Entrevista a Xinobi (Bruno Cardoso), Músico Português, sobre o seu álbum 1975

Existem nomes incontornáveis nas mais diversas áreas de interessa. Em cada tipo de arte, mesmo nos sub-géneros, a citação de certos nomes d...

Existem nomes incontornáveis nas mais diversas áreas de interessa. Em cada tipo de arte, mesmo nos sub-géneros, a citação de certos nomes desperta logo a nossa memória, até mesmo quando nunca tivemos um contacto directo com eles. Xinobi é um deles. Para além de uma referência no que toca à música electrónica portuguesa, Bruno Cardoso, que dá vida a Xinobi, é também já um nome sonante no estrangeiro e uma inspiração para quem começa agora a dar os primeiros passos neste género musical. É também um dos "bosses" da Discotexas que muitos discos tem ajudado a produzir e, com isso, contribuído para a riqueza musical que Portugal atravessa neste momento. Após anos a lançar apenas singles, eis que finalmente foram reunidas as condições para ser lançado o seu primeiro disco de longa duração, 1975, que é uma delícia de se ouvir. Mesmo com a sua agenda super preenchida, o Bruno aceitou responder a algumas perguntas e a próxima Playlist da Quinzena, a começar amanhã, será também da sua autoria. Entretanto, fiquem a saber mais sobre o seu eu artístico - Xinobi.

Bruno, fala-nos dessa tua obsessão pela música. O que seria da tua vida sem ela?
Tudo o que faço gira em volta de música e raramente tenho silêncio absoluto em casa. Há sempre algo a tocar. Duvido que quisesse ou conseguisse viver uma vida sem música. Se a música não existisse de todo ou a inventava ou ficaria ignorante para sempre – sem sofrimento. Mas, sabendo que ela existe, tomo algumas precauções para não ficar surdo e evito ficar maluco por saber que o meu tempo de vida será insuficiente para usufruir da música que quereria.   


És completamente viciado em discos/vinis. Sabes-nos dizer quantos é que tens e qual deles é que foi o teu primeiro?
Tenho uma colecção relativamente modesta, uns mil. Para alguns coleccionadores este número é residual. Eu acho-o bastante respeitável. O primeiro disco que tive foi, acho, um 7” infantil: “Os Amigos do Sono”, uma canção sobre seres recambiado para a cama pelos papás. Tipo “Bruno, são 10 da noite, andor para dormir.” O primeiro que comprei com dinheiro próprio foi o “Angel Dust” dos Faith No More, se não estou em erro. Entretanto, já tinha convencido os meus pais a comprarem-me uns quantos álbuns. Fossem em K7 (que me era o formato mais conveniente quando era puto – o walkman era a minha cena) ou em cd ou vinil.


Como é que foi o teu percurso até à produção a solo?
Comecei a tentar fazer música em casa logo que comecei a sonhar ter bandas. De modos ultra rudimentares. Tinha um deck duplo que me permitia gravar numa k7 uma guitarra. Depois, punha play nessa k7 a ser gravada por outra no deck 2, enquanto tocava outra guitarra por cima. Era multipista com duas k7s. Cada layer que fazia implicava que a qualidade do que tinha gravado anteriormente se fosse perdendo. Era muito engraçado, mas pensando nas facilidades de hoje, é muito risível também. Mais tarde tive acesso a um computador decente e software que permitia fazer música e comecei a fazer algo mais a sério. Não percebia nada do que andava a fazer, mas é delicioso quando, sem vícios, exploras tecnologias novas e todas as possibilidades do mundo parecem estar totalmente ao teu alcance. Passava tardes na faculdade a fingir que estava a pesquisar sobre uma exposição qualquer de desenhos do Picasso, quando na verdade estava a tentar sacar software com 2 ou 3 megas através de uma ligação de internet medieval. Pondo as coisas nesta perspectiva, acho que comecei a “produzir” a solo antes de ter qualquer banda. Nunca tinha pensado assim.


