Entrevista ao Lotus Fever, Banda Portuguesa, sobre o álbum Search For Meaning

Ainda só lhes era conhecido o tema Introspection, quando os descobri. O álbum ainda estava em produção, o querer já era muito e, para mim, ...

Ainda só lhes era conhecido o tema Introspection, quando os descobri. O álbum ainda estava em produção, o querer já era muito e, para mim, uma qualidade promissora inegável já os rodeava. São um grupo de quatro jovens - o Bernardo nas teclas, o Diogo na bateria, o Manuel na guitarra e o Pedro na guitarra e na voz - prontos a mostrarem que o rock ainda tem muito para dar. Acabámos na escadaria do Técnico, comigo prestes a sair para um jogo, e a conversa foi breve, mas divertida. Entre factos e alguma brincadeira, fica aqui o registo com os nossos Lotus Fever.

«Temos respondido a várias entrevistas nos últimos tempos, mas respondemos sempre de forma única! (risos)», foi este o primeiro feedback quando os abordei sobre o assédio das entrevistas nos últimos tempos e que também deviam andar a responder a perguntas repetidas em cada uma. Dada a resposta em tom tão bem disposto, pedi-lhes uma maneira única de me contarem como é que se conheceram e formaram a banda. Depois da dança do "podes ser tu a falar", finalmente o Bernardo começou, muito sério: «Nós conhecemo-nos porque o Diogo estava a fazer voluntariado na Índia. O pai dele é diplomata, foi para lá, e ele estava lá com ele. Depois houve um ano em que eu decidi fazer voluntariado e fui lá ter com ele. Também já conhecia o Pedro e o Manuel, de tocarem juntos há uns anos, e eles foram lá fazer-me uma visita. Quando chegaram, acabámos por nos encontrar todos e como o Diogo já conhecia melhor a zona, fomos fazer uma espécie de Safari. Foi então que apanhámos uma espécie de doença, a Lotus Fever (Febre de Lótus). Tivemos febre, ficámos em casa uns tempos e foi aí que começámos a tocar algumas coisas todos juntos. Tínhamos um nome diferente, antes, mas depois lembrámo-nos dessa história e achámos que passava bem a imagem que queríamos passar.»


Hajam histórias realmente originais, para os mais crentes, fica até a origem do nome da banda explicado. Na verdade, o Diogo foi o último a entrar na banda e antes deste disco já havia trabalho feito pelos outros três: «Nós já tínhamos várias coisas compostas, mas tudo sem bateria. Quando o Diogo se juntou, começámos a compor as primeiras coisas com bateria. As primeiras cinco música que compusemos acabaram ser as músicas do EP que depois lançámos em 2012.» (Note-se que o EP já foi lançado cá em Portugal e não na Índia!)


Esse foi o ano de arranque dos Lotus Fever, em que, inclusive, ganharam alguns prémios que também serviram de incentivo para que o projecto seguisse em frente, mesmo a sonoridade tendo mudando notoriamente. Essa mudança acabou por ser natural: «Começámos a ouvir mais música, tivemos acesso a mais material, o que faz sempre diferença, que nos proporcionou experimentarmos outras coisas. Mas foi isso, ouvir muita música, praticar mais e assim chegámos ao que conseguimos fazer. No EP tínhamos começado a tocar juntos há pouco tempo e não havia ainda a química suficiente ao tocarmos juntos. Antes, cada um ouvia os seus discos, hoje partilhamos os discos que ouvimos e acabamos por ouvir todos bastante do mesmo, mesmo cada um tendo depois as suas próprias influências. Acabámos por encontrar um campo que todos gostávamos, e queríamos trabalhar, e que com mais um bocadinho daquilo e mais um bocadinho do outro, foi tomando forma para o que é agora o álbum e para aquilo que queremos fazer.»


A composição é feita a quatro, as letras são pelo Pedro, mas a origem das mesmas é algo que ele não consegue explicar muito bem. Neste contexto, há algo que me tem, particularmente, fascinado que é a componente conceptual não só do Seach For Meaning como também logo do primeiro single Introspection, cujo próprio vídeo conta uma história: «Desde cedo que achámos que poderíamos ter um álbum conceptual, foi uma ideia que, como muitas outras, foi sendo trabalhada, não era definitiva desde o início, mas apercebemos-nos que era bastante viável. Acabámos por escolher precisamente a Introspection por acharmos que poderia ser a temática do álbum. Todas as letras do álbum acabam por ter algo em comum.»


