Entrevista a João Batista, Editor Português [Livros de Ontem]

Conheci a Livros de Ontem há algum tempo, muito por causa do lançamento d'O Relógio de Samuel Pimenta. Desde então, tenho acompanhado c...

Conheci a Livros de Ontem há algum tempo, muito por causa do lançamento d'O Relógio de Samuel Pimenta. Desde então, tenho acompanhado com alguma regularidade as actividades desta jovem editora e estive, inclusive, recentemente na apresentação do segundo livro do Samuel, o Geo Metria. Suscitou-me a curiosidade em relação ao método da publicação - através de crowdfunding. Mais, fiquei com vontade de explorar todo este conceito muito por ter noção que, hoje em dia, avançar com projectos inovadores não é fácil - seja por existir um grau de insegurança em relação ao mercado, seja por falta de apoios. Após essa apresentação em que estive presente, eu e o João tivemos uma pequena reunião em que discutimos várias coisas, entre elas o estado do mercado livreiro e editorial, o papel dos blogues que falam de livros, entre outros. O resultado foi um convite, do João para mim, em amadrinhar uma obra enquanto Blogue Morrighan. Já foi desvendado num dos Diários de Bordo e, como tal, chegou a altura de expor todas estas ideias pela voz do próprio João - ou, neste caso, pela escrita!


1. João, fala-nos um pouco sobre ti e sobre o que te levou a criar uma editora.
Acima de tudo sou escritor. Gosto de escrever e é na categoria de escritor que eu me sinto melhor. No entanto, sou uma pessoa que gosta de inovar, de empreender. Estou sempre à procura do que está errado ou menos bem nas coisas que me rodeiam e sou obcecado pela tentativa de as melhorar. Juntando essas duas características pessoais, que penso serem as mais inatas e profundas, surgiu a oportunidade de criar uma editora. Para além disso, posso também identificar as questões situacionais: o estado do mercado editorial e livreiro, a inércia completa das editoras existentes na altura, a minha experiência de contacto com editoras e o meu absoluto fascínio por livros. Tudo isto, em conjunto, fez-me criar a Livros de Ontem e abandonar por completo a carreira que vinha então a construir na área das Relações Internacionais.


2. A Livros de Ontem é uma editora que funciona de forma diferente das restantes e que, no vosso site, foi considerada como a “claridade na escuridão que então dominava o panorama editorial português.” A que escuridão é que se referem e como é que pretendem bani-la?
A experiência e o know-how que reuni antes de criar a Livros de Ontem foram consolidados enquanto escritor e enquanto livreiro. Através dessas duas experiências profissionais consegui formar um juízo sobre o mercado editorial português que, com os devidos ajustes, ainda me orienta nos dias de hoje enquanto director da editora. É um lugar comum dizer que o mundo está em constante mudança e que as novas tecnologias estão a transformar a forma de viver e de fazer negócio, são frases feitas e banais, mas parece os responsáveis das empresas do mercado editorial ainda não as ouviram ou não as interiorizaram. O mercado livreiro, enquanto conjunto, está caduco, estagnado, mergulhado nessa escuridão a que aludimos no nosso site. A inovação é praticamente inexistente, a aposta nos best-sellers internacionais é recorrente, a qualidade das publicações e de toda a cadeia de valor é incrivelmente baixa, e andamos todos a tentar furar um esquema que se tornou pesado demais para a dinâmica que o mercado português tem. E não estou a dizer nada de novo. É frequente ouvir-se queixas de todas as partes do sector e ninguém se apresenta para oferecer as soluções. Os autores andam demasiado preocupados em tentar agarrar uma editora que vá lançando os seus trabalhos, seja a que custo for. Os livreiros ainda actuam no mercado subjugados às grandes editoras, dificultando a entrada de novas editoras e autores. As editoras vivem na ganância do lucro fácil e imediato, esquecendo qualquer tipo de estratégia sustentada e de futuro. Anda cada um a puxar para seu lado e é isso que a Livros de Ontem quer travar. Entramos no mercado com a missão de trazer mais transparência, mais inovação, mais qualidade e mais oportunidades para aqueles que querem trabalhar connosco.


