Entrevista a Bruno Pernadas, Músico Português

Foi apenas em Março deste ano, 2014, que descobri este fantástico músico. Bruno Pernadas lançou o seu primeiro álbum - How can we be joyful...

Foi apenas em Março deste ano, 2014, que descobri este fantástico músico. Bruno Pernadas lançou o seu primeiro álbum - How can we be joyful in a world full of knowledge - por essa altura e desde então que sigo atentamente o seu percurso. Aproveitando a sua passagem pelo MAGAFEST, festival organizado pela Inês Magalhães, estivemos à conversa não só sobre o seu disco como também sobre o seu outro trabalho -  L’appartement - que iria fazer parte da sua actuação no festival. O meu muito obrigada à Inês por ter disponibilizado a sua sala, base das MagaSessions, para estas sessões de entrevistas. Fiquem então com a entrevista ao nosso grande Bruno Pernadas.

Fotografia por Vera Marmelo
«E! Olha que vai demorar... (risos)» Foi neste tom bem disposto que a entrevista começou depois de lhe pedir que me contasse como é que se tinha dado a sua entrada no mundo da música. «Vou tentar ser rápido! Aos 13 anos comecei a estudar guitarra clássica numa escola em Lisboa, em que cheguei ao 5º/6º grau; depois fui para o Hot Club e estudei Análise e Técnicas de Composição de Música Clássica e, por fim, fui para a Escola Superior de Música de Lisboa onde tirei a Licenciatura na vertente de Jazz.» Fora este meio académico, o primeiro contacto musical deu-se através da irmã: «A minha irmã ouvia muita música, os amigos dela ouviam sempre imensos vinis lá em casa e eu acabava por ouvir os mesmos discos que eles ouviam.»


L'appartement, o projecto musical que Bruno Pernadas apresentou no MAGAFEST, não está editado e a cada actuação acaba por se reinventar um pouco. «Esse projecto era uma coisa que eu queria fazer e, em 2008, um amigo meu, o Pedro Lopes, que tinha um programa na Rádio Zero convidou-me para ir lá e foi lá que o apresentei pela primeira vez. Depois disso fui tocando-o esporadicamente. É algo que gosto de fazer, mas não de estar sempre a fazer.» O projecto em si consiste em paisagens sonoras nas quais o ambiente puxa o folk, misturado com algum jazz e música improvisada. «É uma música tonal que vive da forma como os acontecimentos vão surgindo uns a seguir aos outros. Se existe uma manta sonora em determinado momento em que uso discursos de pessoas por cima, isso vai desencadear noutra coisa. O processo é um bocadinho assim – umas coisas encadeiam nas outras. Não se trata de eu ter quatro ou cinco músicas e depois encadeio-as, não, aquilo é uma coisa que mesmo quando estou a fazer as músicas é sempre a improvisar que eu chego a uma conclusão. Só quando chego ao fim é que me tendo lembrar do que é que aconteceu! (risos)» A ideia surge da vontade de fazer algo a solo, algo criativo, baseado em teclados e guitarras: «É um desafio!»


Foi em 2008 que L'appartement surgiu, mas só em 2014 é que Bruno Pernadas voltou a emergir com algo em nome próprio.  «Eu em 2009 gravei um disco de Jazz, de música improvisada, mas que não foi editado. Este disco que gravei, o último, é o resultado de montes de músicas que eu tinha em casa, gravadas, e foi dar vida a essas músicas.» A apresentação de How can we be joyful in a world full of knowledge, contou com a participação de vários outros artistas o que levantou a questão se tudo o que foi mostrado ao vivo já tinha sido gravado pelo Bruno: «A maior parte das coisas sim, as outras estavam escritas. Eu não sei tocar sopros e o disco tem arranjos de sopros. Não gravei, mas escrevi e sabia mais ou menos como ia soar quando convidei as pessoas para gravar.» A grande apresentação deu-se no Teatro Maria Matos em Lisboa, que reuniu outros onze músicos e outra aconteceu nos Jardins Efémeros onde participaram nove. Levar todos os músicos numa só actuação nem sempre é fácil: «É possível fazer com menos músicos, fica diferente, mas quando não há mais dinheiro... Neste projecto existe um mínimo que quero oferecer aos músicos, é o que acho justo pelo que fazem nos concertos e por isso nunca baixo esse valor.Só me apercebi do quão complicado poderia ser ao vivo já depois de ter tudo idealizado. Quando cheguei ao Maria Matos tive de adaptar tudo e houve coisas que tirei, outras que pus, mas no fim foi muito giro.»


