Entrevista a Vera Marmelo e Luís Martins, Fotógrafos Portugueses, a propósito de Convite

Existem iniciativas e projectos que é impossível não admirar. O que seria do mundo sem a fotografia? O que seriam das nossas memórias, de t...

Existem iniciativas e projectos que é impossível não admirar. O que seria do mundo sem a fotografia? O que seriam das nossas memórias, de tudo o que já foi vivido? O que seria da própria história sem estes registos? Mas, para mim, há duas perguntas que se impõem ainda com mais intensidade... O que seria da Música sem a fotografia? O que seria da Fotografia sem a música? Quem segue o blogue sabe que, de vez em quando, gosto de ir aos concertos, com a minha 450D e a 50mm, registar alguns momentos, aqueles mais intensos, que transmitem o que sinto enquanto os ouço. A inspiração? Bem, a Vera Marmelo sempre foi uma, sem dúvida alguma. Sigo o seu trabalho desde o início deste ano, que foi quando a descobri, e é impossível não ficarmos deslumbrados com a sua capacidade de numa fotografia conter uma narrativa inteira, por vezes complexa, por vezes apenas directa. Recentemente, juntou-se a outro "companheiro de guerra", o Luís Martins numa iniciativa a dois. Ambos são fotógrafos "residentes" da ZDB e muito têm vivido lá. Ao comemorarem os 20 anos da ZDB, lançaram o Convite, um projecto fotográfico conjunto que confere uma maior riqueza tanto ao espaço como ao mundo fotográfico e musical. É dessa experiência conjunta que esta entrevista se trata, mas também das suas experiências e visões enquanto fotógrafos. Só posso agradecer à Vera e ao Luís o tempos despendido para poder partilhar este momento especial convosco. 




Olá Vera e Luís! Contem-nos, como é que foram parar, pela primeira vez, à ZDB? 
Vera: Fui levada por amigos do Barreiro. Fez neste mês de Outubro 10 anos que lá entrei pela primeira vez, numa matiné, para ver os Vicious Five.
LuísA primeira vez que entrei na ZDB foi para ver o lançamento do primeiro álbum dos Vicious Five. E foi amor à primeira vista. Descobrir aquele espaço em Lisboa foi muito importante e rapidamente se tornou num hábito entrar no Aquário.


Ainda se lembram da primeira vez que se encontraram? 
Vera: Não consigo precisar uma data. Mas deve ter sido, das duas uma, no Teatro Maria Matos ou mesmo na ZDB. Partilhamos amigas antes de nos conhecermos e foi através delas, de máquina na mão, que nos encontramos.
LuísDeve ter sido certamente na frente do palco. O momento em particular não me lembro, mas sei que conhecia e gostava do que a Vera fazia. Entretanto acho que começámos a falar mais por intermédio de uma amiga que temos em comum.


Fotografia por Vera Marmelo


Qual o concerto mais memorável, na ZDB, que guardam convosco? 
Vera: Eu tenho mais que um. E só neste fim de semana já arranjei outro. Mas apontarei o primeiro concerto do Rodrigo Amarante. Pela intensidade daquela noite. Pelo desarranjo emocional que senti e que me impediu de fotografar durante uns primeiros momentos.
LuísEssa pergunta é mesmo muito complicada de responder. O concerto de Animal Collective foi muito marcante. Mas os que acabam por ficar são aqueles que vou à descoberta e sem grandes expectativas. Foi assim que ouvi pela primeira vez o Norberto Lobo, Fuck Buttons ou até o Rodrigo Amarante.






Fotografia por Luís Martins
Quão importante foi a ZdB para a vossa evolução enquanto fotógrafos?
Vera: Não é a sala mais luminosa de sempre, portanto ganhas algum calo para situações mais difíceis. A comunicação e interacção com os músicos é tão fácil no espaço, que isso me trouxe uma maior confiança quando abordo um desconhecido para o fotografar. É verdade que plataformas como o Facebook da ZDB, onde as nossas fotografias vão sendo partilhadas, também nos garante alguma visibilidade.
LuísÉ importante a  dois níveis. De um ponto de vista técnico, é complicado fotografar na Z. A luz não é muita e isso faz que com a mão fique mais firme a fotografar e acabas por arranjar soluções “criativas” para situações complicadas. Por outro lado também foi uma educação do olhar. A escala dos concertos, a distância aos músicos e a própria relação que se cria com o espaço é formativa na forma como fotografo.


