[Crónica] Depressão, por Ben Monteiro

"Coragem…coragem? É das palavras que mais tenho escutado no último ano e meio quando o tema é depressão, ou a depressão que atr...



"Coragem…coragem?

É das palavras que mais tenho escutado no último ano e meio quando o tema é depressão, ou a depressão que atravessei mais em concreto. E digo atravessei sabendo que o pior já passou e meio que em jeito de exercício de fé, sendo que se for totalmente honesto esta é a pior altura do ano para mim. Disse-me o meu psicólogo que a minha depressão era sazonal e que os meses que rondam o final de um ano e princípio de outro são os mais críticos. Bem…coragem!

 Nunca me abstive de falar sobre doença mental, e ocasiões não faltaram. Diz a minha manager que já corremos a imprensa praticamente toda desde que editámos o nosso disco. Sabendo que é algo pelo qual devo estar grato - e estou - muitas vezes foi um fardo difícil de suportar, este de responder dezenas de vezes às mesmas perguntas tentando fazê-lo de forma inventiva, “bem disposta e fresca”, tal como apelidaram a música que fazemos em D’Alva. Felizmente tinha alguém a meu lado durante todo esse percurso, o Alex, que na melhor ou pior das suas capacidades esteve sempre presente e isso, na maioria das vezes, foi suficiente. Conforme o tempo foi passando, a atenção sobre nós foi redobrando e as perguntas iniciais inundaram a imprensa e a internet, e logo começaram a aparecer outro tipo de perguntas mais pessoais, mais profundas. De repente, as pessoas queriam saber mais sobre nós e um dia saiu da minha boca: “…uma coisa interessante é que quando editámos o nosso disco, 2 meses antes, eu fui diagnosticado com uma depressão séria e ansiedade”. A expressão de desconforto na cara de quem nos entrevistava foi notória. Comecei a ser intencional quanto a falar sobre isso e fui notando a mesma coisa a acontecer sistematicamente, mas o interessante foram as conversas que aconteceram em “off”. Facilmente metade das pessoas que nos entrevistaram já tinham lidado pessoal ou indirectamente com alguma forma de doença do foro psicológico, mas tinham receio em falar e louvavam a minha “coragem”. Afirmo sem qualquer ponta de falsa modéstia que falar sobre isto nunca foi um acto de coragem, foi apenas algo natural, e ainda sinto o mesmo.

Mas afinal de contas o que é ter uma depressão provocada por se sofrer de ansiedade que quase nos leva ao suicídio? É mau, muito mau, mas não é o fim do mundo, como 450 milhões de pessoas por todo o mundo vos poderão dizer! Isto se conseguirem vencer o medo associado ao estigma deste tipo de doença. Agora pensem neste número: 450.000.000 de pessoas…
É muita gente, e sem me querer perder por números que não são o meu forte, Portugal, a seguir à Irlanda do Norte, é o país da Europa com mais casos de doença mental, numa doença que é totalmente transversal, que não escolhe etnia, classe social ou ocupação profissional. Falando de profissões, cerca de 22 das 100 pessoas que fazem o vosso circulo mais fechado de pessoas não conseguem manter um emprego de forma normal por conta desta doença. Este é um dos maiores problemas, a dificuldade em manter um emprego, ou suportar uma família, ou de o fazer a muito custo. Eu próprio já fui dos que pensam que ter uma doença deste foro é ser-se fraco, até que me tocou a mim e percebi de forma flagrante a minha própria fragilidade. 

Perante essa verdade maior, não havia como senão dar-me por derrotado. E fi-lo, sem qualquer problema. Afinal de contas eu lutei com todas as forças que tinha e não fui capaz de hold it all togetherNews flash: Ninguém é, e ninguém é suposto fazê-lo!
Somos seres profundamente comunitários, por muito que tudo o que nos rodeia hoje nos leve ao isolamento, passamos muito tempo perdidos em nós mesmos, a ouvir a nossa música, nos nossos phones, olhos vidrados no Instagram a espreitar os momentos “best of” dos outros, perdendo o que está acontecer à nossa frente... Estamos sós no meio de multidões.

