Entrevista a Gabriel Ferrandini, Músico Português

Para quem está ligado ao mundo do jazz contemporâneo, Gabriel Ferrandini é um nome já conhecido e reconhecido. Associado muitas vezes ao im...

Para quem está ligado ao mundo do jazz contemporâneo, Gabriel Ferrandini é um nome já conhecido e reconhecido. Associado muitas vezes ao improviso, é na bateria que o músico constrói as suas peças e todo o seu universo imagético.  Já tocou ao lado de nomes Johan Berthling e Thurston Moore, ex-Sonic Youth, e neste momento, para além de actuações a solo, tem também os projectos Red Trio e Caveira. Foi a propósito do Magafest, realizado a 6 de Setembro, que me sentei com ele, na casa da simpática Inês Magalhães (responsável e dinamizadora das Maga Sessions), a falar um pouco sobre o seu trabalho.


Fotografia por Vera Marmelo
Em jeito de apresentação, o Gabriel falou-nos um pouco sobre a sua ligação à música: «Comecei a tocar desde muito novo e, resumindo um bocado, passei por todo aquele percurso das escolas, pelo Hot Club e estive na Academia. Não sou o mais académico de todos, porque também não quis, mas acho que a grande viragem para mim foi quando conheci o pessoal do Trem Azul. Era muito novo quando fui lá parar. Vivi sempre em Cascais e quando comecei a estudar aqui em Lisboa não tinha sítio para ensaiar, para estudar, para ter o meu instrumento e ir tocando. Conheci então o pessoal do Trem Azul e eles disponibilizaram uma sala para eu ter lá a bateria e fazer o que quisesse enquanto a loja estivesse aberta. Isto foi um momento importante, começar a conhecer outras pessoas, ouvir trezentos mil discos por dia, naqueles que foram os dias áureos do Trem Azul. Ou seja, ouvia muita música, estudava, tocava e ensaiava imenso e foi onde conheci o Rodrigo Amado, uma das pessoas principais com quem toco, o pessoal do Red Trio, que é a minha outra banda, e o Pedro Sousa, que é um amigo e um colega próximo. Portanto, foi no Trem Azul que começou a história mais profissional e menos académica. Tinha por volta de 19 anos e na altura todas aquelas experiências foram muito importantes.»


A bateria foi uma escolha fácil «É aquela história do “First and only love!” (risos)». Também gosta de outros instrumentos, mas foi quando começou a tocar, com os seus 12 ou 13 anos, que a bateria se afirmou logo como o seu instrumento. O gosto pela música veio do pai, que ouve imensa, mesmo sendo de um género diferente: «Acho que está sempre música a tocar onde quer que ele esteja, apesar de não ter nada a ver com o jazz ou com estas coisas que eu toco ou me interesso. Ele vem mais de um background pop e disco.»


Se por um lado a bateria é muito associada ao rock, a escolha do Gabriel foi aplicá-la ao jazz. «O jazz entrou na minha vida através de um amigo eu, que na altura era o meu melhor amiguinho e que ainda hoje é um grande amigo meu, em que o pai era um melómano do jazz – daquelas pessoas que têm não sei quantos mil discos e vai a todos os festivais. Ele foi buscar isso ao pai e foi através dele que comecei a ouvir jazz. Quando comecei a tocar bateria, óbvio que era puto e por isso também gostava de rock e de punk, era de Cascais e na altura havia toda aquela onda de ska e de reggae, mas havia ali uma cena super misteriosa em relação ao jazz que, por alguma razão, me deixava super extasiado e sabia que era aquilo que eventualmente gostaria de tocar. Principalmente pelo tipo de aproximação ao instrumento, porque, desde o início, parecia-me uma forma super livre e lírica, com uma narrativa muito complexa, melodicamente mais rica do que aquela coisa super marcada do rock. É claro que hoje dia já não penso bem assim, cada coisa tem a sua complexidade, mas na altura o Swing parecia-me a coisa mais misteriosa do mundo e queria entrar por aí. »


