[Opinião Blog Morrighan] NOS Primavera Sound 2015 e o poder de possuir os corações das pessoas

“People have the power”, foi o cântico entoado por duas vezes no Parque da Cidade do Porto pela fantástica Patti Smith em dois dias distintos, o primeiro e o segundo. No terceiro tivemos um “Can’t take my mind of you” e um “I will possess your heart” que na sequência dos acontecimentos fez todo o sentido. As pessoas têm, de facto, o poder de proporcionarem momentos únicos, de por meio do seu talento e genuinidade encherem os corações de quem as admira. 

Foi a minha primeira edição do NOS Primavera Sound e só posso esperar que se sigam muitas mais – assim o festival se mantenha fiel a ele mesmo. O espaço é, na minha opinião, o mais bem conseguido de todos os festivais em Portugal. A combinação Queimódromo mais Parque da Cidade proporciona espaços distintos para diferentes actividades (alimentação e entretenimento no primeiro e os diferentes palcos no segundo), o que permite uma boa circulação sem grandes atropelos ou confusões. 

77 000 é o número estimado de pessoas que frequentaram esta edição, com cerca de 40 nacionalidades diferentes, evidenciando já alguma massificação, mas onde a média de idades é superior às dos outros festivais e onde também se encontram mais melómanos. A diversidade fala por si, a organização do festival em Portugal arriscou nos nomes que achou por bem e se alguns acharam-nas arriscadas, a verdade é que é essa a diferença que começa a fazer falta nos festivais do nosso país. Muitas vezes falamos de os festivais se terem que adaptar ao público, mas talvez esteja na hora de ser o público a adaptar-se aos festivais, no sentido em que começa a ser cansativo vermos festivais a perderem qualquer tipo de identidade para se tornarem em autênticas máquinas comerciais. O NOS Primavera Sound, mesmo tendo já muito do fenómeno do “vou porque é fixe” ainda consegue preservar o espírito de diferença, de mostrar uma qualidade e heterogeneidade que, tirando Paredes de Coura numa dimensão bem mais pequena, é já única em Portugal. 

Fotografia Hugo Lima

Passando ao que interessa – a experiência por si mesma! Na verdade tudo começou de forma muito atribulada para o meu lado. Como era a primeira vez que ia ao Primavera, não sabia onde era a entrada e muito inocentemente comecei por explorar o extremo oposto ao que devia. Depois de meia hora em correria, lá levantei a pulseira com as meninas simpáticas da zona de imprensa e lá fui eu a correr para o Palco Super Bock para ver Bruno Pernadas. Este é um dos músicos mais talentosos do nosso país e foi com comitiva completa, com nomes como Afonso Cabral (YCWCB) e Joca (Tape Junk), que – do pouco que consegui ver – fez jus ao que muito se tem dito por aí. A colina estava composta, a zona perto do palco também e para estarem pelas 17h prontas para o ver é porque realmente já reúne um bom conjunto de fãs. Da minha parte digo, sem problema nenhum, que era um dos meus cabeças de cartaz do dia, juntamente com Patti Smith e FKA Twigs. 

Fotografia Hugo Lima

Acabou por ser mesmo essa a sequência de concertos, com uma Patti Smith de meter inveja a qualquer músico de qualquer idade, senhora de si mesma e com um poderio no palco sobre o público que poucos conseguem. Houve momentos mais emocionais, outros mais ternos, músicas dedicadas a pessoas que marcaram o mundo, como Nash, entre outros, e ainda ao seu neto. Que orgulho deve ser para ele ter uma avó assim! Seguiu-se FKA Twigs a não desiludir, mas também a não surpreender. Se por cá tenho defendido a valorização e o crescimento da música electrónica, a verdade é que esperava mais intensidade, talvez emoção, por parte artista experimental britânica. Ainda fiquei para Interpol, que tendo uma setlist muito boa, peca também por não transmitir grande empatia durante o concerto. Sendo sempre simpático, faltou a Paul Banks o dinamismo esperado a um vocalista de uma banda rock. Claro que isto é tudo a minha percepção e o meu gosto, quando estou num concerto rock gosto de sentir a música a entrar-me pelas veias e a energia a vibrar-me no peito – em Interpol não consegui sentir isso. 

