Entrevista a Old Jerusalem sobre o disco "A Rose is a rose is a rose"

2016 está a ser um ano brutal em termos de produção e lançamentos de música portuguesa. Se 2015 já tinha provado que Portugal está de boa s...

2016 está a ser um ano brutal em termos de produção e lançamentos de música portuguesa. Se 2015 já tinha provado que Portugal está de boa saúde no que toca à diversidade e à qualidade, no presente ano, e ainda só vamos no início do segundo trimestre, já temos discos com fartura cá fora que reforcem essa actividade frenética. A Rose is a rose is a rose saiu em Março e teve a ousadia de se tornar logo num dos melhores do ano. Sim, é cedo para afirmar tal coisa, mas só se não prestarmos a devida atenção às canções que o compõem. Eu posso dizer que mal ouvi a primeira música, A charm, esta entrou logo em diversas playlists minhas no spotify. Existe esta serenidade e beleza neste disco que revelam uma maturidade que pede a aclamação pacífica, mas firme, tanto em Portugal como no estrangeiro. Aqui fica a entrevista possível por e-mail sobre o percurso de Old Jerusalem cujo início aconteceu há 15 anos atrás. 

https://www.facebook.com/oldjerusalempt/
Olá Francisco! Vou ser completamente sincera contigo, só comecei a conhecer melhor o trabalho de Old Jerusalem desde que recebi o teu mais recente disco, A Rose is a Rose is a Rose. Mas antes de lá chegarmos, e porque já andas nisto desde 2001, o que é que ficou para trás? O que é que mais te marcou e se destacou desde que começaste este projecto até este trabalho? 
A fase mais marcante de Old Jerusalem foi seguramente a inicial, entre 2001 e 2003, aproximadamente. Foi a altura em que estava também a iniciar actividade mais regular a Bor Land, editora independente do Porto que lançou os primeiros 3 discos de Old Jerusalem, em que iniciámos actividade mais séria e em que se formou uma pequena comunidade muito activa de gente interessada e com propósitos comuns. Foi um período muito vivo e irrepetível.

Como é que a música entrou na tua vida? Consideras que escrever canções já se tornou em algo natural para ti? 
Comecei a interessar-me por música quando descobri, em miúdo, o Michael Jackson, e fui mantendo e desenvolvendo esse interesse desde aí. Não sei se escrever canções é algo natural, por um lado tornou-se efectivamente uma coisa mais ou menos regular e quase “identitária” em mim, mas o processo envolve sempre uma vontade e não é de todo linear.

Sei que as perguntas sobre as inspirações são sempre complicadas, mas na tentativa de te conhecermos um bocadinho melhor, podes-nos dar algumas referências? O que é que mais te tem influenciado enquanto Francisco Silva pessoa e músico? Existem diferenças entre ambos?
Tenho muitas influências musicais, mas as que se costumam atribuir a Old Jerusalem são correctas: a música de escritores de canções como o Will Oldham, o Mark Kozelek, o Bill Callahan, etc, a que se podem juntar alguns clássicos como o Leonard Cohen ou o Van Morrison. Também sou influenciado por alguma literatura, e aí poderia destacar a escrita do Raymond Carver.
Não há uma “persona” musical totalmente distinta do Francisco Silva-pessoa, apenas as demarcações que eu decido impor para preservar um certo conforto no meu dia-a-dia e não misturar demasiado os assuntos.

Já trabalhaste com outros artistas, não só como intérprete, mas também como autor. O processo de composição, entre seres o teu próprio autor ou escreveres para outros, é diferente?
A composição difere porque os parâmetros de cada trabalho são também distintos, em termos estéticos, de finalidade, de constrangimentos, etc. Mas claro que se mantêm também certas características intrínsecas à minha escrita, é difícil pô-las totalmente de parte.

Desde 2001 que sempre editaste com um intervalo regular de dois anos, desta vez demoraste cinco. O que é que provocou esta mudança? 
Essencialmente tratou-se de gerir questões de agenda dos músicos envolvidos no trabalho e com quem queria trabalhar neste conjunto de canções.


A Rose is a Rose is a Rose, marca então o regresso de Old Jerusalem e também o regresso das tuas colaborações com outros músicos. Sentias falta deste acompanhamento ou à medida que foste desenvolvendo o disco tornou-se uma necessidade natural teres estes acompanhantes contigo?
O disco anterior ao “A rose…” foi totalmente composto e interpretado por mim, pelo que sim, sentia falta e parecia-me adequado nesta fase ter mais gente a intervir nas canções.

Consideras um disco conceptual? Houve algum caminha traçado que decidiste seguir e com ele transmitir uma mensagem? 
Não vejo o disco como conceptual, nem pretendo transmitir nenhuma mensagem específica. Há temáticas e ideias recorrentes que dão alguma coesão interna e articulam esta colecção de canções, mas que ainda assim estão longe de ser “o” tema do disco.

Tal como confessei que pouco mais do que este disco conhecia da tua autoria, por muita vergonha que sinta ao fazê-lo, a verdade é que, e não estou a tentar compensar, mal o ouvi senti que estava perante um dos discos mais bonitos não só do ano, mas dos últimos anos. Pelo menos, que eu tivesse ouvido. Passado quase um mês do seu lançamento, como é que sentes que tem sido a recepção? 
A recepção tem sido muito positiva, quer por parte dos media, quer por parte do público que já teve contacto com o disco. A esse nível tem superado as minhas expectativas. 

15 anos de “carreira” é muito tempo, podemos até dizer que tens acompanhado o crescimento de uma geração inteira, ou mais. Sentes isso? 
Não posso dizer que o sinta, porque o percurso de Old Jerusalem se manteve sempre num patamar relativamente “low profile”, pelo que a cada disco parece que estamos a reiniciar tudo, sem garantias de como irá correr. No fundo, isso faz de nós eternos iniciados, apesar do tempo que já passou. J


E do ponto de vista musical e do teu envolvimento com a nossa “indústria” musical. Que balanço é que fazes do crescimento da música portuguesa no nosso país e como é que no fundo sentes que tens encaixado o projecto Old Jerusalem? 
Como disse, Old Jerusalem manteve-se sempre num patamar relativamente marginal da produção musical em Portugal. Não se tratou de opção nossa, teríamos naturalmente todo o interesse em chegar a muito mais gente, mas isso deveria ocorrer nos “nossos termos”, digamos assim, e simplesmente nunca ocorreu. Isso faz com que só me possa pronunciar quanto à indústria como consumidor, no fundo, porque o meio em que Old Jerusalem se move dificilmente se pode qualificar de “indústria” strictu sensu. 
Na perspectiva de negócio, a música sofreu grandes convulsões nos últimos tempos, e a sensação que tenho é que as gerações mais novas consomem música de forma e por meios que me são no geral um pouco estranhos. A esse nível sinto uma certa desconexão relativamente à forma como me habituei – e como eu toda a minha geração, praticamente – a consumir música. E quem diz consumir, diz também produzir, divulgar, etc.

Para terminarmos, e agradecendo-te desde já a paciência para responder a estas perguntas, que balanço é que fazes deste disco, do que sentes em relação ao mesmo e do que esperas que os próximos tempos te tragam? Obrigada J  
Ainda é cedo para fazer um balanço do disco, mas esta fase inicial está a correr bem. Os próximos tempos trarão seguramente o trabalho de apresentação do álbum em concertos. Depois dessa fase, não tenho ainda bem definido o que se seguirá, faremos o que fizer mais sentido no momento em que tivermos de decidir. J



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