Entrevista a José Santos (Tales and Melodies), Músico Português

A distância é tramada, mas é para isso que a internet também serve, para a tentar encurtar. Ainda tentámos algumas vezes conciliar viagens ...

A distância é tramada, mas é para isso que a internet também serve, para a tentar encurtar. Ainda tentámos algumas vezes conciliar viagens e voltas para fazer a entrevista em pessoa, mas eu queria mesmo publicá-la este mês e por isso aqui fica o resultado de alguma interacção virtual. José Santos é o mentor do projecto Tales and Melodies que já foi falado aqui no blogue, inclusive no Queres é (a) Letra! Editou recentemente, pela ZirgurArtists o disco There's Always Something Related to It, que para mim foi um dos melhores EPs de 2014, trazendo um trabalho conceptual, intenso e cru. No final da entrevista, deixo-vos o player e links das páginas para os poderem seguir de perto! Amanhã, temos nova Playlista da Quinzena, precisamente do José Santos! O meu muito obrigada :)


Esta entrevista é a propósito de Tales and Melodies (TAM), mas antes de pegares na guitarra já dançavas com o baixo noutros projectos musicais. Fala-nos desse teu percurso antes de surgir Tales and Melodies.
Olá Sofia, antes de mais, deixa-me agradecer-te esta oportunidade e todo o apoio que tens demonstrado à música nacional, inclusive, no que me é mais próximo, apoio à ZigurArtits e ao projecto Tales and Melodies.
Bem, no fundo, isto de ser músico já cá está há muitos anos. A guitarra com que hoje toco foi-me oferecida pelo meu pai quando tinha cerca 14 anos, tive quatro aulas de música, em formato banda, nas quais aprendi a tocar a “Zombie” dos Cranberries. Logo aí fitei o som do baixo e aprendi também a tocar a malha. Mas era guitarrista! Depois disso o professor não apareceu mais e fiquei abandonado à sorte de quem vivia num mundo em que era difícil conheceres algo diferente daquilo que a rádio e tv ofereciam. 
Mais tarde juntei-me com uma malta que precisava de um baixista para uma banda Punk. Pedi um baixo emprestado a um amigo, começámos a ensaiar e arranjámos alguns concertos pela zona. O tempo foi passando e conheci a malta de Lamego, Pina, Manel e Afonso. Integrei a formação que inicialmente se chamava Purge mas que passou a 1327p4e com a entrada do Sérgio. Sai Manel entra Lobão, entretanto estamos em 2009, sai o Sérgio, o nome é ManInFeast e editamos um EP. Foi uma coisa que sempre vi como sonho… Concretizou-se! 


Já agora, o que é que te fascinou mais na guitarra, ou no baixo, para optares por fazer música através dos mesmos?
Agora que me fazes pensar nisso, acho que, quando comecei a tocar, via as coisas deste prisma: música – guitarra. Penso que não escolhi, é como se já estivesse dentro de mim. O baixo acabou por surgir pela necessidade e por muita vontade de querer ter uma banda. Sou no fundo um wannabe! hahaha


O que é que te fez criar TAM? 
Cerca de um ano depois de ter saído de MIF encontrei-me com este pensamento: “A fazer alguma coisa na música, é esta a altura! Ou agora, ou vou cismar que podia ter feito algo para o resto da vida”.
Começo a idealizar umas coisas, comprei algum material e comecei a compor cenas novas. Sempre tive a ideia de criar um projecto a solo. Havia coisas que não conseguia demonstrar em banda e que sentia necessidade de as expressar. Mostrei as coisas ao pessoal da Zigur, sempre muito em rascunho (sou sempre assim), eles mostraram-se motivados e acreditaram no meu projecto, o que me fez aceitar a primeira oportunidade de concerto. Daí para a frente foi rockar sempre que possível.


O primeiro registo que temos deste projecto data do TRC Jam Club em 2012 e é precisamente a gravação de três temas lá tocados. Não é muito comum o primeiro trabalho ser algo ao vivo, porquê esse adiantamento? 
Quando comecei TAM eu tinha um plano: “Sinto coisas, quero exprimi-las e quero começar já porque amanhã pode ser tarde”. Gravar o primeiro concerto permitiu-me uma promo para poder agendar outros concertos, e no fundo foi um pouco isso.  


A promessa era de que um disco de estúdio estaria cá fora no primeiro semestre de 2013, mas foi no segundo de 2014 que tivémos acesso a There's Always Something Related to It. O que é que provocou este atraso? 
Passou assim tanto tempo? Hehe. A sério, isto tem uma explicação…
Depois de começar a dar uns concertos continuei a compor com o propósito de editar um álbum. Durante o decorrer desse mesmo período de tempo, fui afinando pormenores sobre a identidade conceptual do projecto e acabei por perceber que o álbum teria de ficar em standby. Daí ao EP foi um passo pequeno. No fundo isto resume-se à diferença na abordagem às músicas e à consequente sonoridade. 