Muitas têm sido as personalidades que têm fotografado, desde nacionais a internacionais. Algum episódio mais atípico ou engraçado que gostassem de partilhar? 
LuísA Vera terá certamente resposta para esta e eu nem por isso. Ela vive há muito tempo e de forma mais intensa os momentos, pré e pós concerto. Acabo por estar mais presente nos concertos e nessa altura o meu objectivo é passar o mais despercebido possível. Mas nem sempre é possível. Lembro-me de um concerto de Dead Combo da série de 4 que eles fizeram recentemente e de estar a fotografar em cima do palco escondido atrás dos amps. O Pedro descobriu-me a meio do concerto e meteu-se comigo.
Vera: Fui mandada embora do ensaio de som do primeiro concerto do Cass Maccombs na ZDB. Desde então que embirro com o senhor. E recusei-me a ir ao concerto surpresa que deu este ano.


Passados todos estes anos a fotografar na ZDB, decidem lançar um livro conjunto – Convite. Qual a vossa maior motivação para o fazerem? 
LuísO livro surge do convite da Vera. Depois do livro do ano passado, ela tinha vontade de fazer algo sobre a ZDB. Convidou-me para fazer parte e disse logo que sim. Com os 20 anos é uma prenda bonita que nós damos. Paralelamente dá-me muito gozo ver as fotos saltarem do digital para o tangível. Dá-lhes uma nova vida.
Vera: Tenho duas: ver as coisas em papel e tê-las na mão. E uma vontade absurda de querer fazer parte da festa, da celebração dos 20.


O que é que Convite traz para quem o adquirir? 
Vera: Retratos feitos na ZDB e fotografias dos concertos que aconteceram na sala da Rua da Barroca ou noutro local, mas programado pela ZDB.
É um livro feito a duas mãos e por essa razão cruzam-se muitas vezes fotografias dos dois.
LuísNão pretendíamos fazer um compêndio completo de concerto nem um documento histórico. As fotos acabam por ser as nossas favoritas e dos concertos que mais nos marcaram. O Convite está algures entre um diário e um best of.


Enquanto fotógrafos, acham que o vosso trabalho se complementa? De que forma é que a presença um do outro vos afecta enquanto fotografam? 
Vera: Cada vez mais estamos convencidos que sim. Mais no sentido em que o Luís gosta mais de planos abertos e eu de fechados. Eu gosto dos retratos, ele é dado a imagens de salas cheias. Eu apanho a fila da frente, ele os detalhes que estão mais longe de nós.
E também o material que usamos é diferente e a abordagem também.
Isto acaba por ser maravilhoso, se pensarmos que há uma maior variedade de imagens.
A presença de outros fotógrafos não me afecta em nada, nem à forma como os dois nos movimentamos.
Luís: Sim. Embora haja abordagens semelhantes, eu e a Vera procuramos coisas diferentes. Em escala, em distância e até no próprio tratamento das fotos. O que acaba por ser semelhante é a postura para com quem fotografamos, o público e até o espaço. 
Dito isto, a forma como a presença da Vera afecta as minhas fotografias acaba por ser quase funcional. Eu sei o que ela vai procurar e sei o que ela faz melhor do que eu. Nesses momentos sinto-me mais à vontade porque sei que o momento vai ser ricamente documentado entre os dois.


Esta colaboração entre fotógrafos, em Portugal, é algo rara. Acham que a vossa iniciativa pode vir a mudar isso?
Vera: Não sei se será assim tão raro. Mas a verdade é que estou longe de estar bem informada sobre o que se vai passando. Se me perguntasses sobre músicos a colaborar saberia responder de imediato.
Acho que temos uma abordagem muito parecida à fotografia e à maneira como vestimos a camisola de fotografo também é muito leve. Talvez por essa razão nos seja muito fácil ceder e juntar trabalho.
LuísEmbora o espaço seja o mesmo não sentimos que estamos em competição. Claro que estou atento ao que a Vera faz e que há concertos que lhe correm melhor e momentos que ela vê que eu não consegui chegar. Mas tenho a certeza que o contrário também acontece. Colaborações são raras, mas isso se calhar vem de uma atitude semelhante e de gostarmos o que cada um faz. Quanto a outras colaborações, não sei se este livro muda alguma coisa. Mas sei que prefiro estar nesta aventura do Convite com a Vera do que sozinho.

