Entrevista aos Los Waves, Banda Portuguesa

Foi no início de Outubro que tive acesso ao disco This is Los Waves, So What? (podem ler a opinião AQUI ) e confirmei a minha redenção à m...

Foi no início de Outubro que tive acesso ao disco This is Los Waves, So What? (podem ler a opinião AQUI) e confirmei a minha redenção à música de Los Waves. No carro, então, o disco já tocou dezenas de vezes e é das melhores companhias para momentos de pausa. De nome, já os conhecia há alguns meses, muito por causa das músicas How Do I Know ou Got a Feeling, mas a curiosidade em saber mais sobre o seu percurso foi inevitável e aproveitei a sua ida ao Arraial do Técnico para conversar um pouco com eles. Podem ser jovens, mas já contam com a sua marca em bandas sonoras de séries televisivas bem conhecidas e agora têm, finalmente, a oportunidade de lançarem o seu primeiro disco de longa duração. Tendo começado em Inglaterra, mas estando agora fixos em Portugal, eles falaram sobre como tudo começou e como tudo decorreu até agora. Dia 13 têm o concerto de lançamento no Sabotage Rock Club. 

Fotografia Sofia Teixeira

O início dos Los Waves começou muito antes dos EPs ou do LP com o projecto League. Ainda antes de esse nome se estabelecer, Jorge da Fonseca e José Tornada tinham decidido fazer música electrónica: «Eu e o Jorge já fazemos música desde os nossos 15/16 anos. Tocávamos covers de Nirvana na altura e fomos tendo vários projectos. Chegámos a ter um que era tipo Kings of Convenience e depois passámos para um de música electrónica porque gostava muito de Justice. (risos)»
«A verdade é que percebemos que não tínhamos nada a dizer nas letras que eram mais sérias e achámos que tínhamos de viver mais. Lembro-me desta conversa num restaurante onde estávamos a comer uma francesinha, e não tínhamos letras porque ainda não tínhamos vivido nada. Precisávamos de viver mais coisas e então a nossa resolução para isso foi ir a festas de electro (risos) e começámos a fazer esse estilo de música.» (Jorge)
«Sim, estivemos um ano a fazer música electrónica e DJ Sets, mas depois pensámos que aquilo realmente não tinha jeito nenhum. Começámos então com League em que utilizámos parte de coisas gravadas que já tínhamos, mas não sabíamos muito bem o que queríamos fazer com aquilo. Ao início era quase electro-pop-dançável, tipo Crystal Castles. Depois acabámos as primeiras três ou quatro músicas, colocámo-las no MySpace e passado uma semana fomos contactos por agentes, promotoras e editoras de Inglaterra. Então passadas duas semanas mudámo-nos para Londres. Estivemos lá dois anos, tocámos muito, comemos bastante fried chicken (risos) e depois voltámos para Portugal. Bem, isto está a ficar alta biografia!» (José)
«Se é para fazer a biografia então estás-te a esquecer de algumas partes importantes, como por exemplo termos ficado sem dinheiro em Inglaterra e tivemos de voltar para cá. Já estávamos a viver na rua.» (Jorge)


É aqui que eu interrompo, já meia tonta com as voltas que a vida dá e lhes pergunto como é que aconteceu terem ficado sem dinheiro e o que é que faltou para vingarem por lá.
«As coisas lá são muito caras, manter uma renda e viver lá é caro. As poucas pessoas que estão lá nesta situação em que nós estávamos - em que a música nos ocupava grande parte do dia, tinhamos ensaios e tínhamos reuniões numa estrutura já muito profissional - no máximo encontram um part-time e isso não nos dava o suficiente para pagar a renda e os transportes, etc. As restantes pessoas ou são de lá e/ou têm lá familiares e suporte financeiro como sponsors ou são ricas. E nós não nos encaixávamos nessas condições.»


