[DESTAQUE c/ Opinião] Amor Vezes Quatro, novo EP da dupla Ermo

Ermo Amor Vezes Quatro DISCO “Amor Vezes Quatro” é o novo EP dos Ermo, que neste registo apresentam 4 visões distintas do amor e d...


Ermo
Amor Vezes Quatro

DISCO
“Amor Vezes Quatro” é o novo EP dos Ermo, que neste registo apresentam 4 visões distintas do amor e dos seus contornos e heresias.
O que é o amor, senão uma afeição irreflectida? O novo EP da banda bracarense é assim uma consideração sobre o inconsiderável, a procura de uma definição para um sentimento sem equação. Oscila entre o cérebro e o coração. Pensa o amor, não com o cuidado de quem pensa, mas de quem ama. Não com o rigor de quem o pratica porque o quer fazer, mas com a crueza de cair em tentação. É assim, também ele, uma afeição irreflectida, cujo juízo é deixado ao critério de quem o ouvir.
Depois da noção de amor como doença, do seu conceito romântico e do autocrático, surge a sua deturpação, a definição de algo através do seu negativo. São quatro faixas que espelham este sentimento em todas as suas medidas: enquanto impulso sórdido, desassossego existencial, benquerença desmedida.
Na alvorada de um segundo longa-duração, os Ermo deixam um parêntesis digno de nota. “Amor Vezes Quatro” é a marca de uma maturação musical e, simultaneamente, um disco conceptual que se abre e fecha sobre si mesmo.


OPINIÃO
Os Ermo, a dupla portuguesa que mais profundamente mergulha na mistura entre o lirismo existencial e a música electrónica, lançaram, em 2013, Correspondência, em que o ser português e a tal portugalidade inerente a quem nasce no nosso Portugal foram explorados com mestria e assertividade, tendo como pano de fundo toda uma panóplia de sonoridades manipuladas através da maquinaria electrónica que o Bernardo tão bem domina. O António dá a voz aos textos, à mensagem. Transforma em melodia o bruto que martela na mente e no coração. E se no trabalho anterior viajámos por um país neste EP, intermédio entre trabalhos de longa duração, obtemos algo ainda mais específico, também ele inerente ao ser humano, ou assim julgamos nós - o Amor. 

O que é o Amor? É a pergunta que se impõe. Muitos têm sido os subjectivos e adjectivos usados para a caracterização deste sentimento(?), mas maioritariamente tenta-se que a visão sobre o mesmo se torne em algo positivo. Que o amor move mundos e fundos, que os maiores actos de coragem são feitos por amor, que este é o instinto primitivo de uma mãe(pai) para um filho(a), entre tantas outras coisas. Mas e quando não é nenhuma delas, mas antes uma fonte de sofrimento, de trauma, de repressão (in)consciente? Como é que se conhece o lado de um sem se ter conhecido o outro lado? Ah! O Amor, esse sentimento que provavelmente mais teclas e tinta faz correr, que mais é tema de músicas, principalmente de baladas. Estará o amor assim tão impregnado na nossa vida e nos nossos conceitos?

Pois bem, os Ermo, através destas quatro músicas, despem-se de preconceitos, derrubam barreiras e ousam ir aos locais mais sombrios deste tema. Logo na primeira canção, Amor Vezes Quatro, temos: 

Não há muito tempo eu amei, 
Fui muito, muito triste. Eu sei. 
Lágrimas, cólera, paixão, não mais. 
Dias que eu não queria que fossem reais. 

(...)

É uma força que tudo desvasta 
e corações come ao jantar. 
O sábio é louco e a santa é devassa 
e é esse o veneno de amar. 

(...) 

Mas de que nos vale a vida sem poder amar? 

Não há muito tempo eu amei, 
Fui feliz? Fui triste? Eu não sei. 
Mas faria tudo outra vez. 

Quem é que nunca teve este tipo de pensamentos? Todos eles, principalmente a dúvida existencial sobre se o amor será O que realmente vale a pena lutar por! E sim, que a lírica dos Ermo é incisiva e perfurante, já nós sabíamos, o que mais me agradou foi a forma como os sons explorados acompanharam este negrume, tão bem transmitido pela voz possante do António. O som de Ermo, está mais maduro, mais consistente e também mais lascivo. 

Continuando a viagem, Fado Teu e Súcubo estão encadeadas de forma inteligente, passando de um individualismo quase romântico para passar para uma espécie de obsessão compulsiva, num roçar dissociativo entre a pessoa que se é durante o dia e aquela que se liberta quando por fim está só. O disco termina com Recreio, uma sátira à relação entre a igreja e a pedofilia que é de conhecimento de tantos, mas que ainda mais optam por tapar os olhos, (in)voluntariamente. 

E o amor tem todos estes lados, ou a ausência deles. Fazemos tudo por amor, não é? Damos uma costela, abdicamos de nós mesmos por outros, ou então procuramos em muitos aquilo que não conseguimos encontrar em ninguém. Penso que o António e o Bernardo tiveram de ser tão audazes como corajosos ao fazerem este disco. A sonoridade evoluiu em relação ao trabalho anterior, que foi muito bem recebido, e o tema há-de ser sempre sensível. É de aplaudir e ouvir. Ah! E de aparecer no Musicbox esta Quinta-feira, parece-me que vamos ter um espectáculo daqueles.

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