Entrevista aos Nome Comum, Banda Portuguesa

Nome Comum, banda portuguesa fundada pelos irmãos Palmeirim, foi uma das recentes actuações no MAGAFEST, organizado pela Inês Magalhães. Ta...

Nome Comum, banda portuguesa fundada pelos irmãos Palmeirim, foi uma das recentes actuações no MAGAFEST, organizado pela Inês Magalhães. Também eles foram protagonistas numa das Maga Sessions e nos últimos meses têm-se dedicado à promoção do seu primeiro álbum de longa duração – Cuco. Depois de um primeiro EP já com a participação de Gonçalo Castro, é neste último trabalho que o quarteto fica completo com a entrada de Nuno Morão. Conhecidos pelo seu som experimental dentro dos géneros bossa, folk e rock, foi com muito gosto que estive à conversa com a Madalena e com o Bernardo.


A memória principal do início dos Nome Comum tem origem numa noite em casa da avó da Madalena e do Bernardo, em que fizeram uma noitada musical, com músicas escritas pela e também interpretadas pelo Bernardo: «Foi aí que começámos a juntar uma série de canções. Decidimos trabalhar mais na composição das músicas e mais tarde ainda demos dois ou três concertos só nós os dois. Na altura as músicas eram talvez um pouco diferentes, mais intimistas. Depois a banda foi evoluindo, eu (Bernardo) já conhecia o Gonçalo, que é o baixista actual, e convidámo-lo para se juntar a nós e mais tarde veio também o Nuno Morão que se juntou na percussão. A estrutura é basicamente esta: nós os dois cantamos, ele (Bernardo) mais na guitarra, eu (Madalena) vou variando entre piano, percussões, acordeão, o que aparecer, o Nuno Morão na percussão e o Gonçalo no baixo. A premissa da banda sempre foi ter um formato muito portátil em que não precisássemos de muito para conseguir tocar, daí que acabámos por ficar com um som mais acústico.»


A música foi sempre uma presença constante na vida destes dois irmãos e muito por tradição da própria família. Desde os grandes serões familiares ao método auto-didacta, todas as contribuições foram importantes para chegarem ao som que hoje em dia os caracteriza. Muitas vezes incluídos nas categorias world music e folk, perguntei-lhes se se identificavam com as mesmas: «Acho que é mais difícil para nós categorizarmo-nos do que para quem está de fora. Para nós sai-nos de uma forma natural – temos isso dentro de nós, um bocadinho de Bossa Nova, um bocadinho de música portuguesa, clássica, jazz, um pouco de tudo. Quando estamos a compor isso vai saindo de forma natural. Mesmo essa categorização quase tem de ser feita música a música pois cada uma lembra coisas diferentes. Misturamos mesmo bastantes coisas e o último disco é prova disso.»


Já o nome da banda “Nome Comum”, vem precisamente pelo nome que Madalena e Bernardo partilham, mas também pelos instrumentos com que começaram: «Temos um apelido comum, mas depois também era a ideia dos objectos pequeninos do quotidiano que muitas vezes usávamos para tocar. Foi uma espécie de homenagem a essas coisas pequeninas e também ao facto de sermos irmãos.»


Entre o lançamento do EP e do LP, passaram dois anos e o grupo também aumentou. A maior diferença, a nível sonoro, dá-se graças à entrada do Nuno Morão: «Com a entrada do Nuno passámos a ter essa parte de percussão que ele desenvolve de forma muito rica. Isso também nos abriu muito mais espaço para podermos fazer outras coisas, nomeadamente o piano. O tempo que se passou entre os dois trabalhos também contribuiu para essa mudança, começámos a ouvir outras coisas e naturalmente iremos continuar a evoluir. Estas primeiras canções surgiram principalmente entre mim e o Bernardo que depois apresentámos ao Gonçalo e ao Nuno e eles juntaram as duas ideias. Agora que já temos esta dinâmica formada o que queremos é mesmo compor os quatro, logo irá sempre ser uma coisa diferente.»


O pico da promoção de Cuco deu-se neste último Verão e a banda está muito contente com a receptividade do público português: «A recepção tem sido muito boa, estamos contentes. O facto de termos a Raquel Lains a tratar da promoção permite-nos falar e apresentar o nosso trabalho também a pessoas que à partida não o fariam, a par disso também o poder ir tocar de norte a sul em sítios diferentes com pessoas diferentes tem sido importante.»

