pode ser dele. Mas desde que me lembro que ia para a rua tentar construir “castelos” com caixas de cartão, lutar à espada com gravetos… acho que esta faceta contribuiu muito para o meu gosto pela literatura e pela escrita. Conhecer novos mundos é fantástico, construí-los é ainda mais interessante. É como dar vida e voz a uma parte do universo que está invisível. E gravadores são coisas do demo que devemos combater com estacas e água benta.


És do ramo da Biologia Molecular e Genética... Nunca pensaste em tirar um curso mais relacionado com as letras?
Pensei várias vezes, mas acabei sempre por pôr a ideia de lado. Por um lado porque gosto muito de Biologia e todos os seus meandros (é quase tão fantástica como a Fantasia), e depois porque acho que, como em muitas outras áreas, se realmente o quisermos, podemos aprender de tudo um pouco sem recorrer a um curso.


O teu percurso académico tem influenciado, de alguma maneira, o teu gosto declarado pelo fantástico? Quais é que são as tuas mais influências/referências?
Não posso “culpar” o meu percurso académico pelo meu gosto. A culpa foi maioritariamente das minhas amizades que me alimentaram este gosto que já andava comigo há muitos anos, dando-me a conhecer livros e autores que me encantaram. As primeiras influências vieram, sem dúvida, da J.K.Rowling e do Tolkien, foram os dois grandes pilares que alicerçaram a minha vontade de devorar livros. Tenho algures escondidas algumas fanfics de teor muito duvidoso. Actualmente estes dois pilares continuam presentes pelo seu significado e a sua qualidade, mas juntaram-se-lhes outros, dos quais realço a Juliet Marillier e a Robin Hobb, todos uma enorme fonte de inspiração. E de certeza que existem muitos que ainda não descobri.


Hoje em dia, embora menos, ainda existe bastante preconceito em relação ao fantástico. Sendo leitora e escrevendo também nesse género, que opinião é que tens disso?
Respeito quem tenha lido e não goste ou não se interesse pela Ficção Especulativa, também existem géneros que não me chamam de todo a atenção. No entanto, muitas vezes esse preconceito advém de pessoas que não sabem nem querem saber, que não se dão ao trabalho de conhecer o que há além do que pensam. Por vezes o mais grave é quando estas pessoas falam mal daquilo que não conhecem, tentando influenciar outros. E, infelizmente, neste mundo há demasiada gente influenciável.


Passando à vertente escrita, o que é que te dá mais prazer escrever?
Nada em geral, tudo em particular. Ou seja, há sempre partes que me dão mais prazer escrever do que outras. Gosto principalmente de explorar os sentimentos das personagens como resposta a uma dada acção, com ênfase nos sentimentos mais profundos. E confesso que adoro escrever as partes em que os vilões fazem a sua “aparição”. Se ouvires alguém dizer que eu adoro matar personagens é mentira. Tudo mentira.


Onde foste buscar o fascínio pela mitologia?
A mitologia é um alicerce do passado, sobre a qual se ergueram grandes impérios. É feita de magia, mas também de História, um ponte entre a realidade e o maravilhoso. Para mim, é a Mãe da Fantasia.


Apesar de ainda não seres muito conhecida (ainda!) o teu reportório escrito já começa a tomar uma dimensão considerável. Tem sido tua ambição saltar para uma grande editora ou tens-te dado bem com as auto-publicações?
De momento, e para o que tenho publicado, as auto-publicações digitais são o suficiente. Adoraria publicar numa grande editora, contudo não me considero ainda merecedora disso, acho que ainda tenho que trabalhar bastante e melhorar. E procrastinar menos…


Também apareces em várias antologias/webzines com pequenos contos. Preferes o conto à narrativa mais longa?
Na verdade prefiro a narrativa mais longa, porque dá mais espaço de exploração do mundo, das personagens, e de tudo o que é interessante e está por descobrir. Mas o conto também tem as suas vantagens, uma delas é as ideias não terem muito por onde se dispersar. Por norma, é mais rápido de escrever, sem olhar a pormenores que não sejam os essenciais. Enfim, vai directo ao assunto. E um conto bem escrito pode ser muito melhor que uma narrativa longa. Já li contos que me arrancaram lágrimas e narrativas longas que só me fizeram encolher os ombros.


Nos últimos tempos, tens também explorado a diversidade sexual. O que é que te motiva a fazê-lo?
Primeiro de tudo, simplesmente gosto muito da temática, não só aplicada à Literatura como ao Audiovisual. Para além disso, é algo que está presente no nosso mundo desde sempre, apesar de todo o preconceito que sempre existiu. A diversidade sexual não é assim tão abordada na Literatura quanto isso. Tem direito a mais visibilidade, a mais expressão.


Sonhas um dia vir a viver da escrita ou tens presente que terás sempre um emprego paralelo?
Por vezes imagino como seria viver da escrita, mas não são assim tantos os autores que o conseguem. Acho que o emprego paralelo vai estar sempre lá, pelo menos até ganhar o euromilhões! O que talvez seja ainda mais improvável do que viver da escrita.



Se os livros desaparecessem, se não pudesses sequer voltar a escrever, que efeito é que isso teria em ti?

Seria muito mau não poder voltar a escrever, contudo acho que conseguiria sobreviver a isso. Mas se os livros desaparecessem… bem, já ficaria com um trauma se me tirassem os meus livros, que são como meus filhos. Prefiro não imaginar um desaparecimento à escala universal.


E música, ouves? Que bandas é que mais gostas?
Confesso que oiço mais música do que leio ou escrevo. Provavelmente só não há música a tocar ao pé de mim quando estou a dormir. Neste preciso momento estou a ouvir Loreena Mckennitt – Nights from the Alhambra. A música é uma fonte de inspiração, de incentivo, e é também uma espécie de calmante natural. Quanto a bandas favoritas, temos Nightwish, Raphsody of Fire, Two Steps From Hell… mas adoro ouvir bandas sonoras e música clássica (a minha noveleta “Coração de Corda” foi toda ela escrita ao som do Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky).


Que outros hobbies é que tens para além da leitura?
Jogar computador, ver anime, ler manga e webcomics (sim, eu sei que é leitura, mas há quem se esqueça disso), passear por espaços bem verdinhos e com muita sombra (tenho um gene vampírico que me faz fugir do sol), jogar RPG… e comer doces, mas isso já é mais uma necessidade intrínseca.


Que locais é que gostavas de visitar, até numa onda de inspiração artística, que ainda não visitaste?
Irlanda, Índia, Egipto, Itália, Nárnia, Rivendell, Sevenwaters… principalmente estas últimas, na verdade.


O que é que comeste hoje ao pequeno-almoço?
Um batido com leite, bolachas Maria e 3 yocos… pronto, é neste momento que perco os leitores todos!

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