Mesmo vivendo no mundo da música electrónica, consegues dar um carácter bastante orgânico ao som que produzes. Quais os componentes principais, na tua opinião, para se produzir boa música electrónica sem que perca esse cariz?
Instrumentos “reais”, vozes e pouco artificio são, diria, os componentes que mais facilmente podes destacar. Mas mesmo que uses só software, fugir à perfeição e assumir erros são óptimas formas de transparecer o coração na música que fazes. Se não ajeitares nenhuma nota que tocas num sequenciador, tudo parecerá mais humano. É engraçado que tanta música gravada acusticamente é esmiuçada em pós produção para ficar perfeito, demasiado perfeito. Afinam-se vozes, acertam-se guitarras e baterias e trompetes etc. Depois há quem produza tudo num computador, de raiz, e desconstrua a perfeição matemática de um sequenciador para humanizar o que está a fazer. É um paradoxo interessante.  


Depois de uns quantos singles e um EP, eis que chega o tão esperado primeiro álbum de Longa Duração “1975”. Porquê só agora um primeiro álbum?
Porque só agora reuni motivação e força de vontade suficiente para o fazer a sério, e ultrapassar a insegurança de mostrar um disco inteiro ao mundo. Eu na verdade tenho uns 50 álbuns fechados em discos rígidos aqui por casa. Mas acho que vão estar enterrados para sempre.


O que é que este teu novo trabalho mostra de ti que os anteriores ainda não tinham?
Não sei muito bem. Mas acima de tudo espero que não mostre que devia era manter-me a fazer singles. Ahah. Creio que o álbum manifestamente assume a diversidade de todo o meu trabalho passado e resume-o em 10 músicas. Pode não mostrar nada de extremamente novo, apesar de eu saber que há aqui terreno musical e tiques de produção que eu optei por explorar apenas para as músicas que viria incluir no disco.


Tens expectativas em relação ao mesmo?
Prefiro não as criar, mas investi tanto nele que espero que haja algo de bom que expectar. Mas raramente ponho as minhas expectativas lá no alto. Fico-me pela a ansiedade que tudo isto já me causa.


Internacionalmente já és conhecido, reconhecido e aclamado. Em Portugal parece que só agora se começa a dar os primeiros passos para uma maior valorização da música electrónica. De que forma é que encaras esta disparidade  entre o universo musical português e o estrangeiro?
Eu não tenho bem a certeza se só agora se valoriza mais a música electrónica em Portugal. Estou certo que houve uma fusão de públicos que, talvez consequência da diversidade dos festivais, de plataformas como o Spotify que te sugerem artistas enquanto ouves outros ou de artistas que se tornaram híbridos e uniram sons mais banda com electrónica, esta passou a ser vista como mais do que “martelinhos” como pejorativamente se chamava a tudo o que saía de melhor e pior na música de dança, numa generalização que obviamente deixou muito preconceito.
Da mesma forma que creio que nos últimos 10 anos essa disparidade que falas tenha sucumbido. O que se passa cá é no fundo o que se passa em todo o lado. Com mais ou menos uns meses de atraso. O mundo não é homogéneo, e há tendências que pegam mais nuns países do que em outros, mas se somares grande parte dos festivais que tivemos este verão, tens um cardápio fabuloso, com público dedicadíssimo e com vontade de conhecer, sem grande preconceito, o que há em palco. Mas claro, também há muita merda por aí, e ainda mais lá fora.


Para além de músico, és também produtor e chefe na Discotexas que tem trabalhado com vários artistas. Como é que tem sido essa experiência?
A Discotexas é um pilar crucial da minha vida. Já sofri muito por ela. Basicamente é trabalho de amigos que se dedicam e se desdobram da forma que podem para construírem algo que adoram. Tem sido, claro, uma experiência incrível.


