Entrevista a Hugo Ferreira, Responsável pela Omnichord Records/Leiria Calling

De vez em quando, nesta "brincadeira" de ir atrás de bandas e de fazer entrevistas, conhecemos pessoas que acabam por dar toda um...

De vez em quando, nesta "brincadeira" de ir atrás de bandas e de fazer entrevistas, conhecemos pessoas que acabam por dar toda uma nova dimensão ao que começou por ser apenas uma curiosidade. Hugo Ferreira, responsável pela editora discográfica de Leiria - Omnichord Records - foi sem dúvida uma delas. Confesso que não me recordo muito bem como é que se iniciaram os contactos, possivelmente foi por causa dos First Breath After Coma, mas foi graças ao seu dinamismo e à sua capacidade de ver mais à frente do que os nossos tempos que acabei por conhecer os Les Crazy Coconuts que actuaram no evento 5 Anos Blogue Morrighan no Auditório Orlando Ribeiro a 18 de Janeiro de 2014. Desde então, muito temos interagido e trocado opiniões e achei que estava na altura de, pelo menos, dar destaque ao grande movimento que agora se perpetua em Leiria - Leiria Calling. Sou da opinião que pessoas que fazem tanto pela nossa cultura merecem um lugar de destaque nos meios de divulgação e, como tal, aqui estou eu a ceder-lhe o humilde espaço do Morrighan. É uma honra conhecer pessoas como o Hugo que, resumidamente, passou pela rádio Universidade de Coimbra, faz parte da Associação de Acção Cultural Fade In, mas que profissionalmente está ligado ao sector dos moldes e tratamentos térmicos de aço. No meio disto tudo, é senhor de um optimismo e de uma energia inesgotável. 

Fotografia Ricardo Graça

1. Hugo, conta-nos, como é que se iniciou a tua aventura com a música e como é que esta te levou a criar a Omnichord Records.
A aventura com a música deve ter começado ainda no ciclo e com a criação de uma rádio escola na secundária. Depois, chega-se ao 12º ano e escolhem-se seis opções para Coimbra porque o objectivo era poder ir para a Rádio Universidade.
Pela RUC foi fazer de tudo um pouco desde a realização e locução de programas à gestão da rádio, desde o contacto com editoras e distribuidoras à organização de inúmeros concertos… 
Depois do curso (foi Direito) voltei à base (Leiria) e após meia dúzia de anos em que mantinha o trabalho num ramo completamente diferente e continuava a mandar programas gravados para a RUC e a fazer alguns eventos por Leiria (já na equipa da FADE IN) cheguei à conclusão  que era preciso começar a gravar e a lançar algumas bandas que começavam a aparecer em Leiria e outras que já por cá andavam mas nunca tinham tido a projecção devida. Parecia-me uma inevitabilidade ter que documentar o que a cidade estava a começar a produzir (e tão bem). 
Os Nice Weather For Ducks foram o ponto de partida e usavam um instrumento criado pela Suzuki chamado Omnichord. É muito intuitivo e pode ser tocado por qualquer pessoa a como queríamos começar a fazer discos que qualquer pessoa goste de ouvir, pareceu-nos um nome indicado.  


2. Leiria atravessa um momento tão forte a nível de bandas e projectos musicais que acabaste por criar também o movimento Leiria Calling. Em que é que te inspiraste e quais os objectivos principais deste movimento?
Sem qualquer comparação há na Europa dois exemplos ou case-studies (como agora é bonito dizer) que provam a força de um movimento local organizado em torno da música e cujos elementos se sentem quase família. Actualmente, ou nos últimos anos, uma cidade (Reykjavik) e, se recuarmos uns bons anos, uma editora que colocou uma cidade no mapa (a Factory Records, de Manchester).
Os objectivos são simples, tentar levar boa música à maior quantidade de pessoas  e tentar gravar e colocar na estrada jovens músicos que acreditamos terem um enorme potencial.


