Opinião: Mendel dos Livros, de Stefan Zweig

Mendel dos Livros Stegan Zweig Editora : Assírio & Alvim Sinopse : Esta novela foi escrita em 1929 e publicada, em folhetim...

Mendel dos Livros
Stegan Zweig

Editora: Assírio & Alvim

Sinopse: Esta novela foi escrita em 1929 e publicada, em folhetim, no jornal diário vienense Neue Freie Presse, de que Zweig era colaborador permanente. Narra-se aqui a história de um judeu ortodoxo galiciano, estabelecido há anos em Viena como alfarrabista/vendedor de livros ambulante, e cujo único interesse eram os livros que comprava e vendia a universitários e académicos de Viena. Esta história constitui, espantosamente, a antecipação em mais de uma década do definhamento do próprio autor: a metáfora de um escritor, «cidadão europeu», pacifista empenhado, entregue de corpo e alma, como o próprio Mendel o era, aos seus queridos livros, à criação de uma obra literária europeia com características universais, mas que, vítima da barbárie nacional-socialista, perde tudo, isto é o seu país, a sua língua, os seus leitores da língua alemã para quem escrevia e o próprio sentido da vida.


Opinião: Existem aqueles livros com centenas de páginas que, no fim, não nos dizem nada e depois existem livros, pequeninos, por vezes até apenas contos ou novelas, como é o caso de Mendel dos Livros, em que, ao terminar a última página, a perturbação e imensidão de emoções é tão expressiva que ficamos igualmente sem saber o que dizer/escrever. Peguei nesta obra principalmente por causa da história de vida do autor e de como a terminou, devido a uma depressão prolongada, estabelecendo assim algum paralelismo com a própria história de Mendel. 

É assombrosa a forma como muitas vezes a obra de um autor se vem a mostrar, mais tarde, um reflexo da sua própria vida. Essa previdência que é declarada na sinopse do livro, dá-lhe toda uma nova carga à medida que desbravamos cada palavra, cada linha, cada página. Mendel dos Livros é uma novela marcante, passada em tempo de guerra onde um cidadão russo, habitante de Viena há anos e vendedor ambulante, que apenas se preocupava com os seus livros, com uma extraordinária capacidade de decorar todo os pormenores de cada obra - desde título, edição, capa, cor, etc. -, é enviado para um campo de concentração por enviar cartas para Inglaterra e França (países inimigos) a reclamar a falta de recepção de algumas publicações cuja assinatura já tinha pago. Alheio à guerra e a todas as intrigas internacionais, acaba por ter um destino muito triste, cujo desenvolvimento mexeu bastante comigo. 

A escrita de Zweig é de uma intensidade única, não só nas descrições, mas também na forma como canaliza os sentimentos dos personagens até ao leitor. A maior constatação que tirei quando fechei o livro foi esta - nós vivemos numa era de absurda liberdade de expressão em que nem temos noção de como seria viver em tempos como estes que o autor/Mendel viveu. E o mais "dramático" ainda, é que em comparação, nem sequer a sabemos usar como deve ser, aplicando essa liberdade muitas vezes para objectivos fúteis que em nada contribuem para o enriquecimento da nossa cultura e do nosso património.

Os meus parabéns à apresentação de Álvaro Gonçalves, que nos ilumina um pouco antes de iniciarmos a leitura, e também à cronologia apresentada que nos permite ter um maior vislumbre da vida  de Stefan Zweig. Uma vida que fisicamente acabou de forma trágica, com o seu suicídio, mas cujo património literário continua a enriquecer o nosso conhecimento.

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