Opinião: Não Digas Nada, de Mary Kubica

Não Digas Nada Mary Kubica Editora : TOPSELLER Sinopse : «Tenho andado a segui-la nos últimos dias. Sei onde faz as compras de ...

Não Digas Nada
Mary Kubica

Editora: TOPSELLER

Sinopse: «Tenho andado a segui-la nos últimos dias. Sei onde faz as compras de supermercado, a que lavandaria vai, onde trabalha. Nunca falei com ela. Não lhe reconheceria o tom de voz. Não sei a cor dos olhos dela ou como eles ficam quando está assustada. Mas vou saber.»
Filha de um juiz de sucesso e de uma figura do jet set reprimida, Mia Dennett sempre lutou contra a vida privilegiada dos pais, e tem um trabalho simples como professora de artes visuais numa escola secundária. Certa noite, Mia decide, inadvertidamente, sair com um estranho que acabou de conhecer num bar. À primeira vista, Colin Thatcher parece ser um homem modesto e inofensivo. Mas acompanhá-lo acabará por se tornar o pior erro da vida de Mia.


Opinião: Não Digas Nada é daqueles livros que no fim nos deixam condizentes com o título. Mal terminei a leitura, não sabia bem sequer o que pensar, quanto mais dizer e escrever. Não que me tenha espantado de sobremaneira, mas por perceber o quão real esta estória poderia ser, se é que nunca aconteceu algo semelhante. Sendo a minha estreia na escrita de Mary Kubica, fiquei contente com a atmosfera que criou, com a forma como me conseguiu prender a atenção desde início e ainda com aquele twist final que consegue ser perturbador.

A obra está estruturada de forma perspicaz, sedutora para o leitor, em que vamos alternando entre pequenos capítulos passados em espaços temporais diferentes - o Antes e o Depois de as vidas de Colin Thatcher e Mia Dennett se terem cruzado. A narrativa varia entre as perspectivas de Colin, a mãe de Mia, Eve, e o inspector, Gabe. Dados os vários protagonistas e o ritmo de cada capítulo, rápido e fluido, a certa altura tornou-se impossível não querer avançar mais um pouco no enredo. Entre os vislumbres do Depois e a procura de justificações no Antes, e vice-versa, este foi um thriller que facilmente se tornou intenso, questionável, cheio de segredos e de verdades por revelar.

Na sua simplicidade, Não Digas Nada consegue abordar temas como a sociedade magnata, a perda de identidade por comodismo, a alienação por conforto e todo um pesar de consciência quando se torna real que não se pode voltar atrás nem emendar nenhum dos erros do passado. Mary Kubica foi de uma inteligência assaz admirável ao conduzir o leitor por um caminho que mais tarde se revelaria enganador. Confesso que ao longo da leitura fui pressentido que algo de muito errado se passava, não achei normal não sentir aquela empatia imensa por Mia como normalmente sentimos pelas vítimas de sequestro. Ainda agora, terminada a leitura, as emoções são tão díspares que acho que dificilmente alguma vez tomarei alguma decisão sobre ela.

Coline Thatcher, esse sim, para mim, o grande protagonista desta trama. Adorei a forma como a autora o foi construindo, expondo perante si mesmo e perante o leitor, mostrando que muitas vezes as circunstâncias da vida são mais fortes que as tentativas de fazer o que é certo. Ainda assim, ele tenta, ele tenta e nunca imaginará no que verdadeiramente se meteu e foi com essa revolta interior que terminei esta leitura -com a sensação de que ele merecia mais, melhor. Foi uma leitura arrebatadora, de certa forma, pelo seu realismo, por revelar imenso sobre o ser humano e as suas motivações - tanto boas como más. Recomendo. 

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