[Crónica Filipe Faria] Palavrões

Palavrões Filipe Faria “Puta humana, vais morrer de forma hedionda depois do que eu te vou fazer.” Com esta simples frase dava...

Palavrões


“Puta humana, vais morrer de forma hedionda depois do que eu te vou fazer.”

Com esta simples frase dava-se início a uma persistente contenda entre leitor e autor e, ao fim de vários anos de trocas de impressões, as duas partes continuam bastante distantes de um consenso. Essas partes são constituídas pela minha pessoa e por um determinado segmento dos meus leitores e conhecidos, segundo os quais a linguagem mais forte como a acima deve ser evitada. Não pretendo desta forma acusar ninguém — muito menos os meus leitores — de puritanismo, nem de relativizar a linguagem mais viril com o já gasto sofisma de ir à raiz das palavras para mostrar como elas deviam ser inócuas. Tentarei, isso sim, explorar o porquê dos pruridos linguísticos, mais concretamente os literários, que, cingindo-nos ao panorama europeu, se verificam sobremodo em Portugal.

De um dos lados da questão temos a asserção de que a essência dos palavrões — ou profanidades, para dar um ar mais edificante à coisa — é, em última análise, uma profanação daquilo que é caro, íntimo ou precioso às pessoas. Seja esse “daquilo” a sua vida sexual, as suas necessidades biológicas ou a sua fé, os palavrões servem como uma via rápida para atordoar ou de modo geral afectar a pessoa, neste caso, o leitor, em quem qualquer autor que se preze deseja deixar uma impressão. Do outro, temos a já muito batida tecla do “realismo”, o facto de que, no contexto apropriado (e às vezes nem isso), a maior parte das pessoas fala como carroceiros durante o seu dia-a-dia, e poucos serão aqueles que não soltaram uma catártica bojarda verbal ao magoarem-se ou ao deitarem para fora algo que há muito estivessem a reprimir. Ou seja, se um autor ambiciona ter diálogos realistas, certamente que não poderá ter pejo em fazer bom uso do mais baixo vernáculo, certo?

Não necessariamente. Se observarmos as pessoas com atenção e tomarmos nota de todas as muletas verbais que elas usam durante conversas, apercebemo-nos de uma série de idiossincrasias que são comuns à maior parte dos falantes de qualquer língua: temos huns e hãs a preencherem espaços enquanto se pensa no que se vai dizer, temos expletivas como “tipo” ou “não é?”, temos tiques como “tázap'ceber” em contracanto da oração principal,  o abuso de conjunções, o engolir de fonemas para encurtar palavras, repetição constante das mesmas, e assim por diante. E, no entanto, muito raramente isso transparece em diálogos escritos. Porquê? Porque, salvo excepções e contextos específicos, seria irritante para o leitor estar constantemente a ler transposta no papel a oralidade em todo o seu desconexo e arrítmico esplendor, algo ao qual nem mesmo os mais dotados oradores escapam. Assim, e embora não deixe de ter lugar na literatura, esse é um recurso que deve ser usado com parcimónia, tal como os palavrões o deviam ser... mas, ainda assim, há quem veja a profanidade como algo de tosco, grotesco e o apanágio de indolência artística, o cunho de uma mente simples e que deve ser evitado por norma em qualquer forma de arte. E essa verdade, embora de certa forma universal, parece ter particular incidência em Portugal, e eu nunca percebi bem porquê. Um legado da ditadura e da censura salazarista, apregoam alguns, mas essa justificação nunca me convenceu, e passo a explicar porquê.

Anos atrás, por ocasião do Prémio Branquinho da Fonseca, partilhei um almoço com escritores e figuras do panorama literário português. No meio de uma conversa na qual eu, como autor neófito e fedelho imberbe, me senti extremamente deslocado e me limitei a debicar o meu prato (lombo de porco assado com puré de maçã, se a memória não me falha), abordou-se o assunto de linguagem mais forte em livros. Não me recordo de ter presenciado um consenso, mas lembro-me muito bem de um episódio que uma famosa autora de livros infanto-juvenis contou, no qual um agente, revisor ou editor espanhol lhe terá requisitado permissão para, por uma questão de “autenticidade”, incluir uns palavrões nas traduções castelhanas da sua popular série. Na altura, a minha imaginação pueril limitou-se a montar um cenário no qual as personagens da dita popular série estavam enroladas umas com as outras, sussurrando “oh, sí cariño”, e julgo que terei rido um pouco e baixado a cabeça com ar envergonhado ao perceber que estava a ser observado, mas o que retive mesmo foi a noção de que quem de direito em Espanha havia pedido permissão para pôr palavrões numa obra infanto-juvenil. Por isso não, o legado da ditadura e da censura não cola, porque, se nuestros hermanos são como são mesmo após anos de franquismo, duvido muito de que seja o espírito de Salazar o provedor dos bons costumes no nosso país.