No tempo em que lá estiveram, lançaram o seu EP, Got a Feeling, que só há pouco tempo passou a ser conhecido em Portugal: «Nem sequer divulgámos as coisas cá porque estávamos mesmo focados lá. Só quando decidimos voltar para cá é que nos apercebemos que havia um mercado cá, acho eu, e que podíamos divulgar o nosso material cá. Viemos e passados uns meses o EP saiu pela Optimus Discos, enquanto League, e foi o início do nosso percurso por cá.»


Fotografia por Sofia Teixeira
É nessa altura que o Bruno entra para os Los Waves, ainda League, e se junta ao José e ao Jorge, havendo então a transformação do nome: «Nesse ano fizemos logo alguns festivais, Milhões de Festa e Paredes de Coura, entre outros, e no fim desse ano, 2012, decidimos mudar de nome. Muitas pessoas nos diziam que ouviam a nossa música na rádio e depois não nos conseguiam encontrar. Pensavam que o nome League era de Ligar, Ligue! (risos) Achámos que estávamos a perder alguns fãs e decidimos mudar o nome. Mas é basicamente a mesma banda e as mesmas músicas.» O nome veio de uma lista de várias palavras que foi colocada num programa word combiner e daí surgiu Los Waves.


Da primeira fase inicial mais electrónica ao disco, a sonoridade mudou um pouco, transparecendo agora um pouco de rock e outras influências. Perguntei-lhes se foi uma mudança propositada ou natural: «Foi propositada e natural ao mesmo tempo porque começámos a apercebermo-nos, através dos concertos, que o rock puxa mais pelas pessoas. Começámos a inserir as guitarras nas músicas que tinham essa roupagem electrónica e a pouco e pouco fomos mudando o registo.» Em termos de público, perguntei-lhes se a intenção era também abrangerem mais pessoas, dos diferentes géneros: «Nós nunca conseguimos captar um público muito específico. Em todas as fases, o tipo de pessoas que gostava das músicas abrangia muitos géneros. Nunca nada de muito alternativo, porque a nossa música tem aquela vertente mais canção e comercial que faz com que pessoas mais velhas gostem, mas nunca foi uma coisa que pensássemos - agradecer a um tipo específico de público.»


Gossip Girl e Criminal Minds são duas séries nas quais as suas músicas apareceram. Dadas estas experiências fora de Portugal, perguntei-lhes quais as maiores diferenças, para eles, entre ser músico cá e lá fora: «O ambiente em Londres era talvez um pouco mais inspirador. Dava-nos outro ritmo para fazer música, mas também estávamos lá noutro contexto, a dar tudo por tudo. Havia sempre muita coisa a acontecer todos os dias, até os sítios onde ensaiávamos, ensaiavam outras bandas e interagíamos muito mais, como os Yuck ou os Cat Size. Era um ambiente, nesse aspecto, mais vivo. Mas se calhar cá é mais fácil criar outra estrutura e chegar a mais pessoas, no sentido que lá há tantas bandas e tanta oferta que é mais difícil sobressair.» Questionei-os se cá já se sentiam então a chegar a esse maior número de pessoas: «Sim, mas é complicado. Acho que estamos num ponto importante em que a partir daqui as coisas podem ou estagnar ou então ganhamos alguma notoriedade. Com este álbum vamo-nos aperceber disso. Mas é difícil porque nós não nos enquadramos num género específico e este meio caracteriza-se muito por géneros. Essa tem sido a maior barreira, cá e lá fora.»