Em relação ao título do disco, Bruno Pernadas prefere não falar sobre ele: «É melhor não... (risos) O disco traz um livrinho, tem uma capa, tem a frase, as pessoas ouvem e pensam naquilo que quiserem pensar. Posso dizer que há pessoas que tiram a conclusão que a música é a resposta à pergunta. Há outras pessoas que acham que está relacionada com a internet, mas se a internet não existisse eu continuaria a fazer a pergunta na mesma. Não é nada disso, eu não sou um profeta. Aquilo não é uma pergunta à espera de uma resposta de interpretação. A música serve apenas como pano de fundo para as pessoas pensarem sobre isso. É uma questão física, emocional, do mundo! (risos) Acho eu...» 


Virando novamente o foco para o seu trabalho musical ao longo dos últimos anos, tendo em conta todas as colaborações que têm sido feitas, Bruno Pernadas falou-nos um pouco sobre o porquê do Jazz como o seu género de eleição: «O Jazz tem imensas ferramentas importantíssimas na música. Para mim permite desenvolver campos musicais que os outros géneros não permitem e nem sequer existem no mesmo sítio. O Jazz tem a componente da harmonia que pode ser expandida, a componente melódica que é muito forte, a improvisão livre, a estrutura, a não-estrutura... Eu acho que o Jazz abre muitas portas para outros estilos de música e para a criação.» Entre a estrutura e o improvisação, não existe preferência, mas facto é que se o Jazz não existisse «toda a música no mundo seria diferente».  A nível de influências artísticas, a relação da música com o cinema é algo que apraz Bruno Pernadas: «Cassavetes, James Gray, Paul Thomas Anderson, entre outros, são realizadores que me agradam.»


Em relação a outros projectos de Jazz que fazem parte dos gostos de Bruno Pernadas, este falou-nos da Andromeda Mega Express Orchestra: «Gosto muito do compositor, ele tem essa orquestra com músicos de todo o mundo e, por exemplo, em Portugal aquilo seria impossível. Os membros acreditam mesmo no compositor, eles são muito amigos, mas a música é super complexa, mega difícil de executar. Eles fazem coisas muito giras, como terem drones durante os seus concertos. Também são curadores de um festival de música, dentro de umas piscinas que já não são usadas. É muito giro. Normalmente as pessoas pensam que quando vão a um festival de música improvisada que é só música improvisada, mas ali não, tens música improvisa, peças preparadas, reportório de música contemporânea... É uma mistura de vários género, mas que não limita a criação.»


A nível de projectos futuros, promover o disco é algo ainda em mente, mas dadas as limitações financeiras, muitas vezes, dos espaços, não é fácil levar todos os músicos para fazer um espectáculo completo. «Com o dinheiro que têm de dar para este projecto, para terem os onze músicos, se calhar preferem levar quatro ou cinco projectos de duas ou três pessoas... Acho que é essa condição que pesa na decisão dos programadores. Mas como eu não tinha expectativas nenhumas em tocar o disco ao vivo, ter feito dois espectáculos já foi bom. Também houve outros festivais que mostraram interesse, mas quando ficou pronto já estava demasiado próximo das datas. Quem sabe para o ano.» E no estrangeiro? «Tens que ter um booker lá fora. Se lhes quiseres enviar um mail, eles recebem às toneladas deles, só de manhã. E muitos são de coisas horríveis. Tens que ter um contacto que te possa dar essa ligação. Outra coisa é que quando tentas ir lá para fora, pedem-te citações de imprensa do estrangeiro. Eu cá tenho, felizmente, mas lá fora não tenho. E eles vão pedir reviews da Europa. É difícil. Principalmente por ser um tão grande número de pessoas.» 

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