Dado terem andado na estrada recentemente, perguntei-lhes qual foi o concerto mais insólito que já deram. «Mais insólito? Ihhh, somos muito certinhos (risos). Eu (Madalena) diria que este último no Bons Sons foi muito especial... Não só pelo facto de estarmos num festival, mas por termos tido, em palco, a companhia de muitas moscas (risos). Foi um desafio estar a cantar de boca aberta com as moscas a passearem a ver se entravam ou não. (risos).»


Em relação à composição das letras e da música, as influências são muitas e difíceis de numerar: «É tudo muito difuso. A nível instrumental há tanta coisa! Tudo o que gostamos e ouvimos acaba por nos moldar. A dar uma referência directa, passando ao lado de imensos nomes, por causa da língua portuguesa, sem dúvida Chico Buarque. Ele é o rei. (risos) Admiramo-lo bastante porque consegue uma excelente harmonia entre a letra e a música. É incrível. Mais do que outros, é algo que ele tem ali, uma ironia, uma ironia muito grande, que é uma coisa que às vezes sai um bocado na nossa escrita.»


Dada toda esta versatilidade musical e instrumental, lancei-lhes o desafio de escolherem um músico, português ou estrangeiro, que achassem que encaixaria bem com eles para uma colaboração: «Nunca pensámos nisso, realmente... Talvez alguém que não toque nada daquilo que nós já tocamos... Um nome, hum... Talvez seja uma resposta demasiado fácil, mas há pouco tempo gravámos uma versão de uma música do Sérgio Godinho e seria um desafio tocar com ele. Já um instrumentista, talvez o João Lobo, por causa da bateria, se calhar esse contraste seria interessante. Estando a pensar em amigos e malta que vai tocar no Magafest, o Tiago Sousa se calhar a tocar piano também era giro. Sim, são duas boas referências o João Lobo e o Tiago Sousa. De dois mundos completamente diferentes, mas seria uma fusão interessante. Por vezes penso (Bernardo) como seria uma certa música tocada por outras pessoas, para ver o que têm para oferecer.»


Quanto à internacionalização e palcos estrangeiros, é algo que ainda lhes passa pouco pela cabeça: «Não pensamos muito nisso. Ainda estamos ocupados a conquistar o nosso espaço por cá, principalmente porque as canções são em português. Talvez sim, faça sentido, mais tarde, levarmos isto para a América do Sul, Brasil... Acho que nos ia fazer muito bem. É um sítio para explorar, há cada vez mais esse fascínio. Não há é dinheiro (risos).»


Em relação ao Magafest, o sentimento é de família, de se sentirem em casa: «Temos muita pica para tocar lá. Até emocionalmente é muito bonito para nós porque acaba por reunir uma série de pessoas que vieram tocar aqui, a esta sala, e que já dura há muito tempo fruto do esforço da Inês e do irmão. Desde o início que gostamos muito desta iniciativa. É raro alguém abrir a sua própria casa e convidar músicos para tocar. O festival é a consagração de mais de dois anos em que a Inês abriu as suas portas e agora pode finalmente passar para um outro espaço e mostrar que isto cresceu, com um espírito festivo e de amizade. É muito bom.»


Para um futuro próximo, a ambição é gravar um novo álbum, desta vez com os quatro elementos para ver que surpresas podem surgir, dado que até agora eram só os dois, essencialmente, a compor. Já têm material para gravar, mas a parte financeira tem sempre o seu peso e seria bom se houvessem mais apoios: «É uma questão de tempo e... dinheiro (risos). Ver depois como é que se consegue apresentar – se um objectivo físico ou virtual. Não havendo dinheiro iremos fazer na mesma, talvez demore mais tempo, mas é questão de vermos o molde em que o fazemos. Felizmente, no primeiro disco tivemos o apoio da GDA. A cada ano eles dão 20 apoios a 20 artistas. Se houvesse um espaço, com estúdio, em que as pessoas pudessem ir para lá gravar por um preço mais simbólico, que estivessem ligadas à GDA, era uma boa ajuda. A questão da produção do objecto, há várias maneiras de contornar isso, a edição online é uma delas. Há sempre formas alternativas de mostrares o teu trabalho.»


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O meu muito obrigada aos simpáticos Madalena e Bernardo. Descubram Nome Comum, não se vão arrepender. 

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