Entrevista aos Youthless, sobre "This Glorious No Age", o disco de estreia

É hoje à noite que os Youthless apresentam o seu primeiro disco de longa duração no Musicbox Lisboa. This Glorious No Age chegou às minhas ...

É hoje à noite que os Youthless apresentam o seu primeiro disco de longa duração no Musicbox Lisboa. This Glorious No Age chegou às minhas mãos há umas semanas e tornou-se imperativo saber mais sobre eles. Bem tentei arranjar disponibilidade para me encontrar com esta dupla, que mais parece uma orquestra, mas infelizmente tive de enviar as perguntas por escrito. Muito amavelmente eles responderam rapidamente às perguntas e lá estarei, hoje à noite, para fazer a festa de um disco que está tão especial! Em tom de introdução, deixo-vos com a informação oficial sobre o mesmo e depois com a respectiva entrevista! 

Os Youthless editaram o seu primeiro álbum “This Glorious No Age” no dia 7 de Março de 2016, através da nosdiscos.pt em Portugal e da Club.the.mamoth / Kartel em Inglaterra. Em 2011 os Youthless começaram a delinear os contornos do esboço de "This Glorious No Age", um LP sustentado em algumas das ideias de Marshall McLuhan acerca da descoberta da electricidade, e acerca de como tamanha façanha teve, e ainda tem, tão profundo impacto em todos nós. Ao segundo disco (o EP "Telemachy" foi editado em 2009), o duo decidiu contar esta história perpassando a História do rock, nomeando as canções em função de famosos duos da música, começando pelo duo acústico psico-folk de Marc Bolan, nos anos 60', e daí escalando década a década até à electrificação contemporânea abstracta dos Lucky Dragons. No entanto, assim que a banda iniciou os trabalhos do LP, Alex (vocalista e baterista) sofreu uma lesão muscular nas costas que pôs em causa a possibilidade de continuar a tocar bateria e actuar. Durante o longo período de hiato forçado e respectiva reabilitação, Alex iniciou o processo de escrita de canções sobre a posição em que ele e o companheiro de banda Sebastiano se encontravam, o que aprofundou os temas ao ponto de encaixarem sincronicamente com o conceito do LP: temáticas como a desintegração do velho mundo, a viagem rumo a terreno incerto, pesadelos, esperanças de ascensão, como as ferramentas moldam o construtor, e a nossa obsessão pelo passado e pelo futuro... O LP desenvolveu um duplo significado, por um lado muito pessoal, circunstancial, e, por outro, universal e mitológico. O produto final, que foi gravado morosamente em estúdios caseiros e caves de músicos, entre trabalho noutros projectos, é um inesperado avanço. Um LP de estreia que é, em simultâneo, um renascimento e um embarque para o novo destino sonoro da banda - ainda fiel às suas irreverentes raízes no noisey garage, e ao mesmo tempo uma estrada aberta para um excitante novo território. O disco foi misturado por Justin Garrish (Vampire Weekend, The Strokes, Weezer) e gravado por Chris Common, Pedro Cruz e a própria banda em vários estúdios caseiros e sótãos entre Lisboa, Sintra e Cascais. Conta com a participação de Francisco Ferreira (Capitão Fausto, Bispo), João Pereira (Riding Pânico, LaMa), Chris Common (These Arms are Snakes, Le Butcherettes), Francisca Cortesão (Minta and the Brook Trout) e Duarte Ornelas.



O que começou como uma brincadeira – o Alex a querer aprender a tocar bateria e ambos a quererem fazer uma banda de covers de Black Sabbath – transformou-se num projecto que nos últimos 6-7 anos cresceu imenso. O que é que vos marcou mais nesse início e quando é que decidem formar os Youthless? 
Acho que a primeira vez que tocámos juntos o que mais nos surpreendeu foi que funcionava. Logo no primeiro ensaio inventámos 4 músicas… e eu nem sabia tocar. Só sabia fazer duas batidas básicas na bateria (fazíamos piadas sobre como que eu era pior que a baterista dos White Stripes). E lembro-me de cada vez que nos juntávamos, pensar... bom, já descobrimos todas as coisas que podem funcionar com este alinhamento, mas depois saíam mais e melhores músicas a cada novo encontro. Inventávamos imensa coisa… e acho foi daí que decidimos fazer disso uma banda séria. 