Fotografia por Sofia Teixeira
Posto isto, voltei ao This Is Los Waves, So What? e abordei a concepção do mesmo e que possíveis intenções poderiam haver atrás do álbum. Se houve intenção de conjugar as letras com a sonoridade, se existe alguma temática ou mensagem a ser passada, eles explicam: «É engraçado, nunca ninguém nos tinha perguntado pelo conteúdo das letras, talvez porque à partida o som que é faça as pessoas pensarem que é música ligeira e que não fala de nada em específico. Mas nunca ninguém nos fala delas e do que abordam. A questão é que nas letras falamos de coisas bastante sérias. Metade dos temas tem uma vertente mais pessoal de emoções e relações, que são os temas mais recentes e mais rock. (risos) Deve estar tudo ligado. Os temas mais antigos são coisas mais de viagem, metafísicas, existências, holísticas, bastante sérias até. Já falámos sobre isso, que não percebemos muito bem de onde as letras vieram, mas depois de estarem escritas fazem todo o sentido. É um bocado estranho perceber de onde é que aquilo veio e às vezes até brincamos a dizer que é possessão (risos).» Dando alguns: «Faixas como a Golden Maps, que é das mais antigas, vai mais na corrente da descoberta. É difícil descrever por palavras. Essa música apareceu-me como mapas para o sol, mapas para o sol mapas para a luz, mapas para a luz mapas para a espiritualidade, para a iluminação, etc., por exemplo. E a música fala disso, dessa viagem de descoberta pessoal. A Strange Kind of Love, por exemplo, as pessoas não percebem o que é. É uma coisa abstracta, metafísica, fala de uma espécie de uma força que nos pode estar a guiar, não é sobre ninguém. A Your World é uma coisa mais urbana, a ver mais com relações. Tem uma balada que também é relações, é isso.» Na minha opinião do disco, todas estes factos foram evidentes para mim e o que me surpreendeu mais foi a forma intimista como muitas músicas estavam construídas.


O disco saiu no dia 20, mas antes disso deu-se a entrevista e na altura perguntei-lhes que expectativas é que tinham para o álbum tanto da parte de quem o ouvir por ouvir como por parte da imprensa: «Achamos que as pessoas que ouviram apenas as músicas lançadas até agora, vão-se aperceber que o álbum é muito mais rico em termos de singles do que só essas músicas e vão reparar, provavelmente, que vão ter várias músicas preferidas e não apenas uma ou duas. Achamos que também se vão aperceber desse lado mais íntimo que falavas, não somos só uns gajos que fazem rock, somos mais músicos que isso. Até mesmo no sentido da imprensa falar sobre isto. Por exemplo, quando ouvirem a Belong, acho que se vão surpreender e pensar que a música é de outra banda.»


Fotografia por Sofia Teixeira
A actividade musical em 2012 foi intensa, 2013 foi mais calmo e agora em 2014 voltaram a ter um ano super activo em termos de concertos. Aligeirando a conversa, perguntei-lhes que concertos é que os tinham marcado mais: «Eu (Jorge) gostei de um em Londres, que se chama Buffalo Bar, em que estavam lá quatro pessoas (risos) a comer tostas mistas. Acho que foi aquele que mais gostei (risos). Por cá o da Vodafone Mexefest, no autocarro, foi muito divertido. gostei muito de um da semana académica de Peniche em que as únicas pessoas que estavam lá eram das tunas e não nos deixavam cantar porque estavam a cantar as suas músicas (risos).» «Mas o Bons Sons, o Indie Music Fest também foram bons concertos.» (José)


Para terminar, perguntei-lhes como é que viam o seu futuro, dado o passado mais instável. «Nós cá, em Portugal, logisticamente, estamos 1000% mais bem preparados que em Londres. Temos um estúdio ao qual podemos ir todos os dias, temos um auditório para ensaiar e todas as condições técnicas necessárias. Estamos a utilizar um centro de juventude e vamos lá mesmo como se fosse um local de convívio. Não precisamos de estar a pagar por hora de ensaio, não temos restrições de horários... Estamos muito bem.» Ao nível dos media, as rádios já passam as suas músicas, a televisão mostrou interesse, mas chegámos à conclusão que a nível televisivo a oferta de programas sobre música também não é muita. 


A nível de concertos de lançamento do álbum, eles estão aí: Dia 13 de Novembro no Sabotage Club em Lisboa, dia 14 no Maus Hábitos - Espaço de intervenção Cultural no Porto e dia 15 no Texas Bar em Leiria!


É comprarem o disco e seguirem! :)


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