Entrevista a Manuela Gonzaga, Escritora Portuguesa

Ler Manuela Gonzaga foi das melhores decisões que tomei em 2014. Para além de ter considerado Moçambique - Para a mãe lembrar como foi um ...

Ler Manuela Gonzaga foi das melhores decisões que tomei em 2014. Para além de ter considerado Moçambique - Para a mãe lembrar como foi um dos melhores livros do ano, tive também o prazer de conhecer a autora, o seu grande sorriso e a sua extrema bondade. Lutadora nata, tem já mais de uma dezena de livros publicados, sendo que a maioria, fora do infantil, são romances autobiográficos. Recentemente, lançou Xerazade - A Última Noite, uma obra que só pode ter vindo de uma espécie de Olimpo universal e que, com toda a certeza, vai fazer parte do leque dos melhores de 2015. Mesmo com as nossas vidas extremamente ocupadas, lá conseguimos conversar um pouco. Fiquem com a maravilhosa escritora portuguesa, Manuela Gonzaga:


Querida Manuela, fala-nos um pouco sobre ti, os teus gostos e o que é que fazes actualmente para além da escrita.
Querida Sofia, a escrita ocupa-me substancialmente a vida a tempo inteiro. Como costumo dizer, tenho livros para escrever na fila de espera. Mas há outras paixões que me envolvem e desafiam. A História – a que continuo ligada. Para além dos graus académicos que já obtive, licenciatura, pós graduação e mestrado, encaro seriamente a hipótese de avançar para um doutoramento. Por outro lado estou de alma e coraçao num partido de causas: animal, ambiental, humana. O PAN. (http://www.pan.com.pt/)


O que é que te impeliu a começar a escrever? 
A palavra. O deslumbramento que senti quando aprendi a ler e a escrever. O mundo da minha infância está densamente povoado de histórias. Aí pelos meus oito anos já sabia que era por aí. É a única certeza constante da minha vida. Para além da certeza do amor e do amar. 


Boa parte das tuas obras são autobiográficas. Tens sentido a necessidade de arquivar esses momentos do teu passado?
Ui!! Essa pergunta é tão particular. Na verdade, e para responder à letra, os livros (e já vão doze) tem inevitavelmente o ADN do seu autor. Donde, toda a obra é autobiográfica por definição, pelo menos até um certo ponto. Mas grande parte dos meus livros não tem a ver com a minha vida. As biografias da Maria Adelaide Coelho da Cunha, de António Variações ou de Imperatriz Isabel de Portugal, estão claramente fora dessa equação. Da mesma forma, o romance histórico Jardins Secretos de Lisboa só poderá ser biográfico pela dimensão plural de mundos onde me foi dado viver e pelas pessoas que tive o privilégio de conhecer desde muito jovem. Mas é ficção mesmo. Agora… porque as escrevi e pesquisei e lhes dediquei tantos anos de vida? Aí já entra a minha história pessoal. Já Moçambique para a Mae se Lembrar como foi, aí sim, parte da minha história de vida. Bem como alguns dos contos de A Morte da Avó Cega. Sem dúvida. 


Moçambique, para a mãe lembrar como foi é, talvez, o livro mais íntimo, no sentido em que foi escrito quando tinhas a tua mãe muito doente. Foi o livro que mais te custou escrever até hoje? 
Talvez. Até porque fui obrigada a olhar zonas que permaneciam muito na penumbra. E recordar implicou equacionar, lidar com aspectos menos bonitos da minha e nossa vida. Por outro lado, não me fazia sentido ficar só no estritamente pessoal, a partir do momento em que ultrapassava a dimensão de escrever estórias para a mesa de cabeceira da minha mãe, que as lia, esquecia, voltava a ler… e que tanto prazer lhe deram. Aquela é uma história de muitos, contada pela voz de uma miúda que foi crescendo e se fez mulher. Uma ignorante que nem sabia que não sabia. Mas com uma memória de elefante… e outras valias. Em todo o caso, aprendi muitíssimo a escrever este livro. E recebi dele muito mais do que poderia imaginar. Em termos não materiais. 


