Opinião: O Complexo dos Assassinos, de Lindsay Cummings

O Complexo dos Assassinos Lindsay Cummings Editora : Edições Saída de Emergência Sinopse : Meadow Woodson, uma rapariga de 15 a...

O Complexo dos Assassinos
Lindsay Cummings

Editora: Edições Saída de Emergência

Sinopse: Meadow Woodson, uma rapariga de 15 anos que foi treinada pelo seu pai para lutar, matar e sobreviver em qualquer situação, reside com a sua família num barco na Florida. O Estado é controlado pelo Complexo Assassino, uma organização que segue e determina a localização de cada cidadão com precisão, provocando o medo e opressão em absoluto.
Mas tudo se complica quando Meadow conhece Zephyr James, que é – embora ele não saiba – um dos assassinos programados do Complexo. Será o seu encontro uma coincidência ou parte de uma apavorante estratégia? E conseguirá Zephyr impedir que Meadow descubra a perigosa verdade sobre a sua família?


Opinião: Faltam há volta de 12 dias para o lançamento de O Complexo dos Assassinos, mas muito já se fala por aí pela razão óbvia - a semelhança da capa e do lettering com o design pós-filme da trilogia Os Jogos da Fome. Se é verdade que costumam dizer "não julgues o livro pela sua capa", dificilmente tal está a ser aplicado a este livro e eu até consigo entender que as pessoas possam, ou não, ficar indignadas com a capa, mas o que já me faz confusão é que se julgue o conteúdo sem ainda o terem lido. Com isto, o que tenho a dizer é que não hesitei em ler o livro porque nesta coisa do marketing editorial o que mais acontece são capas parecidas (nos romances, eróticos em especial, é a toda a hora) e se fosse ficar chateada com esta, ficava com muitas outras. 

Em relação à trama, penso que seja importante referir algumas coisas primeiro que acho que são importantes actualmente. As distopias, género em que esta obra se insere, depois de uma valente quantidade lida, podem ser vistas e destacadas pelos mais diferentes ângulos. Há quem se foque no enquadramento e na possibilidade futura de um tal mundo, há quem se foque no tipo de acção e grau de violência, há quem procure a esperança de um mundo melhor e o romance impossível. Na minha óptica, e é nesse sentido que a opinião vai continuar, depois de tantas distopias lidas dificilmente haverá uma surpresa no world-building ou até mesmo no enredo. Portanto, o que eu procuro nestas histórias é que independentemente de tudo isso me façam querer continuar a lê-las e a um ritmo rápido, sem perder grande tempo em dramas desnecessários. O Complexo dos Assassinos deu-me isso, não a um ritmo fervoroso, mas o suficiente para eu em quatro dias, com pouco tempo disponível, conseguisse terminar a leitura. 

A narrativa oscila entre duas perspectivas, a de Meadow e a de Zephyr, dois adolescentes que ocupam lugares diferentes dentro do Perímetro, zona isolada onde tudo tem o seu preço e onde a sociedade está fragmentada entre aqueles que trabalham para o Complexo, os Programados, os Sanguessugas (membros do governo) e os restantes, que apenas podem lutar pela sua sobrevivência. Todas as noites morrem dezenas e dezenas de pessoas que os Programados recolhem no dia seguinte. Zephyr é um programado atormentado pela matança, Meadow luta para poder trabalhar e levar mais comida para casa. Os seus destinos acabam por se cruzar de forma definitiva quando Zephyr se tenta matar e é a partir daí que a acção acelera consideravelmente. 

O mundo dos Programados foi o que mais me chamou à atenção, temos indivíduos que se comportam como meros escravos durante o dia para, de repente e sem qualquer consciência disso, se tornarem em autênticos assassinos, completamente treinados, que não cedem por nada. No caso do governo distópico, este tem origem no encontro da cura para a Peste que, inserida na rede de abastecimento de água, acabou por curar e tornar os humanos completamente imunes, tendo como reverso a morte de animais e o facto de as pessoas já só morrerem de causas naturais. Não demora muito tempo até que se apercebam disso e é aí que surge o Complexo dos Assassinos, como ferramenta de teste para manter o nível populacional aceitável perante os recursos disponíveis. 

É uma história sangrenta, sem dúvida alguma, a bondade dificilmente é aplaudida e na maioria dos casos é matar ou morrer. A procura pela verdadeira identidade e as descobertas tão difíceis de constatar atribuem uma carga emocional muito forte. A própria relação entre as mais diversas personagens está cheia de silêncios e memórias dolorosas. Penso que a autora foi bem sucedida na forma como encadeou os acontecimentos e como mantém o leitor em estado de alerta. Não abusando da fórmula, consegue inserir uma certa dose de romance que reforça a ligação aos protagonistas. 

Lindsay Cummings tem em O Complexo dos Assassinos uma mistura de 1984 com Os Jogos da Fome, é verdade, mas num sentido mais actual e de uma realidade quase palpável quando pensamos na evolução da medicina e do desenvolvimento in-vitro. Não quero cair na tentação dos spoilers, mas para mim a parte científica destes livros, tal como as questões éticas levantadas, são sempre um catalisador. Com uma forte componente de Thriller aliada à Distopia, facilmente recomendo este livro, sem qualquer sombra proveniente pela escolha da capa, e fico a aguardar pela sua continuação. 

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