[Playlist da Quinzena] 1 a 15 de Dezembro de 2014 - As Escolhas de Manuel Bogalheiro (Mr. Herbert Quain)

Memoosh – Shape of Light:  Foi uma das mais agradáveis surpresas de 2014. Dois produtores que já acompanhava há algum tempo, Memotone e...




Memoosh – Shape of Light: Foi uma das mais agradáveis surpresas de 2014. Dois produtores que já acompanhava há algum tempo, Memotone e Soosh, juntaram-se e fizeram um belo álbum que me absorveu desde as primeiras audições. Esta faixa combina uns pianos aparentemente delirantes com field recordings e uma percussão free jazz que parece estar sempre à beira do descontrolo. É daqueles temas com o poder de tanto nos servir para ser a primeira como a última música do dia.

Aphex Twin – Produk 29: O seu legado é incontornável. Aphex Twin voltou este ano com o primeiro álbum em nome próprio depois de 13 anos sem editar. A ter de escolher um tema, destaco este Produk 29. Por trás do que se nos oferece como uma estrutura de hip hop instrumental está aquilo que sempre distinguiu o seu trabalho: a sua capacidade de subverter o que nos parece familiar. Os ritmos estão sempre em metamorfose, os baixos podiam ser de uma faixa de dança à house de Chicago e a expansão dos sintetizadores podia-nos lembrar qualquer coisa fora de moda dos anos 80. A verdade: quando entramos na sua música, nada disto nos interessa.

Acid Pauli – La Voz Tan Tierna: Acid Pauli já é um veterano e passou grande parte da sua carreira a explorar a possibilidade do techno de Berlim ser qualquer coisa que não fosse feito por máquinas. Apenas em 2012 lançou o primeiro álbum, MST. E foi fácil perceber que havia tanto mais mundo em Acid Pauli para além da pista de dança. Este tema, um tributo à cantora chilena Violeta Parra, é dos que continuo a ouvir mais. Tem qualquer coisa de ritualista ou de tribalista mas, quando damos conta, parece ser a coisa mais aconchegante que podíamos ouvir.

Roll The Dice – Assembly: Só descobri esta dupla sueca este ano com o álbum Until Silence. Mas rapidamente se tornou num caso de pequena obsessão. É uma música capaz de rapidamente nos lançar num jogo livre de imagens e de projecções mas que, ao mesmo tempo, é marcada por uma métrica muito forte, uma certa austeridade que parece estar sempre a chamar-nos para onde a peça quer. O final apoteótico de Assembly é o exemplo perfeito disso. Para além disto, paira uma carga histórica neste tema. Como se todo o século XX e os seus traumas pudessem ter sido encapsulados nestes 10 minutos.

Moodymann – Sloppy Cosmic: Os caminhos são sempre percorridos de maneira diferente e os destinos finais poderão sempre continuar a surpreender-nos. Mas sabemos sempre qual é o ponto de partida de Moodymann, sabemos sempre qual é o seu compromisso. Sloppy Cosmic é um desses juramentos. É apropriação que é tributo aos Funkadelic. É uma militância por Detroit que é um comprometimento maior por questões sociais e raciais. É uma ode ao soul e ao funk numa fórmula que já ouvimos tantas vezes mas que Moody sabe como mantê-la irresistível.

Floating Points – King Bromeliad: É um dos suspeitos do costume que nunca me desiludiu. E esta King Bromeliad tem tudo aquilo a que Floating Points nos habituou: sintetizadores a trabalhar em várias linhas, baixos pujantes, quebras, crescendos e um groove, falsamente quebrado que nos impele a movimentos que achávamos que não sabíamos dançar. Há a luz de uma improvisação jazz mas também há o escuro de uma faixa que poderia tocar no fim de uma rave para acalmar as hostes. Não bastando isto, fico sempre na dúvida se estou perante uma obra altamente pensada ou perante algo que poderia ter sido gravado num único take.

Kassem Mosse – Untitled B1: Uma das faixas de pista que mais ouvi este ano. Até pode acontecer que nem se dê muito por ela nos primeiros minutos. Parece relativamente linear até que subitamente entra uma combinação de hi-hats, crashes e um baixo progressivo que nos lança numa jornada verdadeiramente épica. Estão sempre a relembrar-nos que a música de dança deve sê-lo para o corpo e também para a cabeça. Não tenho dúvidas que Kassem Mosse o consegue na perfeição.

Efdemin – Parallaxis (Traumprinz’s Over 2 The End Version): É a faixa de dança mais melancólica do ano. Quando entra um ritmo breakbeat depois da quebra, há ali euforia. Mas é momentânea e já não nos consegue alterar o espírito. Não se sabe muito sobre Traumprinz, também conhecido por Prince of Denmark, tirando que nos tem oferecido alguma da melhor música electrónica dos últimos tempos.

Black Atlass – Jewels: No formato canção, é capaz de ser o meu tema preferido de 2014. Lá em casa, não há vez que não a oiçamos e que não falemos daquela tarola desconcertante sempre a bater ligeiramente fora de tempo. É daqueles temas tão intensos, ou tão dramáticos, que, na verdade, não o podemos ouvir em qualquer momento.

Francis Harris – Dangerdream (How Che Guevara’s Death and Bob Dylan’s Life Millitarized Brigate Ross – Terre Thaemlitz Version): O exercício experimental que mais me impressionou neste último ano. Integra um álbum de que também gostei muito, Minutes of Sleep do americano Francis Harris, mas esta versão, que aparece como bonus track, é de Terre Thaemlitz (a.k.a. Dj Sprinkles), na minha opinião, uma das figuras mais importantes da actual cena electrónica. É um impressionante labirinto sonoro e imagético de 15 minutos, no qual somos progressivamente envolvidos por um nevoeiro de que não queremos sair. Pianos, trompetes, manipulações sónicas e pequenas doses de distorção dirigem esta sumptuosa desorientação. Tudo isto adensado pelo distante discurso em italiano sobre uma relação entre Che Guevara, Bod Dylan e as Brigadas Vermelhas.



Dezembro é um mês especial. É o mês em que o meu Morrighan faz anos, já lá vão quase seis, e, como tal, acho que só faria sentido ter rubricas com gente especial a ocupá-lo. Mr. Herbert Quain, de todos os músicos que conheci este ano, acabou por marcar pela diferença pela sua ousadia, talento e crescimento ímpares. Depois de conhecer o seu trabalho, não mais vi a música electrónica da mesma maneira e todo o método de samplagem ganhou uma nova beleza, tanto estética como imagética. Não será demais dizer que o seu Forgetting is a Liability é, para mim, um dos discos do ano e que, se o Manuel acha que este é apenas um disco de transição, ainda nos espera muito mais deste trilho que Mr. Herbert Quain parece ainda agora ter começado a trilhar. Muito se tem dito sobre ele aqui no Morrighan (sim, confesso-me 100% fã do seu trabalho) e podem ler tudo isso nos seguintes links: 

Entrevista 

Entrevista - Especial Live Acts

Opinião Forgetting is a Liability

Outros

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