[Crónica Filipe Faria] Corpo São

Corpo São A escrita é uma actividade sedentária e cerebral, mas isso não é desculpa para descurarmos o corpo. Seria esse o meu chavão, ...


Corpo São

A escrita é uma actividade sedentária e cerebral, mas isso não é desculpa para descurarmos o corpo. Seria esse o meu chavão, caso estivesse a tentar vender a ideia por detrás desta crónica, mas a verdade é que ela não se aplica só a escritores, mas sim a qualquer pessoa que passe muito tempo sentada a trabalhar ao computador. Nesse sentido, e porque a nossa estimada Morrighan há muito me atazanava o juízo por eu lhe estar a dever uma crónica, venho hoje partilhar convosco três dicas para manterem o corpo são enquanto trabalham ao computador — na medida do possível, bem entendido, pois quem passa muito tempo a trabalhar ao computador nunca tem um corpo inteiramente são. A sério, deviam mesmo ir dar uma volta em vez de lerem isto... mas, para quem não se quer levantar, eis como podem fazer menos mal a vocês mesmos.

Fundo preto

Aquilo que salvou os meus olhos nestes quinze anos que levo de escrita intensiva ao computador foi um hábito que desde cedo cultivei: o de não me expor à luminosidade intensa que os fundos brancos dos processadores de texto radiam. É uma sova luminosa que se dá à vista, sobretudo de noite, e mais ainda quando se fala da exposição prolongada a que se sujeita quem trabalha muito tempo à frente do ecrã. Por isso, a primeira, melhor e mais básica dica que posso dar a todos quantos se encontram em situação semelhante, é mudarem a cor do fundo da aplicação que usam. Para mim, o esquema que melhor funciona é fundo preto, bordas cinzentas e letras cinzento-claras — este último pode parecer estranho, mas a verdade é que o contraste entre o branco e o preto também se torna cansativo para os olhos à sua maneira, e a menor luminescência do cinzento-claro trata disso. A única coisa que têm de ter em atenção é, quando enviam um documento para outrem, certificarem-se de que a letra não vai cinzento-clara, mas acreditem quando vos digo que a saúde dos vossos olhos vale bem esse pequeno passo adicional em situações pontuais.

O da esquerda faz os olhos chorar. O da direita, também, mas de alívio

Adaptar a cor do ecrã

Não, não vou começar a discorrer acerca de placas gráficas, níveis de cor, correcção gama nem nada que se pareça. Vou, isso sim, recomendar que instalem um programa para vos poupar aos efeitos nefastos da “luz azul” que é emitida por dispositivos electrónicos como telemóveis, tablets e monitores de computador. Sem querer entrar em demasiados detalhes, sermos expostos à luz durante a noite não é lá muito bom para o nosso ciclo circadiano, porque suprime a produção de melatonina, a hormona fundamental para a organização temporal dos ritmos biológicos, e o comprimento de onda da cor azul é particularmente mau. Diminuir a luminosidade do ecrã ajuda um pouco, mas não muito, porque o comprimento de onda da luz continua a ser o mesmo, e a desgraçada da melatonina continua a penar. Como escrevo e trabalho muito com o computador de noite, instalei o programa f.lux (ou, em alternativa, Redshift), que ajusta a “temperatura” da cor do monitor consoante a hora do dia. Além de serem gratuitos, os dois programas são um verdadeiro bálsamo para os olhos, fáceis de instalar e de personalizar, e recomendo-os vivamente a quem tem hábitos informáticos nocturnos, com a garantia de que não conseguirão imaginar como as vossas retinas sobreviveram até então sem eles.

Inverter o paradigma

O ser humano não foi feito para passar tanto tempo sentado, e nós fazemos muito mal a nós mesmos todos os dias por isso mesmo. Escritores, então, é uma desgraça, mas qualquer trabalho de escritório nos sujeita aos efeitos nefastos que passar muito tempo sentado acarreta para a circulação sanguínea, postura, etc. Escusado será dizer que o exercício físico é fundamental para uma vida saudável, e que fazer intervalos para nos levantarmos e esticarmos as pernas deve ser um ritual para quem tem um trabalho ou entretém que o leva a passar muitas horas sentado, mas há algo mais que se pode e deve fazer em tais situações. Eu chamo-lhe “ioga sem mariquices”, um par de exercícios que vou alternando ao longo do dia e da noite, e que serve para dar uma sacudidela ao corpo e ajudar a manter o motor afinado. Recomendarei apenas um deles sem quaisquer reserva, pois os outros podem magoar quem não estiver habituado a fazer exercício, e nem eu nem a Morrighan queremos ser responsáveis por acidentes.


Este não tem nada que saber. É deitarem-se no chão e ajeitarem-se como puderem com as pernas contra a parede. Há formas mais elegantes de o fazer, mas o importante é formar um “L” contra a parede e deixarem-se estar nele até 15 minutos, embora ninguém tenha paciência para isso quando está a meio do trabalho. Para mim, bastam uns minutos para relaxar, estimular a circulação sanguínea e aliviar a sensação de pernas pesadas quando se passa muito tempo sentado. 

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