Entrevista aos Bed Legs, Banda Portuguesa - "Este disco tem muito sacrifício de todos a vários níveis"

Uma das coisas que mais tenho pena neste 2016, pelo menos até agora, é de não ter conseguido ir ao Sabotage ver o concerto de apresentação ...

Uma das coisas que mais tenho pena neste 2016, pelo menos até agora, é de não ter conseguido ir ao Sabotage ver o concerto de apresentação de Black Bottle, pelos Bed Legs. Recebi o disco com umas boas semanas de antecedência, mas quis o universo que algumas peripécias acontecessem e nem entrevista presencial, nem concerto, mas o gosto pelo disco é muito superior a isso tudo e propus-lhes uma entrevista por escrito. Nunca ficam tão boas nem com tanta alma como as outras, mas achei que era uma presença merecida neste espaço que pretende dar a conhecer projectos emergente da música portuguesa, e neste caso com um rock tão bom. Ficam algumas perguntas para vos despertar a curiosidade e no fim também os links para os seguirem e ouvirem. Dia 12 de Março eles vão estar no Café Au Lait, a convite da querida Biruta Records, por isso podendo é irem vê-los! Espero que gostem! Obrigada, Fernando, pelas tuas respostas!


Ouvi dizer que os Bed Legs, na altura ainda sem nome, surgem de uma jam num sótão. O que é que veio primeiro: a decisão de formarem uma banda ou a jam resultar tão bem que quiseram formar a banda? 
Foi a química que tivemos durante esses encontros, bem como a amizade, que nos fez continuar até formarmos banda.

Também sei que o nome surgiu por causa de um concurso de bandas em que tinham a necessidade de apresentar um nome juntamente com a maquete. Convosco é caso para dizer que desde o início escolheram fazer a vossa própria cama?  :) 
A banda não foi premeditada. Porém, existia em todos os membros uma vontade de continuar a criar e a praticar música. A nossa cama sempre foi desarrumada e despreocupada. Agora temos mais brio e fazemos a camita. Mas haverá sempre o problema das migalhas, dos líquidos entornados e do ressonar.

Como é que surge Not Bad, o primeiro EP em 2014?
Na altura em que fomos para o concurso de bandas já tínhamos cerca de 7/8 temas compostos e estávamos entusiasmados com as composições. Apresentamos esse repertório em vários concertos e o feedback do público foi positivo. Até aí, já tínhamos umas demos caseiras mas achamos que as músicas eram demasiado boas para serem demos e precisavam de um registo mais apropriado. Foi aí que nos dirigimos ao Grave Studio e gravámos o “Not Bad” com o Pedro “Grave” Alves.


Confesso que só vos conheci com o aparecimento do Black Bottle agora em 2016. Como é que tem sido o percurso até aqui? O EP correu como desejavam?
Sim, o lançamento do EP foi espectacular, fizemos uma festa de arromba em Braga e depois começámos a dar concertos pelo país. Completamente desconhecidos no panorama musical mas extremamente entusiasmados tivemos oportunidade de mostrar o nosso trabalho em diversos palcos. Conhecemos locais novos, bandas novas, gente nova e criámos contactos que ainda mantemos. Foi gratificante. Ah! E ainda fomos à Arménia para uma residência musical. We love Armenia!!!


Assim que coloquei o vosso disco a tocar fiquei de “orelhas no ar”. Sem lhe ter prestado muita atenção já captava um sentimento de proximidade e intensidade muito grande. Sei, por ter lido noutras entrevistas, que é um disco muito pessoal. Quanto de cada um de vocês é que este disco tem?
Este disco tem muito sacrifício de todos a vários níveis. Começámos a compor  a “Black Bottle”depois de um período largo de descanso em que estivemos afastados dos palcos. Desde essa altura até ao lançamento passámos por momentos conturbados e difíceis na nossa vida pessoal. Acho que é por isso que  o álbum tem uma aura de lamento, envolto de alguma escuridão mas cheio de vida ao mesmo tempo, porque existe em nós vontade de criar e de ultrapassar os desafios da vida. O lançamento do álbum foi como que o fechar de um ciclo complicado e agora é altura da colheita. Porém, as vindimas dão cabo das costas.