São quatro músicas que representam “mais um reflexo da única condição que é comum a todos nós: a humana.” Na tua óptica, enquanto compositor deste disco, este é um trabalho conceptual? O que é que pretendes mostrar não só com a sonoridade forte como também com as letras? 
Sim, considero que este é um disco conceptual, na medida em que, não se esgota na sonoridade ou nas palavras. Nenhuma das letras pretende contar uma história que se encerra em si. O que pretendo quando componho é que o ouvinte faça parte da música. Desde que me lembro, a música representa, para mim, um caminho para o auto-conhecimento, essencialmente a que ouço. Talvez seja demasiado pretensioso mas, no fundo, o que pretendo é que o ouvinte se relacione com música numa relação de reciprocidade, na qual ambos têm um papel importante na descoberta. O ouvinte deve descobrir a música descobrindo-se a si próprio. Acho que é isso…


Ao contrário da amostra anterior, neste disco optaste por inserir uma voz feminina que acaba por trazer também um contraste bastante sensual, até provocador, às músicas de T&M. Foi mesmo essa a intenção? Teres um trabalho que acaba por despir quem houve de qualquer tipo de pudor? 
Sim. Toda a temática do EP se direcciona para momentos de relações entre pessoas, mesmo na “There’s a Way Back Home”, onde as coisas parecem simples, está implícita uma relação. O “voltar” pressupõe na sua essência uma relação. A voz da Erica vem permitir que se enriqueça o imaginário em volta desses momentos. Acho que cumpre bastante bem esse propósito, não só na “Weather and Pleasure”, mas também na Ode to The Moon, na qual participa o Guilhermino Martins. Juntamo-nos para cantar em coro o amor pelo inalcançável!  


Para além da versão digital, quem quiser pode retroceder uns bons 20 anos no tempo e obter uma K7 com as mesmas músicas. Estou curiosa, porquê voltar às cassetes e não fazer um CD? 
A era da música digital alterou isto tudo. Ainda cheguei a encomendar cassetes de cenas portuguesas através da Zine da Rastilho e as capas eram tão importantes quanto as músicas. Agora parece que isso não tem valor nenhum, mas vai voltar a ter… Não tem a ver com modas e cenas hipster. Tem a ver com a forma de sentires as coisas. A net está ali ao lado, mas a net só nos mostra parte da obra. Apreciar música não se resume a clicar no play. Acredito que, mais tarde ou mais cedo, as pessoas se voltem a aperceber disso. Hoje em dia toda a gente é culta e toda a gente sabe de tudo porque o Google está sempre ali ao lado, mas na verdade, creio que muito pouca gente sabe de si. Quando a tendência for o inverso, a obra volta a interessar como um todo. A cassete surge porque era a melhor forma de eu comunicar esta minha ideia e de tentar lembrar o pessoal do que é ouvir música. Dá trabalho, requer tempo, requer condições. A cassete obriga a sair do computador para carregar play. É uma espécie de dificuldade a superar para se receber o prémio! Tales and Melodies não é música “muzak”.


Nunca assisti a nenhum concerto, embora isso vá mudar brevemente, mas estou curiosa: para quem pondera ir a um concerto vosso, o que é que lhes podes dizer que os convença, mesmo que não vos conheçam, a estar presente? 
Simples. O concerto de Tales and Melodies geralmente conta com o seguinte: malhas agressivas, momentos de introspecção, histórias cantadas, sapateado (eu a alterar os loops na pedaleira) e boa disposição. Por vezes surge a oportunidade de ter alguns amigos a tocar comigo e isso é sempre uma surpresa, tanto para mim, como para o público. 


Quanto a perguntas mais soft: sei que não vives da música e que o teu tempo nem sempre abunda, mas tens algum hobbie fora o trabalho e a música? 
Sou, acima de tudo, um gajo curioso. Gosto de fazer muitas coisas, ou de, pelo menos, tentar entender como se fazem. Isso limita o meu nível de comprometimento com tudo. Adoro animação 2d, desenhar, escrever, fotografia, design. Tenho alguns projectos em cada uma destas áreas, mas anda tudo muito devagarinho!  


Pensas em vir viver da música um dia? Como é que olhas para esse lado da tua vida? 
Penso que não. Não iria conseguir viver com a minha inquietude. A música tem um papel importantíssimo na minha vida, mas não consigo pensar em deixar de parte a arquitectura. Se calhar estou enganado e, a certo ponto, uma vontade será maior do que a outra…Mas por enquanto penso que não será.


E num futuro próximo, o que é que nos espera do projecto? 
Num futuro próximo podem contar com os concertos que já estão agendados e com mais alguns que se estão a agendar. Entretanto há-de surgir por aí um álbum. Não me atrevo a dizer datas para não voltar a falhar! 


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