Entrevista a Guillermo de Llera, Músico Português

Uma das maiores alegrias que este blogue me tem dado é o facto de, muito naturalmente e ao seu próprio ritmo, me proporcionar oportunidades...

Uma das maiores alegrias que este blogue me tem dado é o facto de, muito naturalmente e ao seu próprio ritmo, me proporcionar oportunidades únicas de conhecer pessoas talentosas, cultas e de uma personalidade marcante. Conheci o Guillermo de Llera e o Abel Beja a propósito de uma entrevista aos Primitive Reason no contexto do Fusing Culture Experience, mas desde então que tenho pensado em formas de homenagear tanto a banda como estes seus dois membros representativos. Depois daquela meia hora de conversa, se já admirava o percurso da banda foi impossível não ficar a admirar também estas duas pessoas. A lucidez, a eloquência e a determinação feroz nos seus discursos, sempre de forma humilde e directa, justificam em muito os vinte anos de banda que Primitive Reason já leva. Decidi então criar um «Mês Primitive Reason», o de Novembro, em que na primeira quinzena teremos a Playlist de Guillermo de Llera e na segunda quinzena a de Abel Beja. Como entrevistar uma banda é diferente de dar a conhecer mais sobre os seus membros, aqui fica a primeira entrevista pessoal a Guillermo de Llera. É fácil constatar que estamos perante um grande ser humano, imensamente talentoso e que vale a pena admirar. 

Fotografia por Sofia Teixeira
Guillermo, fala-nos sobre a tua paixão pela música. De onde é que veio? 
Para ser perfeitamente sincero tenho que admitir que a minha paixão pela música veio um pouco por acidente e aos trambolhões. Tinha eu os meus 18 aninhos e como tal as minhas prioridades na vida eram as miúdas e a diversão pelo qual qualquer actividade que me pusesse em contacto com uma, ou de preferência as duas coisas era bem vinda. Eu pensava que ia ser um skater profissional. Dominava a minha tábua acima da média, e estava numa fase em que inventava manobras novas muito fora do comum. Por isso pensava que o meu futuro iria por aí.
Eis que o Jorge Felizardo, baterista original dos Primitive Reason e grande amigo de infância, me sugere que isto de tocar em banda era uma boa ideia;  que além de ser muito divertido em palco, nos permitir extravasar à vontade e ainda por cima conseguir o interesse das miúdas, ele precisava de um baixista para uma banda de covers que ele estava a criar com o Brian Jackson, vocalista original também dos Primitive Reason. Soava-me bem, os argumentos eram válidos e eu aceitei. Pedimos um baixo emprestado para eu tocar.
Poucos dias depois já sabia. Fui feito para a música. A música é a minha voz.


Foi em 1992 que iniciaste a tua actividade musical nos Primitive Reason. Ainda te lembras desses tempos? O que é que te levou a criar a banda?
Nesse mesmo ano de ‘92, após umas tentativas horríveis a fazer covers criamos os Primitive Reason. Era impossível copiar a música dos outros porque saia-nos sempre de forma muito alterada e pessoal. Eu não conseguia deixar de mexer nas partes e arranjos e estar sempre a inventar mais alguma coisa para adicionar. Por isso decidimos começar a fazer originais. E foi assim…  


Desde então, a formação mudou consideravelmente, passaram mais de 20 anos...  Pessoalmente, consegues eleger o teu álbum e música preferidos? 
Os meus 3 discos de Primitive preferidos são:
Alternative Prison, The FireScroll, Power to the People
As minha músicas preferidas neste momento são (não consigo escolher só uma):
Thoughts, Pen and Paper (Alternative Prison),  Glowing (Tips & Shortcuts), Friend or Foe (Tips & Shortcuts), El Plumero (Some of Us), Breathe (The FireScroll), The 4 Brothers (Pictures in the Wall), Slow Burner (Pictures in the Wall), Higher Needs (Power to the People)


Achas que os prémios que foram ganhando ao longo dos anos serviu como incentivo para, mesmo perante as adversidades, seguires sempre em frente com o projecto? Ou desvalorizas completamente isso?
Acho que os prémios são janelas raras de reconhecimento por tudo o que esta banda representa no panorama musical Português e internacional. Temos que considerar que, gostando o ou não gostando particularmente da música, qualquer grupo que tenha sido iniciador de uma nova tendência ou tenha tido algum impacto no desenvolver de um género musical particular, têm sempre importância no panorama global e devia ser reconhecido pelos seus feitos. Nos mantemos-nos à margem do mainstream e por isso na altura de ser reconhecidos também estamos um pouco à margem. Quando não se constata o mesmo e recebemos um prémio ficamos agradecidos por alguém ter reparado em nós, mas nem por isso reivindicamos que devíamos ser mais reconhecidos. O tempo tudo dirá.



