Entrevista a Pedro Galhoz (Pedro e os Lobos), Músico Português

Pedro e os Lobos é um projecto do músico português Pedro Galhoz que em Outubro de 2014 viu um novo disco a ser lançado - Um Mundo Quase Per...

Pedro e os Lobos é um projecto do músico português Pedro Galhoz que em Outubro de 2014 viu um novo disco a ser lançado - Um Mundo Quase Perfeito. É um disco com muitos convidados e que também ele próprio convida o ouvinte a percorrer intensos acordes de guitarra, vozes sonantes e letras que dão que pensar por caminhos por vezes límpidos, outras vezes obscuros, apelando aos clássicos Blues. É um disco frio na sua conceptualidade, mas quente na sua sonoridade, e foi sobre ele que convidei o Pedro Galhoz a falar um pouco. O meu muito obrigada pela disponibilidade e simpatia e no final da entrevista encontram o player para o disco e ligação para o Facebook. 


:: Olá, Pedro! Conta-nos, lembras-te do teu primeiro contacto com a música? Quando é que sentiste que era da música que querias viver?
Viver da música é quase como um sonho contínuo e ao mesmo tempo intermitente, é viver dia após dia no fio da navalha, mas decidi querer ser músico inconscientemente, foi crescendo comigo.


:: Porquê a guitarra como instrumento de eleição? Que referências é que trazes sempre contigo?
A guitarra foi um amor à primeira vista, os velhos Blues  bem dos primórdios, dos escravos e das plantações de algodão, os Songwriters Americanos e o Rock mais espontâneo do anos 70 foram sempre a minha grande influencia, poderia enunciar aqui umas dezenas de nomes, mas penso que não vale a pena, o importante é que eles deixaram uma semente musical e eu tento regá-la e crescer enquanto artista.


:: Tiveste outros projectos antes de “Pedro e os Lobos”. Fala-nos um pouco desse teu trajecto, o que mais te marcou e te ensinou.
Comecei nos anos 90 com um projecto chamado LovedStone, banda que assinou pela Valentim de Carvalho ( Norte/Sul), fruto da onda Grunge que era a grande moda da altura, foram os primeiros passos, diverti-me muito, demos muitos concertos éramos jovens ( LOL).
Depois no final dos anos 90 surgem os Plastica, banda que fundei, assinámos pela EMI, fizemos um primeiro disco, depois como nos queriam obrigar a cantar em Português, optámos por editoras mais indies e surgiu  a Discos Liliput de Madrid/Espanha que recebeu a banda de braços abertos, penso que ainda hoje o disco " The red light Undrground" é um disco de referência na onda Indie psicadélica em Espanha.
Foram tempos de verdadeiro Rock n Roll, faz-nos sentir vivos! ( risos), tocamos com grande bandas como os Oasis, The Suede, Sonic Youth, James, entre outros…chegámos também a actuar no mítico The Cavern Club em Liverpool e assinámos ainda por uma editora Alemã, foram tempos maravilhosos de muito trabalho e diversão, temos um verdadeiro mar de histórias para contar, dava um bom romance ( risos).
Sobretudo aprendi a crescer, e perceber que existe um tempo para tudo e que devemos sempre dar o próximo passo sem medo.


:: “Um Mundo Quase Perfeito” é então o teu mais recente disco que conta com várias colaborações. Dado o título e as suas próprias letras, foi pensado como um álbum conceptual?
Penso que essa "conceptualidade" é fruto do momento que atravessamos, sou um observador do que me rodeia, gosto de o ser e são os episódios do dia a dia que me inspiram enquanto escritor de canções.
O facto de estarmos a a perder uma série de valores importantes para a qualidade da condição humana despertou em mim o alerta, quando acordamos e lemos que um terço das crianças portuguesas passam fome, não podemos ficar indiferentes ou se ficamos é porque pactuamos com o regime.
" Um mundo quase perfeito" reveste-se de alguma ironia, a palavra " quase " assume aqui um papel importante, é um " quase " com uma dimensão gigantesca, infelizmente.
As colaborações resultam sobretudo de duas questões, por um lado o facto de eu não cantar obriga-me a pensar sempre em alguém para interpretar as minhas canções, por outro lado cada canção que componho remete para um imaginário e tento convidar pessoas que na minha óptica preencham esse imaginário.