3. As publicações são feitas através de Crowdpublishing. Porquê este método? 
Quando iniciámos actividade, recorremos ao crowdfunding porque nos pareceu um método interessante para lançar uma nova editora. Na altura este modelo estava ainda a dar os primeiros passos e a Livros de Ontem deve ter sido um dos primeiros projectos a recorrer a este método de financiamento em Portugal. A coisa correu tão bem que reestruturámos a nossa forma de actuar e introduzimos em Portugal o Crowdpublishing. Esta opção deveu-se à percepção que tivemos de que este modelo adequava-se na perfeição aos valores que defendemos. Queremos mais transparência, mais inovação, mais envolvimento dos leitores na publicação livreira. O Crowdpublishing permite que o leitor se envolva com o livro de uma forma nunca antes vista, chegando ao ponto de acompanhar todo o processo de publicação, decidir quais os livros que merecem ser publicados e receber recompensas inéditas como a inserção do seu nome nos agradecimentos impressos dento do livro. Estamos a falar de níveis de interacção altíssimos que são a melhor forma de lançar no mercado novos autores que ainda não têm bases de leitores formadas. Por outro lado, para o autor é a primeira vez que dá a cara pelos seus livros, que aparece em público defendendo a sua obra e as suas ideias. Para além de fazer crescer o autor, permite-nos despistar quais os escritores determinados a fazer carreira e empenhados na divulgação dos seus projectos. O Crowdpublishing é um método onde todos ganham.


4. Há quem o confunda com o facto de se ter que pagar para publicar. Queres esclarecer os leitores em relação a essa diferença tão fundamental?
Esse é um dos nossos principais desafios. Estamos a entrar num mercado que está sobrelotado de esquemas mais ou menos duvidosos e de livros de má qualidade, a todos os níveis. É complicado afirmar uma nova forma de publicar que é tão inovadora que vem romper com muitas ideias formadas e muitos preconceitos. A principal barreira é levar as pessoas a ver o Crowdpublishing como um método para dar mais poder aos leitores. Queremos acabar com a ideia de que as editoras são organismos fechados que decidem sozinhos o que as pessoas lêem. Queremos também acabar com a ideia de que os livros são uma mercadoria para comprar em supermercados. O Crowdpublishing é uma evolução natural da indústria editorial por combinar o melhor de dois mundos: a democraticidade da auto-publicação e a qualidade e o rigor de uma chancela editorial. O Crowdpublishing não é solidariedade nem donativos, trata-se de uma pré-compra de um livro que garante ao leitor vantagens como um desconto no preço de capa e a inclusão do seu nome na página de agradecimentos do livro. Quanto a estratégias de pagar para publicar, somos fundamentalmente contra e achamos que esse tipo de abordagens prejudicam ainda mais um sector moribundo.
Acreditamos que a confiança na Livros de Ontem e no nosso método de publicar é algo que se constrói e que requer o seu tempo para solidificar. Trabalhamos todos os dias nesse sentido e desenvolvemos programas específicos para essa questão, tais como a doação de uma parte dos nossos lucros de crowdfunding a outros projectos.


5. Quais os princípios desta jovem editora? 
A Livros de Ontem rege-se por princípios de qualidade, rigor, inovação e transparência. Acima de tudo estamos a desenvolver um trabalho que mais ninguém faz: pegar em novos autores de língua portuguesa e publicar os seus trabalhos em livros com uma qualidade muita alta para os valorizar. As editoras que ainda vão publicando trabalhos de autores portugueses, frequentemente fazem-no seguindo padrões de qualidade duvidosa, seja nos materiais de impressão, seja no design do livro ou na revisão do texto. Adicionalmente, apostamos na exclusividade. Fazemos pequenas tiragens de livros numerados e assinados. Quando um leitor compra um livro com a nossa chancela, tem a certeza que está a comprar um objecto de qualidade e um livro de grande valor cultural.