Fotografia Hugo Lima

O segundo dia começou com o grupo brasileiro Banda do Mar. São conhecidos pela sua simpatia, pelo seu pop que nos enche de sorrisos e foram bem sucedidos no que toca a deixar os corações quentes de quem os ouvia. Tendo pouco mais de um ano, tem sido de louvar o percurso ascendente e a presença num festival deste calibre tão cedo. Seguiram-se os Giant Sand, que não conhecia e que não me marcaram em particular, para depois termos nova sessão com a rainha Patti Smith a tocar o disco Horses num anfiteatro natural com uma excelente moldura humana! Antes disso ainda passei por Viet Cong, nada mau, mas foi depois da Patti, em José González, que voltei a sentir aquela energia vibrante no ar. O argentino/sueco encheu o público de sorrisos e deu um concerto impecável tendo também tirado da manga a cover Teardrop dos Massive Attack que nem um mestre, acho que até fiquei ainda mais fã! Não é para isso que servem os concertos? Quem também não desiludiu em nada foi Sun Kill Moon. Quem sabe, sabe, e o palco é já uma casa confortável de quem vem percorrendo um longo caminho nele.

Fotografia Hugo Lima

Belle and Sebastian, e Anthony and the Johnsons foram os meus dois últimos concertos do dia. Se com os primeiros a nostalgia e a alegria, com saltos e aclamações, foram a marca de um regresso, com Anthony and the Johnsons o concerto pedia uma solenidade que dificilmente foi encontrada. As circunstâncias eram especiais – o concerto era não ampliado, o que por si só requeria um respeito e um silêncio que existiram pouco. Mesmo estando perto das colunas do lado esquerdo, o som não era límpido e o público à minha volta não se calava com conversas curriqueiras. E aqui entra o tal aspecto do tipo de público que se quer num festival que pretende fazer apostas destas. Que Anthony é um artista cheio de talento e que merece a nossa admiração, penso que todos sabemos, mas consegui-lo é outra coisa.

Fotografia Hugo Lima

Chega Sábado e as saudades já apertaram. Foi obrigatório entrar no recinto como se fosse a primeira vez, gravando na memória os espaços, as caras radiantes, o convívio em tom de partilha e, em alguns casos, de despedida. Começou em língua portuguesa com Manel Cruz, a representar décadas da nossa música e a ser ele mesmo. Com músicas novas e outras de Supernada e Pluto, a grade estava ao rubro e ainda se cantou os parabéns à Camila! Seja ela quem for! Na minha agenda seguiu-se o estrondoso Thurston Moore que para além de tocar como ninguém, transborda um gosto e um comprometimento com o que faz que é de louvar. Foxygen foi um espectáculo digno do estilo Broadway. O vocalista despiu-se e vestiu-se, correu, saltou, conseguiu ter o peito a sangrar, sem nunca deixar de estar completamente electrizado. A restante comitiva, com bailarinas que fariam corar anúncios red bull (acho que não quero saber o que é que tomam!), ajudou à festa e proporcionou um bom momento de entretenimento ao público.

Fotografia Hugo Lima

Com Damien Rice, voltamos ao estilo solene. Munido apenas com as suas guitarras e belíssima voz, o palco NOS poderia parecer demasiado grande, não tivesse a sua música a capacidade de o tornar gigante. Num jogo de luzes simples ao longo do concerto todo, “The Blower’s Daughter” arrancou um coro valente do público e o fim foi fenomenal, com loops consecutivos até parecer que estávamos perante uma banda super composta e com um Damien Rice emotivo que entregou tudo o que tinha. Entretanto, o relógio marca às 22h10 e aí é o meu coração que já não aguenta de expectativa – finalmente a oportunidade de ver Death Cab For Cutie. Banda que remonta a 97 como ano de origem, tem sido um dos conjuntos que mais me tem acompanhado nos últimos. Uma hora que mal dei por ela passar, que soube a pouco, mas quem não quer mais quando ainda por cima sabem como dar ao público aquilo que ele quer?