Quem se vê o Gabriel ao vivo, principalmente a solo na improvisação, identifica logo um estilo único e diferente de interagir com a bateria - desde a constante troca de pratos, às diferentes maneiras de os tocar. Esta dinâmica deve-se muito ao seu fascínio pelo free jazz: «Depois de terminar os estudos, aquilo que me fascinou mais foi o free jazz, principalmente o europeu, que tem muito mais a ver com cores e texturas, a questão de libertar o instrumento do que tinha sido feito até ali. As problemáticas já não eram tanto o ritmo e o tempo, mas mais o som. A partir do momento em que o som é o foco, o som é mais ou menos infinito. Um prato tocado de uma maneira dá um som, mas se estiver ao contrário, em cima de uma pele com uma corrente em cima, vai dar outro som e ambos hão-de ter mil significados e direcções. É só tentar brincar com isso e construir uma narrativa à volta disso. Aquilo que eu procuro sempre é “qual é o som que eu preciso para dizer alguma coisa? O que é que eu posso encaixar neste sítio para preencher um espaço que eu acho que tem de ser preenchido?”. Fui buscar isto muito à escola europeia de free jazz, principalmente aos alemães e ingleses que são bateristas que já começaram a desenvolver isto há algum tempo.»


Fotografia por Vera Marmelo
As narrativas construídas surgem muito através de um reflexo das emoções do Gabriel: «Eu tento ser o mais genuíno possível. Se estiver contente, triste, nostálgico ou histérico, tento sempre passar isso. Estou a tentar compor ou contar uma história, mas ao mesmo tempo estou só a tentar construir uma coisa plástica, coerente, que faça sentido em termos de princípio, meio e fim, e seja genuína, pura e real em relação a mim e ao momento. Num solo, por exemplo, que é onde estou mais livre, não consigo fazer grande trabalho de casa. Tenho uma ideia daquilo que gostava de fazer, mas depois é uma coisa de flow, sempre a tentar controlar aquele bicho. Não consigo bem explicar a coisa, é só tentar contar alguma coisa de alguma forma que tem a ver comigo naquele momento.»


Têm sido várias as colaborações com outros músicos ao longo da sua carreira. Desde músicos nórdicos a europeus e americanos, têm sido vastas as experiências que o têm acompanhado nos últimos anos. Como é que isso se tem reflectido no Gabriel em termos musicais é o que ele nos explica: «Eu acho que isso tudo é o que eu sou hoje. O trabalho com os nórdicos trouxe-me algumas coisas, o trabalho com o Thurston outras. De uma maneira ou de outra ainda estou dentro do universo de jazz e, quando uma pessoa aceita o jazz como ele é, o jazz é um monstro híbrido, foi sempre buscar tudo a todo o lado e não é uma coisa fechada como algumas pessoas pensam. Tocar com o máximo número de pessoas foi algo que sempre quis fazer – uma pessoa A traz-me alguma coisa que uma pessoa B não tem. Não é algo maquinal, o que eu tiro destas experiências tento que faça parte de mim e depois eu exprimo-as quando toco.»


A diferença na divulgação e na promoção entre os vários géneros musicais acaba por ser mais evidente quando comparando o jazz com tantos outros. Se é uma realidade que o jazz tem vindo a ter cada vez mais destaque, é igualmente verdade que a nível de eventos e colaborações entre portugueses e outros artistas, o alarido é bem menor. Em relação a isto, o Gabriel foi bastante categórico: «Isso é super complexo. Dentro da “cena musical” íamos ter de falar sobre músicos, promotores e público. Sobre o que o público quer, mas ao mesmo tempo o que público tem é o que os promotores oferecem, sobre o que os promotores querem fazer porque eles fazem o que lhes apetece... Não é assim com toda a gente, claro, há pessoas incríveis a fazer trabalho incrível, mas quando se fala na “cena musical” é uma questão complexa. Por exemplo, quando demos o concerto com o Thurston, a ZDB esgotou. Se fossemos tocar num festival gigante não sei se seria mais positivo que ter a ZDB esgotada. Sinceramente, essas coisas não me interessam. Se eu conseguir, ao final do mês, ter dinheiro para comer e pagar a renda, eu estou na boa para tocar apenas para quem estiver interessado. Não é necessário um público gigante ou grandes críticas. Eu toco e a minha música existe no mundo e quem quiser pode ouvi-la.»