http://convitezdb.tumblr.com/
Para vocês, o que é que é mais importante que as vossas fotografias reflictam? 
Vera: A energia ou a paz dos momentos do concerto. Para mim continuará sempre a ser um álbum de fotografias, de recordações, mas que vai além da tua família e serve para guardar memórias a todas as pessoas que gostam de música.
LuísNão tenho grande pretensão de ser foto-jornalista. Interesso-me por narrativas mas não tenho vontade nem necessidade que sejam objectivas. As minhas fotos são só meu olhar sobre o momento. Subjectivo no enquadramento e no detalhe. E até no próprio arranjo das fotos. Se me identificarem um pouco nas fotos, fico contente.


Consideram a fotografia uma actividade solitária? Ou pelo contrário, abre-vos a porta para o resto do mundo? 
Vera: A mim abre-me ao mundo, conheço quase todas as semanas alguém novo por causa das fotografias. É o que mais me motiva.
LuísJá fui a muitos sítios e já conheci muitas pessoas pela fotografia. Quando estou a fotografar acabo por me fechar um pouco e focar no momento. Dito isto, a fotografia é uma óptima desculpa para sair de casa.


É gratificante ser-se fotógrafo em Portugal? Acham que se dá o devido valor a quem tanto tempo dedica a registar tantos momentos especiais?
Vera: Não penso sobre isso. Procuro dedicar-me a registar momentos especiais de pessoas que sei que vão valorizar o que estou a fazer. Assim nunca falha.
LuísNão me é muito importante que seja. Gostava muito de ter espaço em Portugal para desenvolver ideias que se calhar sinto que não conseguem existir. Mas sempre que pego na máquina, mesmo quando estou a fazer um favor, há um pouco de egoísmo no gesto. Fotografo porque quero fotografar. O resto, não ligo muito.


http://convitezdb.tumblr.com/
As vossas fotografias não contém marcas de água. Porquê essa escolha? Os créditos não são uma preocupação? 
Vera: Acho que é muito mais bonito chegarmos a um ponto em que nos reconhecem as imagens sem precisar de marcas. E na verdade quando as vejo a serem usadas fico muito satisfeita. Tenho também a sorte de quase toda a gente referir quando a fotografia é minha.
Luís: Sempre que utilizam fotos minhas os créditos são fundamentais. Mas a marca de água é uma distracção demasiado grande. Quando colocas texto numa imagem isso informa o olhar. Gosto da foto pela foto.


Alguma vez tiveram de lidar com roubo de direitos/apropriação indevida?
Vera: Nunca. No passado ainda me dava ao trabalho de pedir créditos ou de enviar um mail chato a um jornalista que os esquecia. Hoje em dia nem quero saber. Não vou ficar mais feliz por ter o nome ao lado da imagem. Na verdade a felicidade vem do momento em que a fiz. É completamente impossível, a meu ver, controlar este tipo de coisas quando expomos o nosso trabalho na internet. Se não quiséssemos ver as fotografias a circular, mais valia ficarmos quietinhos e as deixar longe de websites ou clouds.
LuísCoisas pequenas. Nada que um email não resolva. A maior parte das vezes não é preciso ir muito longe porque o senso comum de indicar quem é o autor da fotografia acaba existir.


Teremos mais projectos a dois no futuro? 
Vera: Não sei. Se ir a concertos juntos confere como projecto. Temos uma série deles.
Luís: É possível que no ano que vem haja algo com mais uma amiga nossa. Mas ainda é cedo para revelar.


A ZDB é uma tradição a manter? 
Vera: Para mim sim. Até que possivelmente um dia, muito naturalmente, lá deixarei de ir ou  me mudo de vez para lá.
LuísSim. Não consigo mesmo pensar na cidade de Lisboa sem este espaço.

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