Entrevista ao Um ao Molhe, Festival Itinerante de One-Man-Bands Português

Andava há semanas para poder apanhar o pessoal de Um ao Molhe e, finalmente, lá conseguimos trocar algumas ideias. Este festival português ...

Andava há semanas para poder apanhar o pessoal de Um ao Molhe e, finalmente, lá conseguimos trocar algumas ideias. Este festival português de one-man-bands tem andado a percorrer o país desde Fevereiro e a curiosidade e o interesse têm crescido visivelmente com o tempo. Sendo um festival itinerante e sendo inovador na sua abordagem e locais onde acontece, surgiu a oportunidade de colocar algumas questões ao Pedro Pestana, um dos organizadores do festival, mas também ele mesmo um one-man-band com os projectos Tren Go! Sound System e 10000 Russos. No final da entrevista o link para o Facebook. 


Como é que surgiu esta ideia de fazerem um festival só com projectos one-man-band? 
Olá Sofia! A ideia surge de uma vontade secreta de qualquer one-man-band de querer juntar-se a outras one-man-bands para fazer a maior festa possível. Neste caso eu e o Manuel Molarinho (O Manipulador), pouco tempo depois de nos termos conhecido fomos alimentando esta ideia até que decidimos pôr mãos à obra a meados do ano passado.


O facto de ser itinerante traz toda uma outra dinâmica ao conceito de festival, principalmente porque inclui as próprias ilhas que muitas vezes têm menos acesso a este tipo de iniciativas. Como todos não conseguem ir a todo o lado, como é que vai sendo a gestão de quem viaja para onde? 
A dinâmica é totalmente outra, de facto. Tentámos esticar no tempo e no espaço o conceito de festival fazendo mini-festivais em vários sítios. Este ano em Portugal ficou a faltar Açores e Algarve, por outro lado conseguimos a Madeira, logo a estrear, e a Galiza a internacionalizar o festival. A gestão de quem viaja para onde tem a ver com uma série de factores que partem do equilibrio, do querer e do poder. As entidades acolhedoras por vezes escolhem alguns projectos que gostavam de ter nos seus espaços, outros somos nós que propômos. Isto está também obviamente dependente da disponibilidade de cada one-man-band. Logisticamente, no entanto, não anda muito longe de transportar uma banda de 4 elementos. São 4 pessoas e o respectivo equipamento num carro, a diferença são 4 concertos em vez de 1.


Sentem que existe alguma falta de oportunidade no nosso mercado e circuito musical para quem, como vós, faz música sem banda? 
Não creio que façamos (nós, one-man-bands) música sem banda, a nossa banda somos nós próprios. acredito nas conversas internas que cada um de nós tem consigo próprio. Caso contrário os projectos a solo seriam inevitavelmente masturbatórios. Quanto à existência ou falta de oportunidade, há imensos sítios por aí fora com possibilidades de acolher coisas desta natureza. O Um Ao Molhe pretende precisamente consolidar as ligações entre esses sítios. As oportunidades também se criam, de certa forma.


Rock, alternativa, electrónica, e muitos mais são os géneros de música produzida pelos vários artistas. Existe essa intencionalidade de mostrar de tudo um pouco? Existe algum critério para se fazer parte do Um ao Molhe?
O critério principal é o artista se apresentar sozinho em palco. Queríamos ir um pouco mais além do conceito de one-man-band tradicional de multi-instrumentista. Apercebemo-nos que há um conjunto de linguagens diferentes e de formas diferentes de um músico se apresentar sozinho em palco. Pessoalmente adoro algumas one-man-bands mais “tradicionais”, se assim as quisermos chamar, mas interessa-me e interessa-nos espalhar a palavra que estas one-man-bands, os loopers, os laptopers, os cantautores, etc. podem coexistir. Projectos desta natureza partem normalmente de um ponto comum a todos os músicos, a vontade de fazer música, ou nos quartos, ou nas salas de estar, numa sala de ensaios, o que seja, a vontade está lá e cada um usa o que mais lhe convém. 



Com o passar dos meses, desde que o primeiro concerto aconteceu, que muito se tem usado a palavra família quando se fala de qualquer iniciativa do Um ao Molhe. Como é que tem sido esse lado humano de toda esta iniciativa? Já fazia falta algo que proporcionasse esta oportunidade de união entre os vários músicos?

