Entrevista a Luís Nunes, Músico Português, no Adeus a Walter Benjamin

Quando esta entrevista se realizou, em meados de Dezembro, ainda não sabíamos bem o que Luís Nunes preparava para o seu futuro musical, sab...

Quando esta entrevista se realizou, em meados de Dezembro, ainda não sabíamos bem o que Luís Nunes preparava para o seu futuro musical, sabíamos sim que ele se ia despedir no Lux dali a uns dias da personagem que vinha desempenhando há volta de sete anos - Walter Benjamin. Para trás ficaram inúmeras canções, dois discos de longa duração e um último "single" que soa a farewell, mas que ao mesmo tempo reúne uma série de pessoas importantes ao longo da sua carreira e que certamente estarão no seu futuro enquanto Benjamim, a sua nova identidade musical. Resumindo, de Walter Benjamin, de pronúncia estrangeira, foi-se embora o Walter e o inglês, ficou Benjamim (cai o n entra o m, à portuguesa) que já se estreou no Portugal Fashion. Mas este post é sobre o já moribundo Walter, em tom de recordação e de arranque para um novo rumo, e é através das memórias do Luís que viajaremos.

Fotografia Vera Marmelo
O início da carreira de Walter Benjamin começou em 2007 com um EP - The Dog Follows The Bull - que entre risos ele declarou como «é mau demais!». Antes disso aconteceram as aulas de violino, onde se iniciou o seu contacto com a música, mas foi mais tarde, com a criação de uma banda de rock/heavy metal com os amigos da escola que a paixão verdadeiramente despertou: «Isso despertou a minha paixão pelas bandas e por tocar música que não fosse música clássica ou uma aplicação prática da música enquanto estava a estudar.»  O Verão de 2004, mesmo ano em que conheceu o Tiago Sousa, músico português e fundador da Merzbau, foi passado a gravar um EP de Jesus the Misunderstood «banda ficcional que eu criei, que depois acabou por se traduzir numa banda concreta.» de onde acabou por surgir a necessidade de criar algo a solo: «Basicamente isso é o início de Walter Benjamin, a tal história de estar sozinho em casa a gravar canções. E depois como aquilo se tornou mesmo numa banda, eu acabei por precisar de um projecto que me permitisse fazer música quando os outros membros estivessem ocupados.» Quando deu por si, a música ocupada por completo o seu tempo: «Mesmo quando era obrigado a fazer outras coisas, como estudar, a música ocupava a minha cabeça o tempo todo e por isso eu sentia a necessidade diária de fazer música. Com uma banda, em que cada um tem os seus horários e as suas incompatibilidades, eu senti a necessidade de ter um escape criativo e então criei este projecto. Propus ao Tiago editar esse EP que saiu e que realmente é o que é, não interessa. É um bocado como aquelas cassetes que gostavas de esconder dos teus amigos, mas que estão na internet (risos). E foi evoluindo a partir daí.»


Da paixão das bandas à necessidade de ter algo só seu, o salto é pequeno e justificado: «Eu sou musicalmente hiperactivo, eu gosto de fazer mil coisas, de fazer coisas diferentes e de estar em todos os papéis. Não é possível de fazer isso tudo ao mesmo tempo. E eu gosto do facto de quando tens um projecto em que assinas com o teu nome, por exemplo, se quiser posso ir dar um concerto com o Noiserv, como já aconteceu, e tocamos os dois canções um do outro. Posso escolher quem bem me apetecer e essa liberdade é inacreditável. Por outro lado falta aquele espírito colectivo de banda e o trabalho todo acaba por cair em cima dos teus ombros - imaginar, concretizar, como lançar, a capa do disco... - acaba por ser um processo um bocadinho solitário. Uma banda é um bocado como uma família e um músico a solo que passe a vida a solo é um filho único. Como eu não sou filho único e cresci numa família bastante unida, sinto falta dessa dimensão que acho que a nível emocional é importante. Quando sobes ao palco, experiência que pode ser intimidante, tens os teus companheiros contigo e se for preciso olhas para o teu baterista e ele diz-te que vai tudo correr bem (risos) e tu relaxas, é diferente.»