Fora essa parte de produção, a Discotexas também actua em banda e ainda participas, mais o Miguel Vilhena, na actuação em formato banda de Moulinex (Luís Clara Gomes). Quais as tuas melhores memórias dessas actuações e em que medida é que todas estas vivências tem contribuído para o Bruno Cardoso enquanto pessoa e músico?
Tal como a Discotexas enquanto editora, estas bandas e lives, tal como todas as bandas que tive, são constantes lições de vida e são uma cartilha para saberes construir e desenvolver relações com pessoas. Há memórias incriveis. Nunca vou esquecer, por exemplo, um concerto que a Discotexas Band deu numa cidade no México. Chegámos ao soundcheck e a venue estava ainda em construção. Na verdade, estavam a começar a fazer o telhado e víamos entrar vários artefactos de casa de banho e sofás novinhos em folha. Foi super weird. À noite, após 20 minutos de concerto, começou a chover torrencialmente e o telhado, que era de vidro, apesar de terminado, tinha ainda as juntas de silicone a secar, pelo que rapidamente começou a chover lá dentro. Quando dei por mim, tinha alguém com um guarda chuva ao meu lado. Foram buscar vários baldes para ir enchendo nas zonas que pingava mais. Inesquecível. E foi uma grande concerto.


Olhando para o panorama social/cultural português, e enquanto cidadão português, achas que é fácil fazer-se música em Portugal? Mais, achas que é fácil fazer-se o que se gosta?
Até hoje não considerei fazer música que não goste, e ainda que tenha trabalhado a ajudar alguns projectos que me estão fora do meu mundo, não precisei de considerar fazê-lo. Independentemente da minha experiência, creio que é fácil fazer música em Portugal, mas, tal como em todas as profissões, não é necessariamente fácil viver dela. Há que trabalhar muito. Vida de músico não é só borga.  


De que forma é que achas que a música pode/consegue ajudar uma pessoa?
A música é terapêutica. Ajuda-nos a celebrar e acompanha-nos no sofrimento. Tens melodias que te deixam alegre, outras que choram contigo. Tens letras que te fazem questionar a vida, outras que te fazem lembrar que não estás sozinho e ainda te pode ensinar tanto sobre a vida. Pode conferir-te uma consciência social muito rica. A música é multi-disciplinar - tens desde música que serve de papel de parede e que te acompanha quando dás um último penteado ao cabelo num elevador, até música que te mostra o quão complexo é o sistema económico mundial. Por norma a música é a arte mais unânime. Todos se reconhecem facilmente nela.


Se um escritor pegasse no teu disco, 1975, e decidisse escrever um livro, que história é que achas que inspiraria?
A história de um puto meio perdido no mundo, a dar conta da regulamentação do mundo; das normas pelas quais não deseja reger a sua vida; dos cânones sociais que são vigentes e que não se adequam a grande parte dos seus princípios; do superficial e do falso. A história de como ele, nessa conjuntura, contorna o que não quer, em busca de um qualquer sonho só dele.  


Tens hábitos de leitura? Algum autor preferido?
Já li mais. Sou uma das vitimas da distracção constante. Leio em viagem. Adorava filósofos dos fins do séc XX. Debord, Foucault, Lipovetsky, Paul Virilio... Adoro, claro, biografias de músicos e alguns romances pseudo-leves – Coupland, Hornby etc – e até curto alguns daqueles bestsellers de natal, sobre anjos, demónios e petróleo.   


Viajas imenso. Tens algum destino preferido? 
América latina. É um misto de gastronomia incrível, pessoas maravilhosas, aventura e risco.
Adoro a Moldávia também. Nunca percebi porquê, mas sinto-me em casa por lá.


Qual a tua conjugação de prato-bebida preferida?
Tacos Pastor e Horchata. Adorava que houvesse este menu em qualquer tasco em Portugal.  


Por último, que mensagem podes deixar aos leitores do Morrighan?
Amem-se.

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