3. Há uns meses saiu a colectânea Leiria Calling em disco e já têm sido feitos alguns eventos de divulgação do mesmo. Como é que tem sido a recepção do público?
A reacção tem sido muito boa, começa a sedimentar-se a imagem que Leiria tem algumas bandas que vale a pena seguir e há, naturalmente, uma ou outra que tomam a dianteira nesse processo. Se os First Breath After Coma e os Nice Weather For Ducks são os mais notórios, é verdade que há pelo menos mais uns cinco ou seis prontinhos a surpreenderem. 


4. A compilação contém bandas de estilos muito diferentes. Essa diversidade faz parte do teu gosto musical ou para ti é fácil separar o teu gosto pessoal do que achas que tem qualidade?
Acreditamos que se te parece bem e te apetece ouvir é porque, de alguma forma, tem qualidade. 
Como em casa ouvimos desde rock a minimalismo clássico, passando pela electrónica e pelo pop, é normal que haja muito estilo musical diferente associado à Omnichord, no entanto há sempre uma noção de tentar conjugar aquilo que gostamos com o que achamos que faz sentido mostrar a toda a gente.
No início da Omnichord tínhamos algumas frases escritas como uma espécie de manifesto que espero que se continuem a aplicar por muito e bom tempo e uma delas dizia que “Gravamos discos que gostávamos de comprar para nós e  de oferecer aos nossos amigos”.


5. Também os festivais de Verão foram um marco importante para algumas das tuas bandas. Foi feito um esforço nesse sentido? Quão importante achas que é a presença de bandas portuguesas em festivais de Verão?
Os festivais de verão são uma das maiores montras para quem faz música e é muito interessante constatar que há um reforço de nomes portugueses nos cartazes. Parece-me, aliás, um reforço com tendência a crescer. Tentamos fazer o melhor possível na promoção das bandas junto do público em geral e dos promotores e acabámos por ter algumas datas muito interessantes e de ter reacções (do público e da imprensa) muito positivas, apontando muitas vezes as nossas “pequenas” bandas nos melhores concertos do festival ou da noite. 


6. Ainda em relação aos festivais, a realidade é que cada vez existem mais. Na tua opinião, existe assim tanta procura para uma oferta tão vasta?
Acredito que o mercado tem a tendência para se auto-regular e no que toca a música, para mim a oferta nunca é em demasia. Há outras coisas que me preocupam mais como por exemplo o facto de os concertos em nome próprio (fora dos festivais) poderem diminuir, o facto de muitas bandas aceitarem tocar mesmo a perder dinheiro e por vezes não terem condições técnicas e logísticas adequadas ou ainda a sobre-utilização da figura do DJ (que, em alguns locais, passa de complemento essencial do after hours para actor principal da noite). 


7. Estando na vanguarda da nova música portuguesa, com que olhos é que vês o nosso mercado musical? Existe espaço para todas estas bandas ou é uma luta difícil? 
Há algumas (poucas) dezenas de nomes fortes que, felizmente, vão conseguindo fazer carreira da música mas cada vez mais estamos condenados a ter um mercado de bandas de malta que estuda ou de bandas de fim de semana (porque cada um tem o seu emprego).
A maior luta de todas é a música passar a ser respeitada e vista como uma arte que dá  trabalho e não é apenas como um hobby. 
É importante ter prazer em ouvir música ou assistir a um concerto mas ter noção de que há ali muito trabalho envolvido, muito ensaio, muito esforço para comprar material, muita viagem e muita insistência na promoção e na produção. Porque sem isso aquela música ou aquela banda dificilmente se teriam cruzado contigo.  É por isso que enquanto for mais lógico para a generalidade das pessoas gastar cinco euros em copos do que num disco ou num concerto vamos estreitando o espaço das bandas e vamos obrigar músicos tremendos a terem que abandonar a possibilidade de poderem ter tempo para criar e a procurar ou outro trabalho que lhe consiga pagar as contas. Eu tenho a certeza que a qualidade da música que cá se faz podia gerar muito rendimento além fronteiras, mais aí voltamos à mesma guerra de sempre e sem estratégia nem aposta vamos sempre ficar com uma ideia de que, se calhar, aquilo até podia ter dado mas tivemos azar. A falta de visão económica da cultura por parte da grande maioria das entidades públicas em Portugal  é gritante. 