Desafiei então o Luís a viajar um pouco pelos seus trabalhos e a reflectir sobre se houve algum que tivesse gostado mais ou se se voltasse a atrás, se mudaria algum: «em quase todos faria isso, não é? (risos) Todos eles marcaram, para o bem e para o mal. É como a história do primeiro EP, que é extremamente importante porque é o pontapé de saída e tu tens de tomar a decisão de quando vem e é o que é. Eu na vida tento que todos os momentos que estou a viver sejam importantes. Com os discos é a mesma coisa, marcam momentos na tua "carreira" e eu olho para todos com muito carinho. Obviamente que alguns têm mais significado real/concreto que outros, como o disco que lancei em 2012 (The Imaginary Life of Rosemary and Me). Foi um subir de patamar muito importante para mim e que eu precisava e queria fazer. Por um lado é um disco mais maduro, mas não é um disco de maturidade, porque eu não acredito em discos de maturidade. A maturidade não vem aos vinte e poucos anos, que foi quando eu fiz aquele disco, mas vem, espero eu, aos sessenta, se chegar lá! (Risos)» Perguntei-lhe se, agora que este percurso tinha chegado ao fim, se já podíamos saber quem é a misteriosa Rosemary, mas a resposta foi a mesma: «Não! (risos)» 


Fotografia Gonçalo Pola
Não insisti, afinal há que manter alguma mística. Decidi continuar pelo álbum de memórias, desta vez na secção de actuações ao vivo. Concertos foi coisa que deu com fartura e eleger um especial tem sempre aquela dificuldade «eu acho que é injusto para os públicos escolher um concerto mais especial que o outro. Se as pessoas sentiram que eu estava a gostar de estar ali a tocar para elas é porque eu realmente estava a gostar de estar ali a tocar para elas.» Contou-me também que houve concertos que não gostou de dar «mas acho que isso se notou! (risos)» Entre as várias experiências, pois quando estava em Londres, local onde viveu quatro anos, tocava com músicos de Londres e quando estava em Lisboa tocava com músicos de Lisboa, destaca-se o momento de tocar para a Chama Olímpica em 2012: «Eu tinha uma banda em Londres e fomos convidados para ir tocar na passagem da chama olímpica. Foi uma coisa estranhíssima. O concerto em si não teve nada de espectacular (risos), estávamos absolutamente deslocados, ainda por cima tocámos aquilo com caixas de ritmos, foi uma coisa completamente louca.» Também a actuação no Mercado da Ribeira foi especial, com as colaborações de Minta, Márcia e YCWCB, entre tantos outros. Fazendo um balanço: «Eu dou muitos concertos, mas quando os dou, gosto que sejam especiais. Posso ir falando deles e vou-me sempre lembrar de mais um que também foi engraçado. Teria de percorrer quase todos.»


Se começou pelo rock e heavy metal por gostar de tocar com os amigos, foi em Dylan e em Lou Reed que encontrou o fascínio pela composição na simplicidade que encontrou nestes dois artistas «aquela melodia, aquelas letras, aquela intensidade, a capacidade de fazer música com apenas dois ou três acordes, inacreditável.», mas também teve outras influências até chegar à sua própria sonoridade: «Os Beach Boys, os Beatles influenciaram-me largamente, a música clássica, claro que me influenciou. Quando tu estudas música clássica e passas pelos períodos e tens que tocar, etc., deixa a sua marca. Essa mistura de tudo influenciou. E eu gosto mesmo de música, gosto de reggae, de ska, de punk, de música electrónica, sei lá. No fim a música acaba por ser a fusão dessas influências todas com a tua própria visão do mundo. É algo muito pessoal, cada um tem a sua maneira de apreender a realidade e com a música é a mesma coisa. A prova mais óbvia é que a mesma canção pode significar coisas completamente diferentes para pessoas diferentes.»


Hoje em dia fala-se muito na conceptualidade dos discos e perguntei ao Luís se essa tinha sido uma preocupação dele ao longo deste anos, se houve sempre algum propósito específico com os trabalhos: «Eu acho que eles são todos um bocadinho conceptuais, gosto dessa ideia. Tanto o The National Crisis, o primeiro LP que saiu pela Merzbau com uma edição ultra limitada de 100 cópias (risos), como este, o The Imaginary Life of Rosemary and Me, foram pensados enquanto discos, mas quase como se fossem um livro. O primeiro foi mais uma tentativa e este último mais consequente, obviamente, mas sim, eu tenho essa preocupação, não são só canções soltas.» Pegando nesse pormenor do livro, coloquei-lhe a situação de um escritor pegar neste seu último trabalho de longa duração e com ele escrever uma obra. Que livro sairia dali? «Acho que seria um conto. O disco tem vinte e tal minutos, é muito curto, muito sintético. Eu gosto dessa simplicidade das coisas.»