6. Que tipo de obras pretendem publicar?
A Livros de Ontem, desde que se apresentou ao mercado, afirma-se por não ter formatos pré-definidos, colecções, géneros ou qualquer outro tipo de limitações à criatividade. Publicamos qualquer tipo de livro desde que tenha qualidade e que o seu autor seja um novo autor de língua portuguesa e por novo autor entendemos um autor que tenha poucas ou nenhuma obras publicadas, ou seja, queremos trabalhar os autores que não são conhecidos no mercado e que não têm a facilidade de chegar a uma grande editora. É aí que está o desafio, não nos best-sellers internacionais que já provaram lá fora o seu sucesso. Pegamos num autor desconhecido e crescemos com ele, é esta lógica que nos interessa. 


7. A recepção dos leitores a este método inovador tem sido positiva?
A recepção dos leitores não podia ser melhor. Por outras palavras, a recepção dos leitores tem sido tão boa quanto a nossa capacidade de chegar até eles. É isto que falta, a capacidade financeira para uma promoção em larga escala. Assim sendo, temos crescido devagar e de forma sustentada. No primeiro ano de actividade publicámos 3 livros. No segundo ano já vamos com 5 lançados, 1 em pré-venda, 3 em fase de espera para entrarem na plataforma de crowdfunding e mais alguns em  fase de trabalho. Em todos estes livros podemos encontrar O Relógio que esgotou e já vai na segunda edição, o Cancro com Humor que também esgotou e sofreu uma reimpressão e o Chegaste Primeiro vai esgotar muito em breve. O balanço é muito positivo e é inspirador para nós ver o quanto conseguimos fazer com tão pouco. É também fantástico perceber que livro após livro, alguns leitores vão fazendo a pré-compra e repetindo a experiência, o que nos deixa radiantes e confiantes de que o nosso modelo é bom e veio para ficar.


8. Outro aspecto em que a Livros de Ontem se destaca é o facto de dar muito valor aos blogues literários. Recentemente, também a categoria Guest Bloguer foi criada. Explica-nos este conceito.
Confesso que quando entrámos no mercado editorial esperava alguma condescendência pela parte dos media tradicionais. Trata-se de livros, cultura, novos autores, uma matéria que é extremamente apetecível de ser trabalhada. As nossas expectativas não podiam estar mais erradas. Deparámo-nos com uma imprensa que pura e simplesmente ignora a literatura e, infelizmente, o problema não é só nosso. Basta folhear um qualquer jornal ou revista, ver um telejornal ou ouvir rádio. É raríssima qualquer menção a um livro, a um escritor ou a uma editora. Para mim isto é algo completamente inaceitável e que coloca sérios entrave ao desenvolvimento do sector. Tive então de procurar alternativas e dei de caras com os blogues literários. Fico absolutamente fascinado como alguém consegue fazer tanto pelos livros com tão poucos ou nenhuns recursos. São passatempos, entrevistas, notícias, divulgações, tudo. Os blogues literários assumiram, literalmente, o papel dos media tradicionais na divulgação editorial. Como marketeer que sou identifiquei logo os principais problemas de tudo isto: alguma falta de qualidade que inegavelmente existe em alguns blogues, o que se deve ao seu amadorismo, e a insustentabilidade do modelo, não conheço nenhum blogue literário que não seja apenas um hobbie devido à falta de capacidade de monetização. A Livros de Ontem, devido à sua gratidão para com os blogues e devido também à compreensão da sua importância neste meio, decidiu procurar programas para ajudar os bloguers a monetizar os blogues para assim contribuir para a sua profissionalização. O programa Guest Bloguer nasceu disto mesmo. Trata-se de uma série de livros que serão lançados pela editora em conjunto com os seus blogues parceiros em que o bloguer convidado desempenhará o papel de editor, escolhendo o autor a publicar e seleccionando o seu original. A editora fará todo o trabalho inerente como a revisão, paginação, capa, divulgação, venda, etc., e os direitos de autor são pagos ao bloguer e não ao autor que é também convidado a ajudar este canal que tanto faz pelas suas obras e carreiras. Teremos também outras iniciativas e programas que iremos aplicar num futuro próximo, mas temos a consciência de que sozinhos não conseguiremos mudar o paradigma do sector.