O percurso tem sido curioso, mas também de notar. Acompanhando vários inícios de bandas como acompanho, não estranho um certo hype que tem havido à volta da banda. Com dois anos de experiência juntos, um processo de crowdfunding para o lançamento da edição física do disco e uma aceitação bastante boa desde início, o querer da banda é evidente. Voltando um pouco atrás e ao processo de crowdfunding, eles explicam-nos o porquê desse método: «Foi um misto de opção própria com também falta de meios monetários. Na altura, o nosso manager, o Ricardo, mostrou-nos a plataforma PPL e alguns projectos que tinham sido financiados e achámos aquilo incrível. Fomos muito bem recebidos. É claro que sempre trabalhámos para aquele valor e sempre acreditámos que seria possível fazê-lo, mas ao mesmo tempo improvável. Só nos últimos dias é que acreditámos que talvez fosse mesmo acontecer. Esforçámo-nos muito, desde o trabalhar melhor a nossa imagem à comunicação com o público. Termos o dinheiro todo no fim foi um bocado surpreendente porque pronto - aconteceu! Até porque em Portugal isto ainda não faz parte da nossa cultura. Nos Estados Unidos e noutros países, talvez fosse uma coisa natural, mas em Portugal não tanto. Mas, resumindo, foi muito bom.»
Se o crowdfunding não tivesse o final feliz que teve, o feedback foi peremptório: «Arranjávamos maneira de fazer acontecer. O álbum tinha que sair. Como, teríamos de ver, mas ainda bem que não temos de pensar nisso agora.»

A prova do crime. Eu toda desportiva, pronta a partir para um jogo! 

Dados os tempos que correm, e as opções de muitas bandas, perguntei-lhes se a edição física era algo assim tão essencial para uma banda, ou se só a edição digital poderia ser suficiente: «Acho que na nossa música faz sentido ter a edição física. Não temos a ilusão de que os discos vão dar dinheiro, até porque pouca gente os compra, mas todos nós gostamos de ter o disco em cd e mesmo a parte gráfica foi toda pensada em termos da edição física. Para nós era importante termo-lo na mão, podermos andar com ele e mostrá-lo.» Eu, confesso, sou amante de edições físicas, então quando são originais é algo que realmente me conquista. É mais ou menos por esta altura que eles amavelmente me oferecem uma edição física, mesmo eu já tendo ouvido sem conta em digital, e desde então, por exemplo, o disco nunca mais saiu do carro. Tenho-vos a dizer: está uma edição mesmo muito bonita. Vale a pena descobri-la.


Apesar de serem um grupo muito jovem, todos estes factores que fui abordando ao longo da conversa, e mesmo o grafismo do site e a forma como as redes sociais são geridas, mostram uma maturidade considerável. Tendo ainda tanto pela frente, para crescer e descobrir, perguntei-lhes, no fundo, que imagem é que querem passar, o que é que pretendem que as pessoas interpretem com as suas músicas e em que género, não querendo ser redutora, é que acham que se encaixam: «Há quem diga que somos Pop-Rock, mas isso é não fazer a mínima ideia do que estão a dizer. Esta explicação pode ser teórica, mas não é música Pop. Não tendo nada contra a música Pop, porque há muito boa música Pop (dizer que Michael Jackson é mau é um crime), mas a nível harmónico e de instrumentação não tem nada a ver com Pop. Rock é, sem dúvida que é, mas o próprio Rock é um termo muito vago. Não gostando de catalogar, mas percebendo a necessidade de o fazer, Rock Progressivo Psicadélico seria a escolha. Progressivo pelas transições, pelas modelações e pelas harmonias, pela própria estrutura da música, que é progressiva - tendemos a ter músicas maiores que os 3/4 minutos tradicionais. Psicadélica porque as bandas que ouvimos, as nossas influências, são dentro desse género, mas podemos ainda ir buscar referências clássicas, por exemplo.»


A nível de influências: «Posso-te dizer que vinha a ouvir o Animals agora no carro, dos Pink Floyd! (risos) E eu Led Zeppelin! Mas as referências são todas mais antigas, anos 60, Beatles, Pink Floyd, Tame Impala, Radiohead. Mais, muita gente ficou espantada que gostávamos de José Cid, mas é verdade. Do José Cid a sério, dos 10 000 anos.»


Para quem quer seguir esta malta e descobrir a sua música pode fazê-lo através do facebook ou do seu site. Deixo-vos os links e o vídeo para a fantástica Instropection e o leitor do Spotify. A minha preferida, acho que continua a ser a Collapse!


Facebook:

Site:

No Morrighan:



0 comentários