Nova Entrevista a Mr. Herbert Quain - Especial Live Acts

Conhecer o Manuel Bogalheiro, aka Mr. Herbert Quain, foi um dos meus pontos altos, enquanto blogger, de 2014. Como tal, e porque acho que f...

Conhecer o Manuel Bogalheiro, aka Mr. Herbert Quain, foi um dos meus pontos altos, enquanto blogger, de 2014. Como tal, e porque acho que faz sentido num espaço como o Morrighan fazer destaques destes, depois de uma primeira entrevista mais conceptual, sobre si e o seu trabalho, desafiei-o não só a criar a Playlist da Quinzena, da primeira quinzena de Dezembro, como também a responder a algumas perguntas sobre as suas perfomances em Live Act. Palcos como o Musicbox e Lux, referências em Lisboa, já contaram com a sua presença e o futuro, esperamos nós, adivinha-se risonho. Num país onde a música electrónica vai crescendo ao seu próprio ritmo, é bom ver que cada vez mais a nossa mente se abre para tanto talento, mesmo que de pouco, ou nada, tenha de comercial. Não tenho grandes dúvidas de que Mr. Herbert Quain para além de ser já uma personagem marcante na literatura mundial, venha também a ser um nome de referência na música por todo o planeta. 



A última vez que conversámos foi no primeiro trimestre deste 2014. Tinhas acabado de lançar o teu segundo LP - Forgetting is a Liability. Na altura ainda não tinhas ganho distância suficiente do mesmo para o conseguires caracterizar ou fazer uma análise sobre o mesmo em comparação com trabalhos anteriores. Passados estes meses, já nos consegues falar um pouco a tua visão do mesmo?
Na verdade acho que não! Continuo a vê-lo como um disco de transição... para algo que, tenho que admitir, ainda não sei exactamente o quê. A experiência dos lives acho que também tem complicado (no bom sentido) esse percurso de transição. Parece-me que, de qualquer forma, e talvez por justamente ser um disco de transição, o consigo ver como um disco mais pessoal em relação ao primeiro.


A tour do álbum passou por Lisboa, Porto e Covilhã. Antes de passarmos a concertos posteriores, queres falar-nos de algum desses concertos em especial? Como foi tocar o teu novo álbum pela primeira vez no Café Au Lait, no Porto?
Tive experiências muito boas nesse pequeno périplo de apresentações. No Café au Lait foi a primeira vez que toquei no Porto e, apesar de alguns problemas com o som, gostei muito dessa noite. Foi também o primeiro live depois do álbum sair e acabou por ser um pouco a celebração disso com algumas das pessoas que mais tinham acompanhado o processo.


Como tem sido tocar, em algumas das vezes, sem a companhia e a parte visual do João Pedro Fonseca? Sem querer desvalorizar o excelente trabalho dele, achas que é um processo natural na progressão do Mr. Herbert Quain enquanto músico? Essa independência completamente a solo?
Não acho que seja um efeito de uma eventual progressão de Mr. Quain. Isso acabou por acontecer por percebemos que para certos contextos, nomeadamente os de club, poderia funcionar melhor assim. Qualquer coisa que assumisse a música pela música. A ausência de imagens acabaria por poder ajudar a uma experiência mais imersiva do público na pista e a uma relação mais directa com a música, sem qualquer mediação. De qualquer forma, mantenho-me próximo do João Pedro e continuamos a discutir ideias sobre possíveis abordagens. Penso, aliás, que, num futuro próximo e no contexto certo, voltaremos a apresentar algo com imagem. Mas queremos que seja especial, que não seja dado como adquirido, como algo que os lives de Mr. Quain tenham que ter.


Fotografia por Nuno Capela

Há pouco tempo, no Musicbox Lisboa, fizeste um live-act a partir do tema "Do Come Home" de The Legendary Tigerman. Como é que surgiu o convite? De onde vieram as inspirações para aqueles 46:46 de música?
O convite foi uma ideia tão corajosa quanto mirabolante do incansável Rui Estêvão: desafiar-me a fazer um live inteiro a partir das pistas de uma única música de The Legendary Tigerman. A peça seria para estrear uma noite no Musicbox curada por ele e pelo Magazino chamada Sala das Bicas. Quanto às inspirações, vieram de muitos lados mas, essencialmente, das próprias pistas dadas pelo Paulo Furtado. Depois de ter fragmentado, invertido, alongado, encurtado, etc, etc, etc, o material original, dei por mim a fazer coisas novas. O resultado final foi juntar essas manipulações numa peça, onde também incluí algumas produções que já tinha, e recriar isso ao vivo. Acabei por ficar muito satisfeito com essa noite e com a reacção de quem lá estava! E, mais uma vez, acabei a agradecer ao Rui Estêvão o convite para um desafio que, inicialmente, pensei como quase impossível!


Seguiu-se o Lux. Um palco emblemático da música electrónica. Sei que se calhar é difícil encontrar palavras para descrever uma experiência como a que tiveste, mas olhando para trás, para esse momento, quais são as primeiras emoções que te abalroam?
Bem, acho que acabaste de utilizar uma expressão que se pode aplicar ao que senti: abalroamento (emocional)! Foi muito especial, depois de muitos anos a ter dançado tanto e me ter inspirado tanto naquela pista. De repente estava do outro lado! É daquelas experiências que, mesmo depois de terem acontecido, não as conseguimos relativizar... continuamos a perguntar “o que é que aconteceu ali?!”


“Foram demasiados anos a ouvir os seus discos (e a tirar tanto deles) para pensar que um dia isto podia acontecer. Mas, quando o imprevisível acontece, não há alternativa se não sabê-lo aproveitar.” Foi assim que anunciaste esta tua ida ao Industria Club, no Porto, em que abriste para o lendário Moodymann. Queres-nos falar desses anos a ouvir os seus discos, do rapaz que eras, e do artista (tu, nos dias de hoje) que subiu ao palco para abrir para uma das suas referências?
Todos temos as fases em que formamos a nossa “família musical”. O Moodymann fez parte da minha desde muito cedo e, como mais alguns, estabelecemos com eles uma relação de reverência. Parece exagerado, mas chegamos a pensar que não são exactamente pessoas como nós, que não nos são acessíveis. Claro que isso é sobretudo uma ilusão de juventude. No entanto, acho que na noite em que toquei antes dele, revivi um pouco dessa ingenuidade que sentia na altura.


Passadas todas estas experiências, a nível de actuações ao vivo, que ambição/desejo é que ainda guardas dentro de ti? Local, artistas companheiros na mesma noite...
Na verdade, sinto-me muito realizado. Em menos de dois meses toquei em cada um dos dois clubes de Lisboa (Musicbox e Lux) onde terei visto mais concertos e djs portugueses e estrangeiros, e ainda tive a oportunidade de abrir para o Moodymann num clube igualmente muito importante. Sendo sincero, há poucos meses atrás, nunca pensaria que isto pudesse acontecer. Quando não se está à espera de tanto, ficamos apenas gratos. Claro que gostaria de testar a minha música noutros contextos ainda. Talvez no de um festival, por exemplo.


O que é que podemos esperar de Mr. Herbert Quain em 2015?
Eu espero que alguma coisa! Provavelmente mais alguns lives e, talvez, alguma música nova.


E já agora, que o Morrighan está quase a fazer seis aninhos e a entrar para a escola, gostavas de lhe deixar uma mensagem?
Que continue o óptimo trabalho feito até aqui, com a mesma curiosidade e vontade com que vai divulgando tanta coisa boa que se faz cá por Portugal!


Mr. Herbert Quain no Morrighan:

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