Mesmo tendo músicas orelhudas, o tema que escolheram para nomear o disco – Black Bottle – pode ser considerada uma espécie de balada. Concordam? Porquê este extremo oposto da maioria aguerrida que é o disco?  
Não a consideramos uma balada, é mais um lamento. A aura do álbum é de lamento. Este não é um álbum de celebração e de vibrações positivas. É um reflexo da vida que levamos e que não é pêra doce. Decidimos ser verdadeiros com o sentimento geral do álbum e nomeá-lo “Black Bottle”.


Vícios, ambições, paixões, desejos, ilusões e desilusões. São estes os ingredientes principais que quando presentes numa vida podem dar origem a um rock, a uma sonoridade, como a vossa? Desde as cadências vocais, aos riffs tanto agressivos como até melancólicos, sempre com um baixo pulsante e uma bateria que complementa e unifica. Sai-vos tudo naturalmente?
A alma dos temas sai-nos naturalmente, através da improvisação. Por vezes, um de nós traz ideias de casa mas é maioritariamente na sala de ensaios  onde tudo acontece. Depois há que desenhar o mapa de todo aquele imaginário e aí entram as estruturas, letras, passagens, solos e arranjos. 
Basta fecharmos os olhos, sentir a vibração da nossa sugestão para podermos soluciona-la, termina-la e acabar com o rumor.


Existe alguma história em particular que queiram partilhar connosco? Sobre alguma coisa que tenha motivado algum dos temas?
A  história da “Wrong Man” já se passou com todos os elementos da banda. Fala sobre não seres o homem indicado para a mulher que está apaixonada por ti. As incompatibilidades são sempre chatas e complicadas, principalmente para quem está enamorado. É preciso tomar uma atitude e acaba sempre mal. Ou então, podes sempre fugir, mas é “xunga”.


Se um escritor fosse contratado para pegar no vosso disco e transformá-lo numa obra literária, que género de livro é que acham que daria origem?
Uma comédia orgásmico-trágica, por Hank Moody.

Já agora, a literatura é algo que faça parte do vosso quotidiano ou nem por isso?
Sim, nas rótulas das garrafas podemos encontrar aspirantes a escritores muito interessantes(risos).

E que discos é que vocês, mesmo que não sejam influências, gostam de ouvir?
Um pouco de tudo. Sempre à procura da melhor cura.

Voltando ao disco, como correram os concertos de apresentação? Sei que em Braga a festa tornou-se numa autêntica loucura. Falem-nos disso e também de como foi vir a Lisboa. Foram bem recebidos ou sentem que ainda existe muito aquela divisão sul/norte no que às bandas diz respeito?
A apresentação em Braga foi espectacular. Sentia-se a expectativa do público no ar e isso muito motivante, principalmente quando queres “arrebentar com ela toda”. O público vibrou, cantou, dançou e aplaudiu. Sem palavras!
Em Lisboa, foi altamente porque já somos acarinhados no Sabotage. Partilhámos o palco com os Crude e a casa estava composta. O saldo de Lisboa foi positivo. Ainda não somos muito conhecidos e existe o receio de não termos casa. Mas em qualquer circunstância rockamos! 
E sim, “Portugal é Lisboa e o resto é paisagem”(Eça de Queirós) mas as coisas estão a mudar, mesmo que lentamente. Sente-se que em todo o país existem artistas, indivíduos e grupos culturais, apoiantes que lutam para que localmente exista qualidade, quantidade e regularidade na criação de eventos artístico-culturais. Um abraço a todos eles.

E o futuro? O que é que podemos esperar dos Bed Legs nos próximos tempos? A internacionalização é uma meta?
O futuro passa por dar muitos concertos e divulgar o nosso trabalho. Mais para a frente, lançar novo álbum. A internacionalização é uma meta. Conan O'Brien Show e Jimmy Fallon aqui vamos nós!

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