Fotografia Hugo Lima

Para além de alguns temas do mais recente disco, percorreram clássicos como “I Will Possess Your Heart”, “Soul Meets Body”, “You are a Tourist”, entre outros. Faltou-me a Tiny Vessels, mas não se pode ter tudo na vida, já tive a “Transatlanticism”! Adorei a energia da banda em palco e, a par de Patti Smith e Thurston Moore, foi dos concertos que mais gostei.

Seguiram-se os Ride cujo público era, claramente, mais velho. Foi fascinante ver o entusiasmo, as letras sabidas de cor e o ambiente estava realmente muito bom. Quando terminaram dividi parte do tempo entre The New Pornographers, que não conhecia e dos quais certamente vou ouvir mais, e Dan Deacon, que sabe como animar e entusiasmar o público. Era rara a pessoa que não dançava e não correspondia aos apelos do músico. Underworld e Pharmakon, os últimos dois concertos pelos quais passei, não me entusiasmaram de sobremaneira. Cansada como estava, nenhum deles foi capaz de me dar o boost de motivação extra de que precisava para me manter no recinto e assim terminei o NOS Primavera Sound 2015.

Fotografia Sofia Teixeira

Verdade seja dita, saí exausta (já andava em maratona desde o evento do blogue no Musicbox na Quarta-feira), mas de sorriso no rosto e de “coração possuído”. Venho com a paisagem na memória, os sorrisos, os imprevistos, os encontros com tanta gente fantástica e talentosa (penso que foi o festival onde encontrei mais artistas portugueses como espectadores – pode ser que um dia tenham lugar num dos palcos como montra de exposição para o estrangeiro!). Um agradecimento do tamanho do mundo à organização pela oportunidade que me concederam para testemunhar a enormidade que é o festival. Quero acreditar, vigorosamente, que este festival se vai manter ímpar e que em nada vai sair prejudicado por causa disso. Não há mais nenhum com um conjunto de estrutura, infra-estrutura, cartaz e comunidade tão enorme e com tanta qualidade como este. Nenhum. No outro dia dizia nas redes sociais que pela primeira vez sinto que posso ter dois amores no que toca a festivais. Nunca escondi, nem escondo, que Paredes de Coura tem um simbolismo que mais nenhum tem, que é o meu preferido. Todo o misticismo do campismo, vila, etc., fazem dele o que é e contra factos não há argumentos. Mas agora imaginem um espírito semelhante, com uma dimensão muito maior, na mesma com a natureza a rodear-nos e cartazes de um poderio que obviamente o irmão não consegue ter. Não sei, fica a ideia. Eu adorei e espero mesmo repetir. E que continuem os jogos entre o moderno e o antigo, as apostas nas bandas novas e a recordação das que marcam gerações. É isso que queremos, é disso que precisamos, uma reeducação musical que passa por mostrar personalidade naquilo que se quer ouvir. Penso que não é à toa que este é um dos festivais onde vi mais crianças a acompanharem os seus pais. A boa música é para ser ouvida desde pequeninos! Obrigada, NOS Primavera Sound, pelos momentos únicos. 

PS: Mega obrigada ao meu primo Ricardo Monteiro pelas boleias todas! Obrigada também à Raquel Nunes, à Margarida Cardoso, ao Kristen e ao Diogo pela excelente companhia ao longo dos três dias! As gargalhadas ainda ecoam nos meus ouvidos J

PS2: As pizzas e as batatas fritas do Maus Hábitos souberam que nem ginjas nos poucos minutos que tirámos para comer! 

PS3: Sou uma sortuda por ter gente tão fantástica na minha vida para partilhar estes momentos. Obrigada, leitores! 

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    Olá a todos, sejam muito bem-vindos! O meu nome é Sofia Teixeira e sou a autora do BranMorrighan, o meu blogue pessoal criado a 13 de Dezembro de 2008.

    O nome tem origens no fantástico e na mitologia celta. Bran, o abençoado, e Morrighan, a deusa da guerra, têm sido os símbolos desta aventura com mais de uma década, ambos representados por um corvo.

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