Entretanto, surgiu Xerazade, essa obra magnífica, que parece trazida directamente dos deuses, ou do universo, ou de tudo e todos, mas que apenas tem uma mão – a tua. Eu estive na apresentação, mas a maioria dos leitores não esteve, queres-nos falar um pouco sobre como foi surgindo este enredo? 
Há vários anos a escrever biografias – tirando o caso dos três romances juvenis de «O Mundo de André» – cansaram-me muito. A minha imaginação desatou a escoucear e a abrir as asas. Foi assim que comecei a postar, no face book, algumas frases, quase aforismos. Relatos muito, muito concisos. Não me passava pela cabeça que era um livro. Até ao momento em que percebi que aqueles eram fragmentos de uma história contada por uma mulher que se está a despedir do amante que, por sua vez, não a quer deixar ir embora. Não no sentido de rotura – percebi rapidamente que ela também o ama. Mas por uma questão de destino. 


O que é que te fascina mais ao contares estas histórias? Sentiste algum propósito ao escrevê-las? 
Não sinto propósito nenhum. Sinto uma exultação que nem consigo definir. É como respirar. Se não escrever o meu propósito de vida perde significado. 


Tens algum momento da narrativa que queiras destacar, algo a que queiras dar especial significado? 
Gosto muitíssimo de algumas histórias que esta Xerazade conta. Por exemplo, aquele conto budista que não li em lado nenhum (para responder aos que acham que tirei de algum lado, como outros que ali são narrados). Refiro-me a «O discípulo pele de cão». Também me toca muito a história dos dois irmãos no «Pais da Cocanha». E de alguns trechos em que o amor entre eles é muito físico, muito profundo, muito intenso e comovedor. A par, evidentemente, dos desencontros, e até do ódio que por vezes repassa na forma como ela recorda algumas estórias da História dos dois. Mas acima de tudo, o que me perturba e me estimula é o propósito dela de passar do tempo para além do tempo até ao limiar de uma eternidade e de uma plenitude que, a cada instante, foge de nós.


Foi-te difícil escrever este livro? Tiveste momentos de bloqueio? Se sim, como é que foste lidando com eles? 
Não sou dada a bloqueios. Quando isso acontece, durmo sobre o assunto e no dia seguinte está resolvido pela Central. Costumo dizer que tenho dupla nacionalidade já que gosto de navegar entre o consciente, o subconsciente e o inconsciente. Mantive durante anos e anos um diário de sonhos que me abriu muitas portas nesse sentido. 


Deixa-me perguntar-te coisas agora mais generalistas… Que escritores, ou que manifestações de arte, te têm inspirado ao longo da tua vida? 
São tantos, mas tantos, que não saia mais daqui e quando saísse seria com a sensação de ter cometido grandes injustiças por omissão. A Vida inspira-me. Da mais pequena manifestação, à obra de arte que me deixa em silêncio e a chorar. Como aconteceu a primeira vez que fiquei diante da Pietá, em Roma. E da segunda não aconteceu porque o vidro á prova de bala, detêm não sei como, uma certa energia que manava da obra. Entretanto, na capela Sistina, tive de me controlar para não soluçar, e já vinha a chorar ao longo daquelas galerias repletas de pinturas que, sinceramente, nem sequer são o meu género. Acho que tem um nome e tudo, «comoção estética». Fiquei mais tranquila, senti-me muito tola… e já me aconteceu perante outras circunstâncias. Quase sempre obras de arte. Mas as imagens do Concorde, que não vi «ao vivo» por exemplo, também me comoviam às lágrimas, e eu nem sou nada sensível a automóveis e coisas assim. 


Vês-te a colaborar com outro(s) escritor(es) numa única obra? Quem seria o/a felizardo/a? 
Não me vejo. A não ser numa obra colectiva de teor académico. 


Qual a obra que te marcou mais até hoje. É a mesma que aconselharias os teus leitores a ler “obrigatoriamente”? 
Não sei responder porque teria que escalonar por épocas, por exemplo. Neste momento, os meus livros de cabeceira são uma estante para dar uma ideiaJ


Por fim, quando é que temos mais Manuela Gonzaga em papel para devorarmos?
Estou a escrever um romance histórico, agora quando vou conseguir acabá-lo é que já não sei J 


Fotografias por Sofia Teixeira

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