Foi quando comprei o carro novo que o nosso amor morreu, por João Pedrosa

Foi quando comprei o carro novo que o nosso amor morreu Olá, Deves por certo estranhar o facto de eu te estar a escrever tanto tempo...



Foi quando comprei o carro novo que o nosso amor morreu

Olá,
Deves por certo estranhar o facto de eu te estar a escrever tanto tempo depois, tanto tempo depois da última vez em que, perto da Igreja da vila, me disseste que já não dava mais. Talvez por isso acredite cada vez menos nestas coisas da igreja, não deveria ser a igreja o local onde as pessoas se juntam para sempre, na saúde e na doença? Foram dias tramados (sem ti), é tramado fazer o desapego. Tentei fazê-lo com a Teresa e depois com a Raquel e por último com a Sandra. A Sandra até fodia melhor que tu mas tal como as outras não foi suficiente para te tirar de mim. Depois descobri o Miguel Esteves Cardoso, ensinou-me tanta coisa, foram nestas palavras que me curei:  “Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.” No outro dia, quando me vinha nos seios da Carla, lembrei-me de ti e de quando, no meu antigo carro, escolhíamos o sítio mais escondido para fazer amor; durante o ato ouvíamos uma k7 dos Interpol e no fim ficávamos abraçados a fazer planos. Agora mal me venho visto-me e dou uma desculpa à Carla ou à Sónia para me ir embora. Deve ser esta a diferença entre fazer sexo com amor e fazer sexo sem amor. São coisas a que me tive de habituar, mas viver sem o teu amor foi pior.  Foi quando comprei o carro novo que o nosso amor começou a morrer. De que serve ter um carro novo se depois temos medo de passar por buracos ou de sujar os estofos com o sémen que te escorria. De que serve ter um carro novo se nos recusamos a ser felizes dentro dele, por mais que o carro já tenha leitor de discos e eu possa avançar rapidamente para a música que te faz vir. De que serve ter um carro novo se depois temos medo de acelerar juntos e sem destino? Foi quando comprei o carro novo que o nosso amor começou a morrer. Hoje já não sofro, a carta que te escrevo é para te agradecer por aquele dia, pelo dia em que me deixaste. Foi aquela rotura que me permitiu transformar e neste momento viver uma das fases mais positivas da minha vida. Alimentei a dor para depois me poder alimentar dela. A dor é uma coisa forte. Sabes, o que mais me custou nesse dia foi achar que já não me amavas. Hoje, passado tanto tempo, consigo ter a certeza que nesse dia ainda me amavas e só querias o meu bem. Obrigado

João Pedrosa

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