Entrevista aos Old Yellow Jack, Banda Portuguesa

Os Old Yellow Jack surgiram em 2011 e são um quarteto lisboeta composto pelo Filipe, Miguel, Guilherme e o Henrique, que entrou mais tarde....

Os Old Yellow Jack surgiram em 2011 e são um quarteto lisboeta composto pelo Filipe, Miguel, Guilherme e o Henrique, que entrou mais tarde. Começaram com umas demos caseiras e deram uma série de concertos desde então. Em Janeiro deste 2015 lançaram Magnus, o primeiro EP, que foi produzido pelo Bruno Pedro Simões (dos Sean Riley & The Slow Riders). Há uns tempos tive a oportunidade de me sentar com eles no Jardim da Estrela e de lhes fazer umas perguntas. Lá optimistas eles são e o seu gosto pela música é contagioso. Aqui fica o resultado dessa conversa:


Assumem a vossa junção desde 2011, mas só agora lançam o vosso EP. Recuando um pouco, como é que tudo começou?
Começou comigo (Filipe) e com o Guilherme. Depois, muito resumidamente, entra o Miguel e passado uns meses o Henrique. Começámos com covers, mas só quando começámos a fazer músicas nossas é que a coisa começou a andar para a frente e começámos dar concertos. No início de 2014, achámos por bem fazermos um disco, gravámos e aqui estamos.


Vocês deram imensos concertos sem terem nenhum disco. A intenção era andarem na estrada a espalhar palavra e só depois apostarem num disco a sério?
Não sei. Primeiro só gravávamos demos caseiras e achámos que não estava a dar em nada. Precisávamos mesmo de dar um passo em frente e prosseguir se queríamos levar isto a algum lado, daí o EP. Um álbum era um passo demasiado grande. Havia também a vontade de querermos tocar, sem essa preocupação do disco, ter um bocado aquela atitude surpresa.


Qual foi a vossa arma para as pessoas vos quererem conhecer mesmo sem terem um vosso disco para ouvir primeiro?
Se calhar, foram aquelas demos caseiras que já tínhamos, ou os donos de bares que vinham falar connosco e com quem nós também íamos falar. A verdade é que as nossas demos, apesar de caseiras, foram gravadas com uma qualidade de som que não é normal. Quando ouves demos de grande parte das bandas, às vezes são uma coisa terrível gravada com o telemóvel… O nosso amigo que gravou essas demos tem uma espécie estúdio caseiro. O quarto dele é um estúdio, basicamente, e gravámos lá por um preço simbólico e um almoço no Papas. (risos)


O que é que vos fez pensar "bora parar um bocado os concertos e vamos passar para uma gravação mais a sério”? Até porque gravaram nos estúdios Black Sheep...
Foi num pequeno-almoço na Padaria Portuguesa. Daqueles clássicos antes de um ensaio... "Ah, nós podíamos gravar um EP!" "Grande ideia!" (risos). A verdade é que a ideia já estava no ar, mas só nesse dia é que decidimos fazê-lo mesmo. Fomos para o ensaio, vimos logo os sons que queríamos e fizemos todas as músicas de raiz para o EP. Já tínhamos outras que hão-de ir para o álbum, que são mais antigas que as do EP, mas quisemos fazê-las todas de raiz.


Fazendo um bocado o balanço desde que começaram, afinal tinham apenas 15 e 16 anos, o que é que mudou mais na vossa vida enquanto conjunto?
Com 15 ou 16 anos não se faz grande coisa a sério. O nosso estilo de vida, a nossa maneira de tocar e até as influências mudaram bastante. Na altura só tocávamos Interpor e Guns N' Roses, hoje em dia são completamente impensáveis para o nosso som. E, claro, cada um toca melhor o seu instrumento, etc. Nos primeiros anos estivemos a aprender e a experimentar. Quem nunca teve uma banda de metal ou de punk na juventude, não teve juventude (risos). Nós fechávamo-nos no quarto a fazer cenas espaciais, entre outras, que hoje dão jeito.



No meio dessa evolução até hoje, e para a gravação deste EP, quais é que foram as maiores influências?
Hum... Kurt Vile, Mac DeMarco, The oh sees e Capitão Fausto (sempre)! (risos)


Achei curioso, já sabendo que Capitão Fausto era uma influência vossa, nunca terem mencionado Tame Impala, que costuma ser uma comparação regular. Existe alguma espécie de tabu em relação a Tame Impala?
Foi uma maldição inicial e nós ainda estamos a recuperar disso. A primeira música que nós lançámos teve várias críticas a dizer: “Ah, são uma cópia de Tame Impala”. Eu não percebo onde. Por exemplo, na parte do baixo, não tens Tame Impala em lado nenhum, talvez só na parte do teclado, mas de resto não achei que fosse uma coisa tão óbvia, tão notória… A Shoot the moon foi feita antes de sabermos quem eram os Tame Impala. Foi o nosso primeiro original. Ainda nem o Henrique estava na banda!
E essa foi inspirada pelos Capitão Fausto, penso que na altura pelo disco Gazela, portanto…


São contra este tipo de associação, então, entre as bandas? 
Não, não. Eu gosto disso e até mesmo nas bandas que ouço vou sempre à procura “Ah, o que é que o influenciou e qual é o background disto” mas acho que é um bocado injusto para as bandas serem etiquetadas… Pode ser redutor.


