E agora, o que se segue? [Diário de Bordo XLIV] A vida são dois dias

Calma, não é para discutir se a polícia é boa ou má, isto ou aquilo, mas antes para partilhar convosco algo mais íntimo, algo que acho q...


Calma, não é para discutir se a polícia é boa ou má, isto ou aquilo, mas antes para partilhar convosco algo mais íntimo, algo que acho que só mesmo escrevendo vou conseguir, de alguma maneira, exorcizar. 

João Carlos Lopes Raínho, não sei quantos anos tínhamos quando assimilei a sua imagem pela primeira vez. Tínhamos um mês, exactamente um mês, eu a 1 de Junho, ele a 1 de Julho, de diferença, vivíamos frente a frente, na Rua 25 de Abril, no Forte da Casa. Quis o destino que partilhássemos os primeiros anos de consciência, aqueles em que aprendemos a ler, a escrever, a brincar com outros, a partilhar amizades e segredos. Os melhores amigos, as mensagens escondidas nos cadernos enquanto fazíamos trabalhos de grupo e confessávamos as primeiras paixonetas de infância. A ida para o 2º e 3º ciclo, quando a adolescência começa a açambarcar as nossas emoções, quando começamos a definir a nossa personalidade. O João, de sorriso fácil e de temperamento divertido, se bem que era preciso ter cuidado para não o enervar muito, foi uma pessoa que marcou a minha vida. Quis a idade adulta que seguíssemos rumos muito diferentes, que perdêssemos o contacto. Mas o destino tem a sua estranha forma de operar e aqui há uns anos, quando voltei a jogar basquetebol, em 2010, o clube para o qual voltei tinha uma rapariga nas sub16 que um dia, após entrar no balneário onde eu me preparava para equipar e ela se ia vestir para ir embora, me pergunta se eu me lembro do irmão dela. «Tu andaste com ele na escola, o João Raínho!» Claro, tive de sorrir - «O João Carlos?» - era assim que eu o tratava, apesar de o nome completo dele nunca me ter saído da cabeça nem, como podem constatar, o dia do seu aniversário. Ela diz-me que sim e ainda me conta algo extraordinário «Sabias que me chamo Andreia Sofia por tua causa? O meu irmão deu-me o teu nome, porque gostava dele.» Já passou tanto tempo que não sei se foram estas as exactas palavras usadas, mas sei que senti um baque. Não via o João há anos. Com o decorrer do tempo fui separada dos meus colegas e no secundário as minhas opções levaram-me a ser ainda mais afastada deles. A entrada na faculdade, o facto de já não viver na mesma zona, acabou por resultar numa separação longa. Perguntei-lhe por ele. Contou-me, orgulhosa, que estava na escola da polícia. Ontem, passados estes anos, ele morreu, juntamente com um colega, colhidos por um comboio enquanto perseguiam dois assaltantes. Ainda não sei bem porque é que vos estou a contar isto, existe uma parte de mim que ainda se recusa a aceitar, provando-me que existem ligações que por muito que não sejam alimentadas com regularidade, nunca desaparecem. Que a dor não escolhe só as ligações mais próximas, mas também as mais puras, mesmo que distantes. 

Não vou discutir que os assaltantes é que deviam ter morrido, não quero depositar as minhas forças em coisas negativas, mas sim reforçar o quanto cada vez que penso no João, me lembro do seu sorriso, dos seus modos tímidos quando se sentia embaraçado com alguma coisa, a forma como alinhava em qualquer brincadeira e era completamente fiel aos seus amigos, a forma como através da sua irmã, nos ligou de uma forma que eu desconhecia até há alguns anos atrás. Não vou aprofundar o que estou a sentir, de momento não acho que fosse ajudar em nada, mas acho que tinha esta história para vos contar, talvez em tom de memoir honrando os tempos em que as nossas vidas se tocaram. À família, só posso desejar a maior força do mundo, eles sabem a pessoa que o João era, eles sabem o que ele valia. 

A vida é efémera, sempre, e as coisas que ficam por dizer e fazer são as que mais corroem, destroem. É preciso uma força descomunal para seguir em frente perante estes factos. O João não é a primeira pessoa que sai da minha vida, infelizmente já perdi outras, jovens também, mas é arrasador este sentimento de inutilidade, impunidade sobre as mortes injustificáveis e injustas. Mesmo quando somos alguém que queremos fazer deste mundo um lugar melhor, mesmo quando queremos fazer o melhor das coisas más, existe este buraco que custa a sarar, que a cada vez parece mais profundo. Desejo sinceramente que todos os que sofrem por momentos assim, encontrem forças e algo que as faça continuar, que as motive a dar mais a tornar esta passagem na vida num lugar menos escuro. Eu sei que eu tento, todos os dias, mas também eu sou humana e talvez por isso tenha tido a necessidade de escrever isto. 

PS; Sim, eu chamo-me Andreia Sofia

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