Abordando directamente a questão do fim de Walter Benjamin, mencionei o facto de quem está por fora de um circuito mais interno da música nacional, não conhecer muito essa identidade artística. No meio musical, entre os artistas sim, mas ao passar para o público não tanto. Terá isso tido influência na sua decisão? «Eu acho que me ponho um bocado de parte. Eu acredito que tens de tentar vender a tua obra depois de ela estar feita. Tens de chegar às pessoas. Há pessoas que fazem isso muito bem, eu acredito na conquista do meu espaço. Nunca me preocupei muito em conquistar público, mas antes em fazer discos, compor canções e acreditar nelas. Quando estás a fazer um disco tens que acreditar que é a melhor coisa do mundo, mesmo que não seja. Ou até quando fazes qualquer outra coisa. Tens de dar amor às coisas que fazes e isso sempre foi o meu maior foco. E a minha perspectiva quando estava nos primeiros discos, no meu quarto, era que se uma ou duas pessoas os descobrissem e me dissessem alguma coisa sobre eles, já ficava muito feliz. E isso aconteceu, foi um objectivo atingido. Também acho que há margem de progressão para as coisas acontecerem. Hoje em dia, eu ponho-me de parte no sentido em que eu acredito que as coisas devem ser feitas com calma. Todos os projectos que eu vejo subir muito rapidamente, também os vejo cair muito rapidamente. Eu acho que tens de chegar a um estado em que aprendes a fazer a música, vais conquistando o teu público organicamente, falando com as pessoas, contando-lhes as tuas histórias, trabalhando para ser melhor. Pode ou não acontecer alguma vez seres muito conhecido, mas deixas a tua obra tal como acreditas nela. Por isso, respondendo à tua questão, não, de todo.» 


A morte de Walter Benjamin, vem então marcar o fim de Luís Nunes a cantar em inglês para passar para a sua língua materna. Esta decisão vem ainda antes de voltar ao seu país de origem e com o propósito de se aproximar das pessoas e das suas emoções: «Eu decidi escrever em português e depois decidi voltar para Portugal. E essas duas coisas estão absolutamente ligadas e eu realmente estou farto de cantar em inglês. É uma construção de personagem constante. Chegar ao palco e dizer que sou o Walter Benjamin quando não sou. Em Inglaterra não me fazia tanta confusão porque estás lá e tocas com outros músicos. Não tem nada a ver com a discussão entre cantar em português ou em inglês, que já agora acho ridícula. Mas chegar a um palco em Lisboa e dizer o mesmo deixou de fazer sentido. Quando estava lá fora via as notícias, todos os dias, de Portugal. Era a primeira coisa que fazia de manhã, abria o Público e lia, isso faz-te ganhar uma nova perspectiva sobre o teu país. Às tantas tornou-se ridículo eu ser de Portugal e não conseguir cantar sobre o que é Portugal. Agora, estando no Alentejo, fiz recentemente uma canção sobre um tipo que mora na vila onde eu moro. Eu cantei-lhe a canção e ele começou a chorar. E isto é realmente especial e não tem nada a ver com mercados, mas com o chegar à pessoa. Eu moro no Alentejo e se eu fizer um concerto como Walter Benjamin ninguém vai perceber aquilo que eu tenho para dizer ou a mensagem que tenho para lhes dar. Acho que chegou a fase em que eu quero experimentar isso, chegar directamente às pessoas. Não quero chegar uma elite de putos elucidados (risos) - não estou a dizer mal, atenção - não quero chegar aos intelectuais, quero uma coisa que qualquer pessoa possa ouvir, é música pop. Eu nunca me meti numa gaveta de música alternativa ou erudita, o que quer que seja. Isto é música pop, são canções.»


