Escritos Aleatórios #62

Era bom que as palavras fossem suficientes para expressarem o que sinto, o que me consome. Não é só o recordar-me de ti, da tua imagem,...



Era bom que as palavras fossem suficientes para expressarem o que sinto, o que me consome. Não é só o recordar-me de ti, da tua imagem, que custa. É o recordar-me da cadência da tua voz, da textura da tua pele, de cada traço, de cada abraço, dos beijos por entre suspiros, do toca e foge tenso, ao mesmo tempo ansioso e sôfrego, dos sorrisos velados e das promessas contidas. É o fechar os olhos e ter a capacidade de me transportar para aqueles momentos, nunca suficientes, em que me despertavas os sentidos e me fazias sair do entorpecimento que em tempos me caracterizou. Os estremecimentos, breves mas intensos, marcavam o compasso da nossa dança desajeitada, tímida, mesmo que no fundo cada um de nós apenas quisesse libertar as amarras e consumir o outro até não restar mais nada, até os corpos estarem saciados, as almas apaziguadas, e a sensação de casa no peito um do outro. Tudo tão breve, tudo tão efémero, tudo tão... inacabado. 
O medo, o medo tolda tudo, principalmente emoções já de si reprimidas e encolhidas pelas circunstâncias. Partilho contigo uma curiosidade: sabias que basta um quinto de um segundo para alguém se apaixonar e apenas quatro minutos para a cumplicidade entre duas pessoas surgir? Sabendo isto parece ridículo questionar como é que foi possível acontecer tudo como aconteceu, mas parece-me também redutor ir por este caminho. A verdade é que as explicações procuram-se sem que haja uma verdadeira resposta a qualquer pergunta. Quando se sente algo no nosso âmago, dificilmente se justifica a origem ou até a sua permanência. Trago-te comigo para onde quer que vá, viajo contigo onde quer que esteja, toco-te assim que fecho os olhos. E a questão é esta, mesmo não te podendo ter, mesmo sabendo que pertences a outra pessoa, não te consigo deixar ir embora, mas também não te consigo reivindicar. Alimento-me do pouco que fomos, mas ainda mais do que nunca fomos, do que nunca seremos. Se me podia voltar a dar a alguém? Podia. Já o fiz, talvez ainda o venha a fazer novamente, mas os corpos passam, as memórias desvanecem-se e a única coisa que persiste são os teus dedos na minha pele, o teu hálito na minha boca, o teu sexo dentro de mim. Recordo os nossos corpos transpirados, as peles marcadas, as gargalhadas abafadas pelo momento que os nossos corpos se uniam e a melodia mudava, rouca. 
Mas o que seria disto tudo sem o registo marcado a fogo da diferença que as pequenas coisas faziam? As conversas sobre tudo e sobre nada, as confidências, a confiança que só um no outro encontrámos para aquelas coisas que mais ninguém faz ideia. Somos espelhos, agora e sempre embaciados por não haver espaço nem tempo para tomarmos o nosso lugar no mundo. 
Nas sombras, escondidas, andarão estas emoções. Hoje. Sempre. Não sobra nada. Não resta nada. Fica o vazio que se preenche apenas quando fecho os olhos. E penso em ti. 

Morrighan

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