9. O Morrighan, precisamente, vai lançar, brevemente, uma colectânea enquanto guest bloguer. Que expectativas é que tens para essa colaboração?
O livro que será lançado em colaboração com o blogue Morrighan será o projecto piloto, o primeiro livro desta série. A Sofia, editora do blogue, sugeriu que fosse criada uma colectânea que juntasse os novos autores e os autores já mais conhecidos que, de certa forma, estão ligados ao Morrighan. Surgiu ainda a ideia de abrir o concurso para um ilustrador e de ligar tudo isto ao aniversário do blogue. Achámos a ideia fantástica e temos grandes expectativas. Esperamos ter trabalhos de grande qualidade e que os grandes nomes da literatura portuguesa actual consigam alavancar a carreira dos 5 novos autores que irão vencer o concurso. Não podíamos estar mais contentes com a ideia.


10. Queres fazer disto regra ou algo esporádico?
A série Guest Bloguer será para continuar e o desafio será lançado a mais blogues parceiros da editora. Queremos também expandir o conceito para outros blogues e estamos abertos a ideias neste sentido. Quanto à ligação da Livros de Ontem com os blogues literários, essa é para manter e para reforçar. Estamos a trabalhar em planos e em formas de aproximar os bloguers e de criar condições para que os seus blogues sejam uma fonte de rendimento.


11. Apelando a um lado mais pessoal, com que olhos vês o mercado editorial e livreiro em Portugal?
Com esperança. Tenho consciência de que está praticamente tudo errado com o mercado e estou na linha da frente para o fazer mudar. Tenho escrito crónicas sobre isto e continuarei a desenvolver pensamento e acções para alterar o estado de coisas. As editoras entraram numa corrida insana pelas fusões e aquisições, esquecendo que o mais importante não é a dimensão da sua sede, mas sim a sua capacidade de gerar oportunidades para os outros intervenientes do mercado. Os livreiros parecem adormecidos, subjugados pela maneira antiga de vender livros. Fecham as portas aos novos autores e às novas editoras, bajulam os best-sellers internacionais e não têm qualquer critério de qualidade para os produtos que vendem. Os leitores são cada vez menos pró-activos, não procuram o diferente e premeiam as lógicas de mercado prejudiciais à cultura. Os escritores encontram-se no meio de tudo isto, demasiado focados em abrir caminho pelas vias tradicionais e de olhos fechados para as novas lógicas do século XXI. É preciso uma grande reviravolta no sector. São precisas empresas de qualidade e referência. É preciso que os autores venham para a rua, que os editores se apresentem e saiam dos seus escritórios e que os leitores procurem as novidades e ajudem a florescer quem de facto faz alguma coisa pela cultura do país.


12. Que mudanças é que achas que são necessárias fazer para estes evoluam? 
A mudança é, essencialmente, na mentalidade de todos os agentes envolvidos. É preciso que as gerações antigas abram espaço para as novas e que não façam precisamente o contrário. É urgente que os escritores instalados percebam que a entrada de novos players para o mercado é boa para a renovação cultural e para a abertura de novas possibilidades. Ninguém ganha com este sector moribundo. É também importante que as editoras percebam que o livro é, em primeiro, um bem cultural e não um produto de supermercado. Há uma razão lógica para que o livro seja vendido com um IVA de 6%, com um carácter de excepção, e essa razão é a componente cultural e artística que o mesmo deve ter. Em Portugal lê-se muito, mas deve-se ler e publicar melhor e com mais qualidade.


13. Para terminar, que mensagem queres deixar aos leitores do Morrighan?
Que façam jus ao título de leitores e não deixem de ler. Blogues como o Morrighan são fundamentais para que as editoras e os autores consigam divulgar as suas obras. O Morrighan tem feito um papel notável nesta área e está em constante evolução. Gostaria que os leitores do blogue procurassem o que de melhor se faz no país a nível de literatura, e há coisas mesmo muito boas, e que não caíssem na tentação de aceitar cegamente o best-seller internacional. 

Comunicado - Estatuto Guest Bloguer & Blogue Morrighan - Esclarecimentos goo.gl/NjIiXS

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