:: Cada faixa foi composta já a pensar no emparelhamento com o músico convidado? Como é que se deu esse processo?
Este é um processo que se prende sobretudo com o sentimento empregue em cada canção e com a letra dessa mesma canção, gosto de convidar pessoas que admiro e que revejo como parte do meu Universo musical.
Cada canção é como uma paisagem que tem os seus elementos bem definidos, cada instrumento e cada convidado são parte da vida dessa paisagem.


:: Todo o disco aborda muito a morte, a sua inevitabilidade, as sombras, o próprio ser humano e as suas idiossincrasias. Qual a origem das letras?
As letras que escrevo são quase sempre fruto de situações que vivi ou que observei, são simples constatações da vida dos seres humanos comuns, gosto de relatar relações humanas, de valorizar coisas nobres da vida como por exemplo o Amor e a Liberdade, a Morte é retratada sem qualquer preconceito e acima de tudo admiti-la como uma inevitabilidade tão natural como o próprio nascimento.


:: Quanto de ti, Pedro Galhoz, é que este disco tem? Dirias que os registos conseguem ser autobiográficos?
Este disco e todo o projecto Pedro e os Lobos tem acima de tudo uma parte autobiográfica na medida em que sou eu o compositor e produtor de todo o trabalho, o facto de produzir as musicas e as letras de forma solitária são por si só uma forma de autobiografia, pois embora aborde múltiplos assuntos, esses assuntos serão sempre uma visão singular do mundo que me rodeia, as letras são a minha posição perante esse mundo e por vezes o fruto dessas vivências na primeira pessoa, não sou um santo e desconfio sempre dos que se apresentam como tal.


:: Ao vivo, costumas ter os convidados todos contigo? Quem vai ver um concerto de “Pedro e os Lobos”, o que é que pode esperar?
O conceito dos concerto é diferente do disco, ao vivo tenho uma banda fixa, com uma cantora também fixa, no entanto há sempre espaço para convidados que não têm de ser obrigatoriamente os do disco, ao longo dos tempos tenho semeado algumas amizades e podem acontecer surpresas quando menos se espera.
Gosto cada vez mais de música orgânica sem recorrer a máquinas ou outros subterfúgios, não gosto de dois concertos iguais, dou muita importância ao estado de espírito e ás emoções, se conseguirmos provocar algum sentimento nas pessoas é porque o concerto correu bem, não somos "enterteiners"!


:: Numa vertente mais pessoal, consideras que é fácil para um artista português disseminar o seu trabalho? Com que olhos é que vês o estado da cultura em Portugal?
Faço música e gravo discos há 20 anos, nunca foi fácil, mas se fosse penso que não teria o mesmo prazer, é a luta que nos mantém vivos.
Sei que somos um país pequeno com sucessivos governos que castram a cultura, que desinvestem no ser humano e que desvalorizam a criatividade.
Cabe a alguns de nós marcar a diferença e liderar a resistência, não me importo de ir à frente nessa batalha, pois não quero que os nossos filhos acabem todos á frente de um televisor a consumir lixo.
Se olharmos para a cultura portuguesa, temos boas referencias em todos os campos, é por esses que nos devemos guiar.


:: Que outras coisas gostas de fazer para além da música? Tenho uma curiosidade em particular, gostas de ler ou tens alguma obra que te tenha marcado?
Para além da música gosto muito de viajar, gosto de cinema, de ler e do mar, não consigo estar muito tempo longe do mar.
Sou fã do Chaplin, do Saramago e do Picasso foram verdadeiros revolucionários.


:: Para terminarmos, dia 26 tocas no Sabotage Club, depois disso, o que se segue?
Para já temos marcado 29 de Janeiro em Castro Verde, 30 de Janeiro em Faro, 7 de Fevereiro no Fundão 21 de Fevereiro em Alcobaça comos A Jigsaw e 28 de Março vamos encerrar o Festival Sons de Vez em Arcos de Valdevez, outras datas surgirão em breve na nossa agenda.


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