Em que ficamos, então? Por que motivo serão os palavrões mais desdenhados em Português do que noutros idiomas, pelo menos no que à arte diz respeito? Basta ver a legendagem de um qualquer filme ou série com linguagem mais forte e um círculo vermelho bem explícito no canto superior direito, e torna-se por demais evidente o uso de paninhos quentes sobre as palavras, com “motherfucker” ou “fuck you” a darem lugar a “filho da mãe”, “vai-te lixar” e quejandos. O mesmo se verificou em traduções que supervisionei no passado, todas elas direccionadas a um público mais abrangente e com uma linguagem contida, mas cujos momentos mais dramáticos eram ainda assim pontuados pelo ocasional epíteto mais viril. Grande foi a discussão, e o único consenso que se arranjou foi o de cortar as palavras de forma a que elas deixassem bem claro o que se queria dizer, sem contudo serem ditas “à boca cheia”. Mas porquê, perguntei então e pergunto agora?

Hoje, sem ter a presunção de me achar detentor de respostas para uma questão mais velha que eu, julgo que a explicação poderá passar por um conceito que o neuropsicólogo Danko Nikolić definiu como ideiastesia — a associação de determinados sons numa língua às ideias e percepções. Ora aqui, e sem querer demorar-me demasiado em análises fonéticas, é importante chamar à atenção a classificação de determinado tipo de consoantes: fricativa, no caso de sons como /f/, e oclusiva, no caso de /c/ ou /p/. Na primeira, os sons são produzidos através de fricção, e na segunda através do bloquear da passagem de ar. Fricção e ar bloqueado... duas coisas inerentemente desagradáveis, ou pelo menos com associações menos positivas, certo? Afinal, por que motivo serão línguas como o Alemão estereotipicamente acusadas de serem ásperas, duras ou agressivas? Motivos culturais e históricos à parte, isso deve-se sobretudo à riqueza consonântica desses idiomas, à fricção e ao bloquear da passagem de ar que recheiam a sua construção frásica, dois fenómenos que, para um não-falante da língua, podem fazer um simples “não, obrigado” soar a ameaça de morte.

Fenómenos esses que, voltando ao Português, tornam “cu” e “peida” mais feio que “rabo” do ponto de vista fonoestético, por exemplo. Que tornam um “filho da puta” menos aceitável que um “son of a bitch” (embora este último também tenha uma consoante oclusiva em /b/, o /p/ é uma chamada consoante fortis, que é pronunciada com maior intensidade). E que, se passarmos em revista os palavrões que conhecemos, apenas acentuam o vivo contraste entre a linguagem corrente do nosso idioma comummente tido como “suave” e “melódico” e o seu calão abrutalhado, pródigo em oclusivas e fricativas. Curiosamente, o dito “feio” Alemão até tem um calão que, embora sem dúvida colorido e não sem as suas fricativas, é relativamente brando no que à rigidez e violência dos sons diz respeito, sobretudo quando fala dos incontornáveis órgãos sexuais. Já no Castelhano, os dois registos são praticamente indistinguíveis um do outro, como os treinadores espanhóis que passaram por clubes portugueses o comprovaram em cada conferência de imprensa sua. Joder!

Ou seja, nós, portugueses, somos vítimas da nossa própria língua, que os falantes não-nativos acham suave e melódica e que costumam eleger como uma das mais belas línguas do mundo, o que nos agrada e em consequência do qual nos sentimos mal quando, a um nível quase subconsciente, nos damos conta do acérrimo contraste do bom Português com a sua vertente mais soez. No panorama fonético, somos a rapariga toda produzida que morreria se fosse apanhada a soltar uma bufa, embora as dê como todas as outras pessoas. Somos o enólogo refinado que, tendo impressionado o seu par com o seu bom gosto em vinhos, tem pejo em confessar que também gosta de uma boa jola com os amigos. E, por isso, temos vergonha de usar ou de ver serem usadas palavras feias na língua de Camões, sobretudo quando elas ficam registadas para a posteridade através da arte. Do que se conclui que os portugueses têm a relação que têm com o calão, não devido à pudicícia que é costume atribuir-lhes, mas sim devido a um sentimento patriótico. O que é sempre de louvar.

Mas, foda-se, deixem as minhas personagens praguejarem em paz!

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