Vocês não nasceram em Portugal, mas podemos considerar que são uma banda que reside em Portugal, concordam? De que forma é que Portugal e os outros países pelos quais têm passado contribuem para aquilo que compõem? 
Lisboa tem-nos influenciado imenso… musicalmente, há um tropicalismo aqui que nos afecta muito. Entre a música africana, brasileira, todo o reggae que se houve aqui… e a maneira de viver, muito “laid back.” Depois Londres e NY, em particular, tem-nos influenciado... em NY há um mundo underground de arte que ainda sobrevive actualmente mas quando eu cresci nos 80 e 90 era muito forte... ver os graffitis de Basquiat e Kieth Harring na minha rua no East Village e chocar com Madonna ou David Byrne ou Lou Reed sempre que vais comprar pão... isso deixa uma grande marca na tua imaginação.

Youthless, oficialmente, são apenas vocês os dois, mas a verdade é que quem ouve This Glorious no Age consegue imaginar um palco cheio de pessoas a produzirem os sons que se ouvem. Como é que foi o vosso processo de composição e quem é que fez parte do mesmo?
Nós cumprimos tudo sozinhos com baixo, bateria e voz... e gravámos tudo... com Chris, Pedro e Sab também gravámos muitas das vozes. Depois trouxemos o Francisco Ferreira, João Pereira e Duarte Ornelas para gravar teclados por cima (mas alguns também foram gravados por nós). Às vezes tínhamos ideias exactas de coisas específicas que queríamos que fizessem, e muitas vezes eles improvisavam por cima das músicas e depois escolhíamos as pistas que queríamos usar. Há músicas em que combinas partes das linhas dos três a tocar em diferentes momentos. Cada um tinha um estilo e criatividade diferente e brilhante... foi uma dádiva muito grande para o disco.


Entre o EP e o LP passaram um bons anos. Acredito que muito tenha acontecido nas vossas vidas, mas desconfio que a lesão do Alex tenha marcado alguma diferença. Quanto é que This Glorious no Age, o vosso primeiro disco de longa duração, tem de experiências pessoais? 
É tudo experiências pessoais. O disco tem uma estrutura conceptual muito pensada e “universal” de certa forma... quase como uma alegoria sociológica. Mas depois cada tema é abordado directamente através de experiências pessoais das quais falo. Namoros, mortes, a minha lesão. Por isso gosto das alegorias. Dá para ser super pessoal mas sentes-te protegido... como se não estivesses a falar de ti.

Sei que a nomeação das músicas também não é de todo inocente e a narrativa parece estar bem definida. Querem falar sobre a mesma?
Sim, o disco é completamente conceptual, tem uma história específica com várias temáticas ressurgentes. Grande parte da temática deste LP está inspirada num pensador chamado Marshal Mcluhen que aborda como as ferramentas que os homens criam moldam a sua sociedade, e muito especificamente, a electricidade. Por isso, o LP traça a viagem de um mundo antigo (em termos do Marshal Mcluhen, o mundo "pré-eléctrico") para um mundo novo para o qual caminhamos. Como este é o nosso segundo trabalho discográfico (depois do primeiro EP Telemachy), e como nós somos um duo, decidimos também esconder os nomes de famosos duos da história do rock dentro dos títulos de muitas das músicas, de forma cronológica, para realçar esta ideia da transição do mundo acústico, ou mundo das leis mecânicas do Newton, para um mundo eléctrico, do relativismo de Einstein e da subjectividade das leis quânticas.

O título do disco também parece remeter para alguma crítica dos tempos modernos. De que forma é que acham que a música, e a arte no geral, pode fazer a diferença nos dias que correm?
Gosto muito da ideia que Mcluhan tinha sobre a arte. Ele dizia que o animal social, como entidade completa, demorava mais ou menos 200 a perceber-se e adaptar-se às mudanças no seu meio ambiente, que está sempre a mudar por causa da tecnologia. Mas alguns artistas sentem o momento e o transmitem de uma maneira visceral, que toca no ser sem ter que passar pela parte racional. Por isso, de certa forma, a boa arte trabalha como um vidente. Aponta para as coisas que são evidentes mais tarde. Isto até acontece com a ciência... há muitas comparações entre elementos do trabalho de Proust e coisas que descobrimos sobre o cérebro humano 80 anos mais tarde... ou Van Gogh e a mecânica quântica. Obviamente há poucos artistas nessa categoria, mas são metas nobres num meio que às vezes sente muito narcisismo e vazio.