Cada um de vocês acaba por trazer o vosso próprio cunho e acho que cada banda acaba procura uma identidade própria. Também vocês estão à espera que um dia “Eish, isto está parecido com Old Yellow Jack”? (risos)
Isso é um sonho.


Hoje em dia fala-se muito dos discos conceptuais, mas vocês sendo uma banda tão jovem imagino que queiram é que o pessoal vá curtir o concerto sem pensar muito nisso, não?
Sim, sim. É isso que nós queremos. É exatamente isso.


Ainda assim, há alguma coisa em especial que vocês gostassem que as pessoas encontrassem no vosso disco?
Nós somos um bocado alérgicos a essa noção do conceptual. Gostamos de pensar nas coisas, nas relações e nas causas/explicações, mas em termos de discos conceptuais somos um bocado alérgicos. Talvez por ainda sermos muito novos, ainda não há um significado ou uma mensagem significativa que queiramos passar. Se calhar, um bom ponto de vista sobre isto é… se ainda não temos uma plataforma onde as pessoas nos podem ouvir, ou seja, um público, será que também nos vale a pena ter grandes mensagens? Acho que fazer grandes statements é uma coisa mais tardia na carreira de um músico. Nós queríamos fazer um EP e não um álbum porque achamos que seria um passo maior do que as pernas, não só musicalmente mas também nesse aspecto. Aliás, nós já estamos a trabalhar no próximo disco e não vai ter nada a ver com o EP. 


Nesta fase de apresentação de um trabalho é sempre importante conseguir uma série de concertos. Têm sentido facilidade nisso? 
Não, tem sido uma batalha. Acho que, às vezes, há pessoas que nem sequer devem ouvir a música…
Achamos que há uma falta de interesse generalizada… Claro que também devem levar com dezenas e dezenas e-mails por dia. A apresentação do EP no Sabotage acontece porque o Carlos foi uma pessoa que apostou em nós… foi ele que nos abordou com as demos caseiras e como gostávamos de tocar lá... é uma casa para nós. Ainda em relação ao EP também achamos que vai acabar por abrir portas, não só para Portugal mas lá para fora também… mas não vou entrar em pormenores agora. Isso está no segredo dos deuses.


Mas já há perspectivas de ir lá para fora?
Digamos que sim. Um bocadinho à semelhança do que fizemos com as demos caseiras a ir para o Porto e para não sei onde, levar um EPzinho lá para fora também está nos nossos planos. É a maneira Old Yellow Jack fazer as coisas. (risos)


Essa visão optimista é refrescante, até porque é sabido que em Portugal é muito difícil para os músicos fazerem apenas da música vida. Sendo tão jovens já conseguem ter uma visão do futuro que querem para vocês?
Acho que é por sermos jovens e por ainda vivermos todos nas casas dos pais que se há altura para arriscar e para nos atirarmos de cabeça é agora. Quando tivermos responsabilidades e coisas para pagar, aí é mais difícil. Precisamos de tomar decisões muito mais ponderadas. Hoje em dia queremos é trabalhar.
Gostamos muito de Portugal e achamos que o nosso país é fascinante, mas artisticamente não há portas abertas, as bandas chegam a uma certa dimensão e estão presas num loop. Por exemplo, no máximo as bandas andam na estrada de ano a ano, quando lançam um álbum… passam no Coliseu de Lisboa e do Porto e depois pronto… acabou. E o que podem fazer mais? Não podem fazer mais nada.


Nesse sentido, acham que é uma limitação espacial do nosso país ou do próprio circuito?
Não há um circuito. Lá fora, as pessoas estão habituadas a ir aos concertos. Cá se dizes que um concerto custa 5€ ouves logo queixas que é muito caro. É como se não houvesse interesse, ainda assim está a melhorar e acho que há cada vez mais pessoas a ir aos concertos. É uma coisa estratosférica que as pessoas cá em Portugal só vão a concertos de bandas que gostam e conhecem todos os álbuns. O Henrique não está cá, mas ele só vai a concertos que adora. Não tem muito a ideia de querer ir à descoberta. Nós os três somos daquele tipo de pessoas que gostam de ir a qualquer concerto. Tipo… “Pá, ‘bora ver estes gajos!” Há um concerto, estamos vagamente interessados, podemos nem adorar, mas… vamos lá, vamos vê-los. 



E assim terminou mais uma conversa, numa manhã a oscilar entre o solarengo e uns aguaceiros tramados. Deixo-vos os links para poderem descobrir e ouvir os Old Yellow Jack! 

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