Fotografia por Vera Marmelo
Portugal, apesar de ser um país pequeno, tem imensos festivais de música. Se para alguns servem de montra para o seu trabalho, será que para outros tem o mesmo efeito? O Gabriel deu-nos a sua perspectiva: «Os festivais são complicados. Temos muito festivais para o tamanho do nosso país. O que até é uma coisa boa, mas se formos a ver são sempre as mesmas bandas, o público é quase sempre o mesmo e sinceramente não acredito muito nesse tipo de festivais. As pessoas não vão tanto para ouvir música, mas mais para curtir e para isso vou curtir em vez de tocar. O que eu faço não é papel de parede, eu não toco para as pessoas saltarem ou dançarem, nessa óptica é quase inútil. É uma música que existe só para existir. Acho que um festival não é o melhor meio para este tipo de música.»


No Magafest o Gabriel tocou com o Norberto Lobo pela segunda vez. «O que fazemos nos concertos não é muito certo, eu gosto dessa sensação de perigo. Falamos um pouco sobre o que vamos fazer, mas é só isso. Acho que tem tudo para correr bem.» É de comum acordo que mais iniciativas como o Magafest são necessárias e a Inês deu aqui o seu contributo: «Acho que quem vai ao Magafest ou às MagaSessions vai para ouvir a música. Não são eventos pop, nem comerciais onde tens 50 bandas, imensa cerveja, com tudo a acontecer ao mesmo tempo e que acaba por tirar tempo aos músicos. A questão dos horários também é sempre importante, os músicos não devem apenas estar lá a fazer número. Cada músico deve ter o seu espaço dedicado.» Gabriel complementa: «Se se consegue criar um ambiente em que há muita música séria, digamos, isso é o melhor conceito de festival. Tens muita música boa, um espaço fixe, não é preciso muito mais. Há pouco tempo tive num festival grande e fiquei um bocado deprimido quando saí de lá. Comecei a achar que há um problema grande – as grandes marcas compraram os festivais e são elas que compram a música, portanto, não consigo não ver os músicos, que estão muito dentro deste esquema, como funcionários da Vodafone ou da Optimus. Como parece que tanto o sucesso deles como a vida económica deles depende deste tipo de festivais, parece que é tudo construído para isto. A mim entristece-me porque muito deles têm grande qualidade, mas é um ciclo vicioso. Ainda por cima para um público que nem está muito interessado. Voltando ao que estávamos a falar, para mim, o Magafest é o tipo de festival que me interessam


A nível de colaborações futuras, desafiei o Gabriel a eleger uma pessoa com quem ainda não colaborou, mas com quem gostasse de tocar. O eleito foi Evan Parker: «É um grande saxofonista. Um dos últimos grandes. Fiz um workshop com ele há dois anos e acho que é um dos grandes iluminados da música e é inspirador ver um músico tão completo. Tem também o lado em que só lida com coisas que acho que realmente interessam como sentimentos, o real. Não é ser o romântico por ser romântico, ou o complexo por ser complexo, mas tentar colocar tudo numa coisa só. Para mim é importante fazer alguma coisa que sirva para algo. Num solo, por exemplo, tens o lado performativo, o lado musical, mas não tens um lado realmente palpável. Quando nos começamos a afastar da canção, a canção tem um lado de ligação muito maior que a música, com as pessoas, em que associas a imensas situações da tua vida, e quando estás a tocar uma coisa tão livre como a que tocamos, para que é que isso realmente serve para além de só existir? O Evan, para mim, é alguém que consegue provar que isso é uma das grandes coisas. É um músico incrível.»


O futuro de Gabriel enquanto músico passa pela gravação de um disco com Caveira, a sua banda de rock e também pela composição. «Estou agora a gravar com Caveira, estamos a tentar fazer um super disco com as nossas vidas de rock. Comecei finalmente a compor para Trio, para saxofone e baixo, e até ao final do ano tenho de ter tudo escrito. É uma grande cena para mim, finalmente ter uma coisa que vai ser cem por cento minha.»


O meu muito muito obrigada ao Gabriel e à Inês pela excelente conversa| 

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