Para além dos Primitive Reason, tens imensas outras actividades: pintas, escreves, entre outros. De que forma é que essas formas de arte te ajudam a expressar o teu eu artístico? 
Eu tenho a particularidade de considerar que todas as arte são simplesmente dialectos. Ou seja, qualquer forma de arte é um meio de expressão que permite-nos comunicar o que nos vai no mais íntimo. Eu gosto de estar vazio e tenho uma necessidade de me expressar continuamente, de me ‘gastar’ para poder descansar em paz interior. O trabalhar com vários dialectos artísticos permite-me saciar também uma vontade motivadora que está sempre comigo, que é o de aprender coisas novas, ganhar vocabulário para reorganizar o meu próprio leque de opções de expressão e ferramentas de trabalho. Gosto de pintar de forma musical, de esculpir uma música, de escrever um poema através da poesia, de ser espontâneo num meio formal, de falar a dançar e por aí fora perdido na criatividade.
Fundamentalmente, mais do que ajudar-me a expressar o meu eu artístico, as formas de arte ajudam-me a expressar a minha religião pessoal, o de ser criativo à imagem do principio criativo universal que é o início e raiz de todas as coisas. 


Consideras importante fazer-se outras artes para além da música? 
Para mim é vital e não faz sentido não ser assim. Se como músico não vejo música num quadro então não estou a viver a música. 


Onde é que podemos encontrar as tuas pinturas e livros? 
No meu site: http://guillermodellera.com podem encontrar mais ou menos um quarto de tudo o que fiz e vou fazendo. O resto encontra-se perdido em N discos rígidos à espera de ser encontrado. Há coisas minha no meu site que não se encontram em outros ‘hubs’ da internet. 
Estou a acabar uma série de projetos a solo para lançar em 2015. Em 2014 lancei 5 discos a solo, e neste momento tenho 122 temas meus no Soundcloud: https://soundcloud.com/guillermo-de-llera
A minha arte encontra-se à venda em formato original e em ‘prints’ nos seguintes sites:
Alguns dos meus livros, histórias e poemas, podem-se encontrar no meu site: 


Para quando uma exposição Primitive Reason? 
Ora aí está uma bela ideia. Ainda bem que deixaste a dica.


De todas as viagens que já fizeste, alguma te fez ponderar deixar Portugal de vez?
Sim, para ser sincero. Várias vezes pensei ir morar para um país melhor adequado para o meu perfil. É muito complicado viver da arte em geral no nosso país. Mas, tenho que admitir, no fundo sinto que é a minha missão viver aqui e lutar pelo meu lugar. Não sei se estou a ser idealista, corajoso ou parvo ao pensar assim, mas não me interessa. Lutar por algo dá-nos uma boa razão para acordar todos os dias e tentar melhorar alguma coisa. Antes isso do que deambular ser razão de viver, como mais uma engrenagem na grande máquina demolidora de almas que é o sistema. 


Com que olhos é que vês o estado da cultura em Portugal? 
Mal e porcamente. Não só em Portugal, no mundo em geral, mas por cá os sintomas agravam-se. Um país é a sua cultura. Dito tudo…


Para quem inicia agora os primeiros passos, seja em que arte for, o que é que podes aconselhar? 
Se realmente gostas da arte, e sentes que é só isso que queres fazer na vida, que é o que mais prazer te dá fazer, faz-te surdo as más bocas e conquista o teu lugar no mundo. Não tenhas dúvidas que ser artista é uma guerra num mundo sem justiça. Se não estás disposto a lutar é melhor procurar outras vias de expressão. Ma se estás disposto a lutar faz da tua missão ser visto e ouvido. Desde que trabalhes para isso as oportunidades vão surgir, faz parte da dinâmica universal; só quem procura encontra. Por isso focaliza a tua atenção para o teu mundo, concentra-te nos teus objectivos como artista e faz por isso. Lembra-te que poucos são os que virão ajudar-te sem ‘agenda’ própria; sem interesses próprios. Faço-me entender? Há pessoas que te podem ajudar, mas pede que sejam claras contigo, e colabora com as que te interessarem a ti, não vás com o primeiro que te prometer algo. E agora o mais importante: Diverte-te. Encontra razão para te rires em tudo o que fazes.


O que é que é mais importante para ti na expressão artística? Qual a principal mensagem que achas que deve ser passada?
Não diria que passar a mensagem é importante, senão passar a alma.
Mas se estivermos a falar de letra e mensagem de uma música, acho que aí diria que a mensagem mais importante a passar ás pessoas é que devem ser genuínas, que na diferença está a beleza, que devemos lutar contra as injustiças e mudar o que está mal no mundo.


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