Opinião: Os Enamoramentos, de Javier Marias

Os Enamoramentos Javier Marías Editora : Alfaguara Sinopse : O novo romance de um dos mais importantes e respeitados escritores...

Os Enamoramentos
Javier Marías

Editora: Alfaguara

Sinopse: O novo romance de um dos mais importantes e respeitados escritores espanhóis. Com obra publicada em mais de 50 países, e mais de 6 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo e distinguido com o Prémio Literário Europeu 2011. "Os Enamoramentos" foi considerado o melhor romance do ano 2011 (eleito por um painel de 57 críticos literários espanhóis). O autor aborda o mistério em torno de uma morte acidental para reflectir sobre o estado do "enamoramento", considerado quase universalmente como algo positivo, quase redentor, que tanto justifica as acções nobres e desinteressadas, como as maiores tragédias e catástrofes.


Opinião: Terminei 2015 a ler este livro. Engraçado como por vezes são mesmo as obras que nos escolhem e não o contrário. Lembro-me de o ter recebido, juntamente com a edição especial de Jesus Cristo Bebia Cerveja, de Afonso Cruz, e de pensar que ia ter que o colocar na pilha por ler. Na verdade não me tinha chamado muito à atenção. Depois voltei a pegar nele e abri numa página ao acaso. Juro que não podia ter havido passagem que me prendesse mais. Já ia no final da página (existem parágrafos que ocupam mais do que uma!) quando me obriguei a parar. Foi a minha leitura seguinte. Demorei algum tempo, mas também não o queria ler com pressa. Cada página era virada com tanto fascínio como assombro, num misto de reconhecimento e admiração enquanto nos apercebemos do quão humano é este romance.

Nunca antes tinha lido Javier Marías e a boa notícia é que já tenho ali outro livro dele para ler. Ao longo da leitura fui partilhando uns quantos excertos e muitos foram os leitores que ficaram curiosos. Alguns até já me disseram que já o compraram e que querem que seja a sua próxima leitura. Espero que não se desiludam, acho que acima de tudo este é um livro muito pessoal, muito íntimo. Quando digo isto não é que tenha passado por qualquer uma das experiências que os protagonistas passaram, mas porque o autor consegue pegar em pequenas coisas e elevá-las a reflexões e a constatações demasiado carnais, demasiado humanas. 

Começamos numa esplanada, com Maria, editora de livros, que em tom de rotina observa um casal. Todos os dias o mesmo ritual. Admira-os, pensa em como serão as suas vidas. Um dia tem de viajar e quando volta o casal, que há tempos e tempos aparecia lá todas as manhãs, não vê ninguém. Isso causa-lhe alguma estranheza, ainda mais quando só a vê a ela. Decide meter conversa e aqui começa uma segunda narrativa. Na verdade este livro está cheio de narrativas dentro de narrativas, histórias que se engolem e se fundem, tramas que passam da imaginação ao papel activo ou então que apenas se desmoronam com uma futura lucidez dos acontecimentos.

O que mais se realça por entre estas personagens é a relatividade das emoções consoante o sujeito em causa e perante o dito Enamoramento. A forma como encaramos as paixões, como muitos cegam ou apenas se submetem ao papel de secundários, sabendo que nunca terão o querem daquela relação, mas ainda aceitando as migalhas com a esperança impossível de que se mude de ideias. No fundo a história de Maria é esta. De sozinha durante tanto tempo, acaba por se enamorar de alguém que a usa, sem rodeios, ela com noção e mesmo assim continuando. Afinal, a esperança é a última a morrer, não é? De qualquer maneira, diga eu o que disser, será sempre redutor em relação à solidez com que Javier Marías confronta o leitor com as suas potenciais fragilidades emocionais e o abana perante as mesmas. Para quem gosta de livros mais densos, que exploram mais as motivações do ser humano e as emoções por trás das mesmas, aconselho vivamente.


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