8. Lisboa e Porto são sempre grandes centros de divulgação musical, para quem está em Leiria é complicado/ingrato lidar com esse facto ou achas que também isso está a mudar?
É compreensível que as coisas das grandes cidades tenham mais atenção. Se os centros da indústria e dos media se centram numa cidade ou duas isso acaba por ter reflexos pois mais facilmente falamos de aquilo que vai acontecendo em nosso redor ou que os nossos colegas e amigos falam. Saem discos e aparecem bandas a uma velocidade estonteante, recebem-se centenas de mails e é difícil descobrir quando muitas vezes nem sequer há tempo para seguir o que aqui se passa e o que nos garantem que é bom. A verdade é que várias bandas ou músicos acabam por se mudar para Lisboa para conseguirem estar no local onde realmente se pode fazer mercado. Assim de repente (e provavelmente por causa dos cortes e das crises) até o Porto me parece ter perdido algum protagonismo. Há empresas do sector ou dos media que passam a ter apenas delegação em Lisboa e verbas ou tempo para saírem à procura do que quer que seja são histórias “do tempo das vacas gordas”, como por exemplo em 1998 (quando nos dez ou quinze melhores do ano tinhas os Belle Chase Hotel de Coimbra, os Gift de Alcobaça, os Três Tristes Tigres do Porto, os Silence 4 de Leiria e uma compilação como o Tejo Beat que juntava pessoal de vários pontos).  
Os meios são escassos, o tempo é pouco mas há realmente muita coisa boa fora das grandes cidades que está e vai continuar a ficar pelo caminho por não conseguir chamar a atenção dos meios centrais. 
A contrapartida é que numa cidade como Leiria há uma qualidade de vida invejável e, à sua proporção, uma possibilidade de participar, promover e usufruir de actividades culturais impensável para uma grande cidade.


9. Que empurrão é que achas que é necessário no nosso país para os projectos musicais terem maior facilidade de crescimento e de expansão?
Quando a arte for vista como uma mais valia que pode e deve gerar dividendos e se definir uma estratégia  estamos no caminho certo. Não basta dizermos que a música portuguesa é incrível, que nos orgulhamos muito e tal e coisa, temos que a mostrar e promover lá fora … É como chegares a Madrid e dizeres que tens em Portugal uma praia como a Figueira da Foz que é impecável. Não lhes aquece nem arrefece. Mas se colocares Outdoors com uma foto bem tirada a dizer “esta paisagem, preços baixos e boa comida a cinco horas de auto-estrada” se calhar tens resultados... Apoiar digressões e promoções internacionais era realmente um investimento seguro.   


10. Consideras que é fundamental conseguir destaque fora de Portugal para se deixar de ser invisível por cá?
Não sendo fundamental é verdade que pode ajudar. Mas também todos conhecemos vários casos que nunca tiveram destaque lá fora e são muito acarinhados cá. E vice versa. É muito dificil tentar prever o que é que pode vir a resultar ou não e de que forma é alguém te pode descobrir e destacar. Resta-nos, quando temos noção de que a tua música tem qualidade, tentar trabalhar ao máximo e bater a muitas portas.  E nunca desanimar pela ausência de resposta.


11. O que é que podemos esperar do movimento Leiria Calling agora num futuro próximo?
Queremos fazer muita coisa mas o tempo e os meios não ajudam, no entanto arrancámos com as One Hundred Candles Sessions, há seis discos em pré-produção (Bússola, Les Crazy Coconuts, Nuno Rancho & A Few Fingers, The Allstar Project, Nice Weather For Ducks e First Breath After Coma) e datas a serem agendadas para Portugal e Espanha. Para além disso temos desenvolvido um trabalho de recolha de documentos e de filmagens para se trabalhar um documentário que retrate este movimento.


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