Na sequência da pergunta anterior, em que mencionas os vários géneros, nós não estamos a misturar só diferentes tipos de música , estamos a misturar diferentes pessoas que não têm à partida nada em comum senão fazerem música como one-man-bands. As viagens de carro e os jantares têm sido férteis em discussões e críticas construtivas de uns projectos para outros. A troca de impressões tem sido positiva e tem tido impacto nos concertos, à medida que a malta passa mais tempo junta na estrada e partilhando ideias os concertos, de parte a parte, tornam-se mais objectivos e sólidos. Assistir a essa evolução num curto espaço de tempo é bonito. Nota-se um grande respeito, curiosidade e admiração de uns one-man-bands por outros. Novamente, é bonito de ver gente diferente a partilhar o mesmo espaço e a dar-se bem. No fundo é isto que gosto em misturar pessoas, proporcionar a discussão construtiva. Por vezes em eventos mais concentrados, a malta chega, toca e vai embora; não tem tempo para trocar impressões com outros músicos e criadores. No caso do Um Ao Molhe, nem que seja no carro, a malta é quase “obrigada” a falar. 


Da parte do público qual é que tem sido o vosso feedback? E por parte da imprensa? Parece-me que tem havido um interesse cada vez maior.
É, parece que estamos a conseguir criar um bichinho nas pessoas e na imprensa também. O interesse tem crescido de dia para dia e de cidade para cidade. As próprias one-man-bands também têm espalhado a palavra. Temos recebido algumas mensagens de outras one-man-bands mas não as iríamos conseguir pôr a tocar nesta edição pois já tínhamos a programação fechada. Por outro lado e não desmerecendo o interesse que os músicos, despertam, grande parte da culpa deste crescimento é da Mariana Volz e da Maria Manuel Ribeiro da Mooh – Biscates Transmedia. A comunicação do Um Ao Molhe é feita por elas e é uma parte fulcral deste tipo de trabalho. Chegam a sítios e entidades a que não chegamos e assim conseguimos, eu e o Manuel, concentrarmo-nos na programação e logística do festival, só assim era possível fazer uma coisa desta envergadura, com uma equipa de boa gente.


Sei que esta primeira edição é suposto durar apenas quatro meses. Acham que vão conseguir parar ou será que este se vai tornar num festival a acontecer durante o ano todo? 
Estamos a adorar fazer isto mas esta não é a única coisa que fazemos da vida. No meu caso, tenho vários trabalhos e duas bandas (Tren Go! Sound System e 10000 Russos) com as quais quero, obviamente, manter actividade, por isso tenho que articular o Um Ao Molhe com o resto da vida. Queremos repetir para o ano mas antes de pensar na próxima edição vamos esperar que esta acabe para fazermos o balanço e perceber o que podemos melhorar no futuro. O caminho é para a frente. A hipótese de  de fazer uns eventos Um Ao Molhe isolados durante o resto do ano não está posta de lado mas a ideia de itinerância mais concentrada fechar-se-á este ano em Maio de 2015.




De um ponto de vista mais económico, existe algum tipo de objectivo? Refiro-me não a fazerem milhões com esta iniciativa, mas antes perceberem e incentivarem a dinâmica que poderá crescer entre público e artista de forma directa, ou até entre promotores e artistas.
Tendo em conta que nesta edição ainda dependemos muito da afluência do público para conseguirmos pagar aos músicos condignamente e cobrir as despesas, estamos a tentar ir devagar e com calma. Temos que jogar com o que temos. Um acontecimento desta envergadura, sobretudo num primeiro ano, como é o caso, tem que ser feito com pés e cabeça na medida do que nos é possível. 


Têm ideia do impacto e da motivação que possam estar a dar a projectos mais pequenos para que passem à acção de forma mais destemida no futuro? 
Engraçado falares nisso, a nossa perspectiva no Um Ao Molhe era bastante altruísta, procurar dar o máximo de concertos a outras one-man-band que não tinham tanta rodagem. O Jacketx, por exemplo, até ao Um Ao Molhe tinha-nos dito que nunca tinha feito duas datas seguidas e está felicíssimo por isso. É possível fazê-lo, no entanto, é um pouco complicado fazeres 7 dias de concertos seguidos, o máximo que consegui fazer em Portugal foram 5. Mas temos um pouco de tudo, desde projectos com mais experiência em concertos até projectos emergentes com pouca rodagem. Ao juntá-los parece que se puxam uns aos outros para cima. Quando era puto e comecei nestas lides, a onda era bem diferente. Misturar géneros e pessoas não acontecia muito. Um exemplo disso era que só vias metaleiros e punks juntos no mesmo espaço em concertos de Motorhead, talvez a banda mais consensual entre estas duas opções de vida nos anos 80 e 90. Hoje em dia o caso é outro e a malta mistura-se e troca ideias.

O que esperam, no final, deste Um ao Molhe? Já conseguem fazer algum tipo de balanço? 
Prognósticos só no fim do jogo. Mas até aqui tudo bem!


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