Tanto o vosso EP como agora o primeiro disco de longa duração, mostram uma grande coerência nos pormenores - desde o grafismo às letras, passando pela sequência sónica. É algo que é planeado a preceito ou tem pura e simplesmente acontecido?
Neste disco, em particular, planeámos muito essas coisas... encontrámos numa peça de arte de Mariana Dias de Cunha, um símbolo perfeito daquilo que queríamos transmitir com o disco. Um tipo de Mandala ou padrão natural, mas feito pelo homem. Um sentido da natureza que inclui o homem e tudo o que ele constrói.


Voltando um bocadinho atrás no tempo, li numa das vossas entrevistas que ao início a vossa primeira experiência lá fora teve que contar com investimento financeiro da vossa parte. Muitas vezes as novas bandas queixam-se de falta de oportunidades no estrangeiro, ou que não vão pagar para tocar. Qual é a vossa visão sobre este assunto? Consideram que essa entrega e essa busca, esse investimento, é um passo necessário para também se crescer enquanto projecto musical? 
Para nós foi importante tocar lá fora porque Inglaterra e USA são as nossas casas, tanto como Portugal. Nós somos de lá e depois de muitos anos a viver cá, sentimos muito a vontade de poder unir os dois mundos. Levar o que estávamos a fazer cá para lá, tal como estávamos a trazer as nossas influências e raízes de lá para Portugal. Também acho que depois de estarmos aqui muito tempo sentimos algo que muitos Portugueses sentem… “o que faço é bom para Portugal... mas lá fora, no mundo real, isto não vale nada.” Quando começámos a receber prémios em Inglaterra e a ser elogiados lá fora, então apercebemo-nos de que o que fazemos e as coisas que nós adoramos que também se fazem cá, tem valor objectivo. Portugal tem mesmo algo para oferecer ao mundo… mas é difícil tirá-lo daqui... é preciso arriscar muito e não nos importarmos mesmo com o dinheiro... isso não pode ser o objectivo no início.

Tendo as perspectivas de Portugal e do estrangeiro, como é que analisam a indústria musical em Portugal? Têm algum conselho para bandas que estejam agora a começar?
Acho bom tocar lá fora só para ver as diferenças e ganhar experiências diferentes… mas honestamente nós estamos bastante desligados da “indústria musical.” Temos muitos amigos nessa indústria porque gostamos deles ou do trabalho que fazem mas tento pensar nisto tudo mais como um arte marcial ou algo muito sério à qual vale a pena dedicar-se tempo mas não como uma profissão.

Para terminar, esta Sexta-feira temos a apresentação do vosso disco no Musicbox Lisboa. Ouvi dizer que vão haver algumas surpresas! Querem desvendar um pouco sobre com o que é que podemos contar nessa noite? 
Sim! Vamos ter convidados fantásticos, Jibóia, LAmA, Octa Push... todos a tocar e a colaborar… e depois temos o Francisco Ferreira e João Pereira a tocar teclados (por isso vamos tocar muitas músicas em quarteto). E Guillermo Landin, o baterista da nossa antiga banda Three and a Quarter, vai tocar connosco. Vai ser muito divertido!


Mais uma vez, o meu muito, muito obrigada pelas excelentes respostas! Deixo-vos com mais informações:

Facebook:

Novo single - High Places



“High Places” teve estreia internacional no passado dia 4 de Março na Clash Magazine, http://clashmusic.com/news/track-of-the-day-43-youthless 


A música, inspirada numa caminhada a solo que o vocalista/ baterista Alex Klimovitsky fez pelo Gerês, tem o nome dum duo Indie Pop de Brooklyn, e segue uma das temáticas escondidas no álbum. O disco é baseado nas ideias de Marshall McLuhan acerca da descoberta da electricidade e do impacto que tamanha façanha teve, e ainda tem, em todos nós. Essa história é contada percorrendo a História do rock, nomeando as canções em função de famosos duos da música, em ordem mais ou menos cronológica, começando pelo duo acústico psico-folk de Marc Bolan, nos anos 60', e daí escalando década a década até à electrificação contemporânea abstracta dos Lucky Dragons.

O vídeo da música, uma animação realizada por Brenda Roberts (Synchroma) com contribuições da artista Sofia Schiza, vai fazer parte de vários Festivais de Cinema de Curtas Metragens dos Estados Unidos e Europa.

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