Como produtor, também tem trabalhado com vários artistas, que tanto cantam em português como em inglês, mas «já há muito tempo que me dá um gozo especial quando estou a trabalhar num disco em português. Tu sentes que estás a desbravar um caminho que é único. É nosso, é exclusivo. Estás a fazer uma coisa que está numa linguagem absolutamente específica tua. Eu acho isso super interessante, é uma outra visão da coisa, um outro lado da questão.  Enquanto músico, não te podes prender numa só visão e ficar ali preso para sempre. Tens de saber explorar e saber qual a tua função. Ainda agora no Mexefest em conversa com o Fachada ele disse "é incrível como a música é a única forma de arte que ainda não perdeu a sua função original." que é entreter as pessoas, fazer as pessoas dançarem. E os músicos têm de pensar nessas questões.»


Numa perspectiva futura, em que ainda não sabíamos o nome que ele iria assumir, o balanço é que tudo o que o Walter Benjamin fazia não vai, propriamente, mudar, mas antes tomar outros contornos: «A minha abordagem à música, o meu universo musical, não mudou. A minha perspectiva sobre o mundo não mudou. É basicamente outra língua, outra forma de expressão, o como tu vais chegar às pessoas. É a tal experiência antropológica que é cantar uma canção para uma pessoa no  meio do Alentejo, sem ela perceber, e ela reagir e chorar. Isso é importante, das coisas mais fortes que podes fazer enquanto músico. Eu sou uma pessoa que não está nada à vontade com as canções que está a fazer, estou com muita dificuldade na escrita em português e daí acabar com este projecto. Este projecto ao se ir arrastando está a desviar a minha atenção daquilo que devia ser o meu foco - pensar nas canções e escrever as canções em português. De cada vez que me estava a focar, pumba, lá tinha de ir tocar ou outra coisa e o foco perdia-se. Para além do facto que se eu continuasse com este projecto iria estar a insistir numa coisa que já teve o seu tempo. A única coisa que vai mudar é a língua porque eu sou a mesma pessoa, vou tocar com os mesmos músicos, mas tinha de haver essa mudança.»


O meu muito obrigada ao Luís por este final de manhã ali na Mexicana e deixo-vos agora os links do antigo Walter Benjamin e do novo Benjamim.

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Em tom de curiosidade fica a apresentação de Benjamim no Facebook:

Benjamim já não é Walter. O escritor de canções que passou a melhor parte de quatro anos a viver em Londres voltou a Portugal no verão de 2013 para se instalar no coração do Alentejo – directamente e sem passar pela sua casa partida, Lisboa. Veio para escrever canções novas e revolucionar a sua maneira de olhar para o mundo. Instalou-se na vila de Alvito, construiu um estúdio – a sua principal ferramenta de trabalho - e começou a dar vida às canções que viriam a dar corpo ao seu novo (e agora primeiro) disco: Auto Rádio.

Luís Nunes, nome de baptismo, voltou pela necessidade de escrever na sua língua. E com isso – e por isso - reflectir sobre o seu universo, falar sobre e com as pessoas que existem no seu dia-a-dia, sem a barreira da língua. Benjamim voltou às raízes. Nesse regresso, organiza memórias remotas do Portugal colonial, histórias que lhe chegaram em diferido – seja pelo pai que veio de Angola no pós 74, carregado de filmes super 8, seja pelas longas histórias à mesa, com o amigo Quinito, sobre o dia em que este foi enviado para a Guiné, para lutar numa guerra que ficava demasiado longe do Alentejo. Mas Benjamim fala também de Portugal, do Porto, que lhe vem do lado mãe, da crise, do amor. Ou simplesmente de carros a acelerar pela marginal de uma qualquer cidade à beira do Atlântico – com música capaz de fazer dançar pessoas numa quase esquecida vila alentejana.

O primeiro disco da ‘vida’ de Benjamin vai buscar inspiração ao Duo Ouro Negro, à Lena d'Água, ao Chico Buarque, ao Zeca Afonso, mas também a Bob Dylan – músico que lhe encheu a juventude de sonhos de uma terra distante – aos Beatles, aos Beach Boys.

Auto Rádio é um disco feito para que as pessoas o consigam compreender. Pessoas que não precisem de outra língua porque lhes basta uma, a que falam todos os dias. Com histórias que são daqui e não existem em mais parte nenhuma do mundo. É sobretudo um disco em busca de uma identidade que o norte da Europa tornara difusa.

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