 A grande razão pela qual eu não me posso considerar digno do título de corajoso passa por saber o quanto me custa lidar com as minhas próprias incoerências, os meus deslizes, os meus lapsos. E sim, eu até tenho a desculpa de parte dos meus sintomas serem a ansiedade que se revela em pernas que não conseguem estar paradas quanto estou sentado e que abanam qualquer mesa de café ou jantar, o medo de sair da cama, de sair do quarto, de trabalhar, de sair de casa, ou a irritabilidade que me faz perder a paciência em momentos escolhidos a dedo, em que numa frase meia torta e atabalhoada ( de tão rápida que sai ) ou num qualquer post parvo, destruo em segundos o que a esforço tento reconstruir, passando de brilhante e coitadinho a terrível e odiador. O pior de tudo é que só percebemos estes sintomas quando já é tarde, quando o estrago já foi feito. Falo em plural porque é algo que é de quem me rodeia também, são essas pessoas até que mais sofrem com isso. A seguir vem a frustração, o desanimo, o sentimento de total impotência, de incapacidade de controlar sequer o que se diz, sentindo-nos como aquela pessoa trapalhona que por muito que tente derruba sempre qualquer coisa onde quer que vá, e tem o medo do retrocesso, da recaída.

Estou a aprender a lidar com isso, a aceitar-me e a acreditar que a única coisa que posso fazer é tentar ter mais cuidado com os outros, o que passa por ter mais cuidado comigo, mas confesso ser difícil. A minha recuperação foi fulminante no primeiro ano, mas nos últimos seis meses tem sido duro. Há uma dose grande de normalidade que voltou a fazer parte do meu quotidiano, e para quem convive comigo ou me vê de fora está tudo bem, mas no fundo não está e este “Inimigo invisível” como apelido esta doença, apesar de estar em retirada ainda se encontra presente. Quem assiste de fora não imagina que depois de um fim de semana de concerto de casa cheia e sucesso, passo o que me resta de domingo e normalmente a segunda-feira toda a dormir de cansaço não físico mas mental.  

Quando lhe expressei que ao tentar ler tinha de voltar a re-ler a mesma página vezes sem conta, sentindo-me frustrado e cansado imediatamente, a minha psiquiatra disse-me: “ Imagine a sua mente como uma perna partida, quanto mais a tentar usar sem estar totalmente sarada, só se vai magoar e retardar a recuperação. Se você tivesse uma perna partida não andaria enquanto não estivesse recuperado certo? O problema é que a mente não se vê, não se pode colocar gesso na mente, por isso você precisa de ter cuidado, não se sobrecarregar e ser paciente”.  Uma das razões que me faz continuar a fazer música é justamente por ser uma das coisas que faço mais naturalmente e com menos custo a nível mental…estranho não é? Mas não consigo trabalhar ao ritmo de outrora e tenho noção de que sou privilegiado nesse sentido, grande parte das pessoas afectadas por isto estão a estudar e sua ferramenta principal é a mente. 

O Google não é o melhor local para auto-diagnósticos por isso desconfiei quando gorgolei “depression symptoms”, pois de facto batiam certo e se googlarem vai bater certo, mas atenção! Não confundir um estado ou fase depressiva com uma depressão! Todos passamos por fases assim e é algo perfeitamente normal, mas quando esse estado de espírito não muda ou vai embora ao fim de sensivelmente seis meses, então de facto há razões para alarme. Das primeiras que vos vai apetecer fazer é isolarem-se. Lutem contra isso. Estejam com alguém. Não tenham receio de dizer “Eu penso que tenho um problema”. Para quem está de fora e assiste a alguém atravessar por isto, poupem-se de conselhos se pensam que os têm. Se percebem que não têm não há problema, o estar é suficiente. Não vou descrever todos os sintomas porque não sou terapeuta e uma simples pesquisa no google revela os mesmos. Não duvido que vamos ver cada vez mais casos destes a emergir e é uma questão de tempo até ser incontornável este problema. Vamos acelerar o processo por favor, vamos falar…não precisamos gritar, precisamos apenas falar.

Não quero ser visto como coitado, não quero ser visto como corajoso, não quero ser visto como um exemplo a seguir, quero ser visto pelo que sou apenas: alguém que sofre de algo e que verbaliza o que atravessa. Não há heroísmo nisso, não há nada de extraordinário, há apenas uma voz. E se essa voz parece gritante é apenas pelo contrastante silêncio em torno do assunto. Corajoso é quem comigo atravessa este deserto e me segura a mão quando as pernas tremem, quem me abraça quando preciso, quem pacientemente me atura quando critico tudo e todos a duzentos à hora e disparo em todas as direcções, quando a ansiedade me invade e o coração bate inconsolavelmente, quando as palavras se atropelam e gaguejo, esses sim…corajosos.

Poderia dizer muito mais sobre isto, mas fica quem sabe para outra altura. A quem se revê no que digo, desejo coragem."

Ben Monteiro

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